NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DC I

Disrupção Cultural I: Entre Culturas

Património Cultural Imaterial: da singularidade à interculturalidade Rita Ribeiro (UM/CECS)

A consagração da noção de património cultural imaterial e os subsequentes processos de patrimonialização têm contribuído para o conhecimento e reconhecimento de manifestações culturais tradicionais que antes permaneciam circunscritas às comunidades detentoras. A disseminação à escala global de categorias conceptuais associadas ao património cultural imaterial criou condições de interconhecimento e promoveu análises reflexivas acerca de manifestações da cultura comunitária e tradicional, quebrando, assim, o autocentramento hiper-identitário comum a muitas destas expressões culturais. Por ação das práticas de inventariação e das tipologias classificatórias, quer sejam de âmbito internacional (designadamente enquadradas nas políticas da UNESCO), quer sejam de âmbito nacional ou local, as manifestações certificadas como património cultural imaterial dispõem hoje de um crescente grau de exposição mediática e são objeto de estudos transnacionais que evidenciam elementos de semelhança cultural em manifestações frequentemente ditas únicas e singulares na perspetiva émica das comunidades.


A partir do estudo conduzido no quadro das festas de Mouros e Cristãos, e especificamente sobre a festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado (Valongo – Portugal), pretendemos explorar as relações dialógicas induzidas pela mediatização do património cultural imaterial e debater as representações contidas na dualidade simbólica entre “mouros” e “cristãos”. Procuramos analisar criticamente a plasticidade de sentidos neste tipo de festividades, destacando a forma como na festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado o conflito típico entre os dois grupos pode ser ressignificado enquanto relação de abertura e tolerância perante a alteridade, ao mesmo tempo que constitui um elemento identitário central na comunidade. Deste modo, o estudo realizado demonstra a pertinência de associar aos estudos etnográficos e sociológicos acerca das manifestações de Património Cultural Imaterial a componente comunicacional, na medida em que existe um vasto e inexplorado potencial na implementação de estratégias de comunicação das manifestações da cultural popular tradicional, nomeadamente, das que vêm sendo objeto de patrimonialização. Em concreto, no caso das festas de Mouros e Cristãos, importa considerar i) a oportunidade de trazer formas culturais populares para o debate da interculturalidade, dado que se trata de manifestações que convocam dimensões históricas, simbólicas e sociológicas relevantes para o quadro das relações interculturais contemporâneas; ii) a complexidade e ambiguidade das categorias interculturais e como permitem questionar classificações patrimoniais simplistas e reificadoras.

Palavras-chave: património cultural imaterial; interculturalidade; festas de Mouros e Cristãos



Olhar as relações interculturais nos filmes de Margot Dias. Objetividades, subjetividades e opacidades. Alice Balbé & Luís Camanho (UM/CECS)

Durante o período colonial, enquadradas na Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português (MEMEUP), foram realizadas diversas viagens exploratórias a África como forma de coletar e produzir conhecimento sobre as comunidades “indígenas” em vários territórios das então denominadas “colónias portuguesas”. O antropólogo Jorge Dias seria incumbido como responsável da MEMEUP e contou como equipa com a pianista e etnomusicóloga Margot Schmit Dias, sua esposa, e o etnógrafo Manuel Viegas Guerreiro. Na sequência dessas viagens, destacam-se os trabalhos concretizados por Margot, que inicialmente começou por fazer registos sonoros e, posteriormente, insistiu pelas gravações de imagens de investigação etnográfica em suporte 16 mm. Os perto de 30 registos cinematográficos realizados por Margot no contexto da MEMEUP, que durante anos só puderam ser consultados nas instalações do ANIM (Arquivo Nacional da Imagem em Movimento da Cinemateca Portuguesa) estão atualmente disponíveis ao público em formato DVD com o título Margot Dias. Filmes Etnográficos 1958-1961 (2016), através da iniciativa da Cinemateca Portuguesa e do Museu Nacional de Etnologia. Originalmente mudos e com duração superior a quatro horas, foram sonorizados por Catarina Alves Costa e Pedro Duarte com recurso a gravações áudio feitas no terreno e sustentadas por extensas notas de campo da própria Margot. Nesta comunicação desenvolvida no contexto do projeto “Memórias, culturas e identidades: o passado e o presente das relações interculturais em Moçambique e Portugal”, procura-se analisar de que modo as contribuições do casal Dias, com destaque especial para o trabalho de Margot, e o pioneirismo e diacronia, têm sido analisados, com foco nas relações interculturais. Mais do que discutir sobre os registos das comunidades Macondes e Chopes, explora-se através de diferentes olhares os desafios de se trabalhar com estes arquivos num contexto pós-colonial, reconhecendo a multiplicidade de ambiguidades que vão surgindo na relação com as premissas contextuais em que os projetos originais foram produzidos.

Palavras-chave: relações interculturais;  Margot Dias; registos cinematográficos

Imigrante, estrangeiro, “o outro”? Representações das identidades culturais no cinema português Isabel Macedo & Tiago Silva (UM/CECS)

Para Tajfel (1981/1983, p. 290), a identidade social é entendida como “aquela parcela do auto-conceito de um indivíduo que deriva do seu conhecimento da sua pertença a um grupo (ou grupos) social, juntamente com o significado emocional e de valor associado àquela pertença”. A este propósito Hall (1994) refere que devemos pensar a identidade como um processo sempre incompleto, constituído no seio dos processos de representação. A identidade cultural não é uma essência fixa, mas profundamente marcada pela história e pela cultura. O passado tem um papel central no processo de (re)construção identitária e recorre sempre à memória, à fantasia, a narrativas e mitos. As identidades culturais constituem os pontos instáveis de identificação construídos no contexto da história e da cultura. Não uma essência, mas um posicionamento (Hall, 1994).


Nesta comunicação, apresentamos uma reflexão sobre o posicionamento de um jovem personagem sobre a sua própria identidade, as experiências familiares de migração e as relações interculturais que estabelece. Miguel Moreira é  personagem de dois filmes realizados por Filipa Reis e João Miller Guerra – o documentário Li ké Terra (2010) e o filme de ficção Djon Africa (2018).


Li Ké Terra significa “esta é a minha terra”, uma frase que os jovens do Casal da Boba, na Amadora, escrevem nas paredes do seu bairro. Miguel e Ruben, filhos de imigrantes cabo-verdianos, nasceram e vivem em Portugal, mas, por motivos vários, não têm a sua situação regularizada. O filme mostra a vida destes dois amigos.


Filipa Reis, refere em entrevista (2013) que pretende “partilhar pessoas”, “desconstruir estereótipos”. Salienta, ainda, que à medida que o tempo foi passando e os realizadores foram conhecendo melhor a realidade filmada, perceberam que há um conjunto muito grande de jovens descendentes de cabo-verdianos, uma comunidade de pessoas “nascidas cá, que não se sentem portuguesas”. A realizadora conclui que provavelmente “é uma questão maior do que a questão de documentação, é uma questão de identidade” (Reis, 2013). Este filme mostra-nos como o processo de construção identitária de Miguel Moreira é profundamente marcado pela história e cultura da sua família. O jovem identifica-se culturalmente como cabo-verdiano – a educação, a música, a gastronomia e mesmo o modo como expressa as suas emoções é cabo-verdiano.


Por sua vez, o filme de ficção Djon África retrata a viagem do jovem até Cabo Verde, onde espera encontrar o pai. Inspirando-se na história verídica de Miguel, este filme de ficção também explora as questões de identidade, de alguém que se identifica como cabo-verdiano, no entanto, é visto como migrante em Portugal e como estrangeiro ou turista no país que considera seu, Cabo Verde. Cruzando a análise fílmica com a análise da narrativa dos filmes e com a entrevista à realizadora Filipa Reis, problematizamos a complexidade das identidades sociais e as pertenças de Miguel Moreira, discutindo o seu posicionamento em relação ao mundo que o rodeia. Discutimos, também, o olhar dos realizadores sobre esta realidade e as estratégias fílmicas usadas na construção dos pontos de vista apresentados.

Palavras-chave: Identidades, relações interculturais, cinema

Resgate das memórias em As Duas Sombras do Rio, de João Paulo Borges Coelho Natália Alves (UA)

Repensar a história de Africa envolve rememorar o período colonial e pós-colonial e as atrocidades praticadas no território africano aquando do domínio colonial europeu. As memórias históricas e nacionais africanas assumem, assim, um papel fundamental para o entendimento desse período conturbado, que reprimiu o direito à liberdade do povo africano.


Em As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho volta a uma época desordeira e agitada do final do Império colonial em Moçambique e a um espaço remotamente situado na margem do Zambeze. Por intermédio da ficção, o autor procura retratar as lutas ocorridas durante a guerra civil moçambicana. Expõe as memórias de um passado sofrido, onde a brutalidade era comumente exercida sobre o povo moçambicano, quando este procurava construir uma nova nação, e parte dessas lembranças para esboçar uma reflexão sobre a própria condição humana.


Nesta relação entre ficção e história, entre passado colonial e presente pós-independência, norteia o escritor a sua narrativa. A tão desejada independência da nação moçambicana, que ocorre num contexto sociopolítico ainda profundamente impregnado da herança colonial, vai afetar a construção de uma nova nação. Na sua busca de identidade, as conceções de raça, classe social e etnias são repensadas, as tradições são submetidas a um revisionismo constante e a sociedade tradicional moçambicana é posta em causa.  


Neste artigo, pretende-se abordar o processo de construção da identidade moçambicana, partindo, nomeadamente, das representações raciais e étnicas presentes nesta obra de João Paulo Borges Coelho.

Palavras-chave: Identidade; representações raciais; representações étnicas; João Paulo Borges Coelho

(Re)vestindo o colonialismo: a alta costura de Olavo Amado Ana Cristina Pereira (UC/CES)

Nos últimos anos, intervenções públicas e artísticas em estátuas lidas como coloniais/colonialistas desencadearam um debate que, embora também presente em vários outros países africanos, se tornou particularmente eloquente em África do Sul, onde depois de 2015 a campanha #RhodesMustFall “lançou atenção sobre questões mais amplas, imperativos de transformação racial, como reparação, restituição, coesão social e cidadania ativa” (Swartz, Roberts, Gordan & Struwig 2020, 2).


No que se refere especificamente às estátuas colocadas em locais públicos, o debate segue duas escolhas principais: destruir as estátuas dos opressores ou preservá-las, mas ladeadas por placas explicativas (Burch-Brown 2017). No entanto, assistimos também a uma proliferação de intervenções artísticas que não destroem nem se limitam a contextualizar tais monumentos. Em vez disso, esses gestos artísticos questionam tais símbolos públicos, envolvendo-os num diálogo e, por extensão, questionando versões oficiais da história e os poderes instituidos que esses símbolos públicos defendem. Nesse diálogo entre o presente e o passado, não são apenas os aspetos da história que foram deixados propositadamente no escuro que são iluminados, mas também as visões complexas (ajustáveis, mutáveis, vibrantes em cores, distintas em padrões) do que nós somos hoje e do que queremos ser no futuro que invadem a esfera pública.


Em países como Angola ou São Tomé e Príncipe este movimento é associado a artistas como Kiluanji Kia Henda e Olavo Amado respetivamente. As imagens da intervenção artística de Olavo Amado, por ocasião da sétima Bienal de Artes e Culturas de São Tomé e Príncipe (2013-14) relacionam-se profundamente com a ideia de memória cultural transnacional (Assmann 2014), contribuindo para a atual disputa global pela memória e a discussão sobre políticas de memorialização.


Com a simplicidade desarmante e a agudeza do melhor humor, Olavo Amado (1979, São Tomé e Príncipe) escarnece da imagem do colonialismo e do imperialismo revestindo a pedra branca das estátuas de navegadores portugueses com tecidos e cores africanas. Este humor estende-se ao olhar de quem se depara com as imagens das estátuas (re)descobertas, perante quem aparecem não só como ‘redescobertas’, mas também como renascidas. No entanto, como costuma acontecer com as boas piadas, o riso rapidamente se transforma numa pausa tensa seguida de constrangimento. Silenciosamente, os observadores tentam entender o gesto complexo de Amado. Por que rimos? O que significa vestir estátuas coloniais com tecidos africanos? E por que razão o gesto de Amado é tão perturbador, afinal?


Através de uma análise crítica discursiva proponho refletir sobre a obra ‘Redescobertos’ de Olavo Amado (2014) e através dela pensar a atual disputa sobre a memória coletiva em Portugal e na sua relação com os PALOP e Brasil.

Palavras-chave: Olávo Amado; RhodesMustFall; memorialização; memória cultural transnacional; redescobertos

Reminiscências coloniais sob o signo do onirismo: A Batalha de Tabatô (2013) e Our Madness (2018) de João Viana Tiago Silva, Moisés de Lemos Martins & Elaine Trindade (UM/CECS)

Nesta comunicação propomos realizar uma reflexão sobre os filmes A Batalha de Tabatô (2013) e Our Madness (2018), de João Viana, a partir da relação entre o discurso fílmico e os estudos pós-coloniais. Sendo rodados, respetivamente, na Guiné-Bissau e em Moçambique, ambos os filmes são fortemente marcados pelo onirismo; ou seja, as obras procuram desvendar as inquietações que movem as personagens à luz de um espaço que se vai reconfigurando sob o irreal e o imaginado. Esta investigação enquadra-se num estudo mais aprofundado, desenvolvido no âmbito do projeto Memories, cultures and identities: how the past weights on the present day relations between Mozambique and Portugal. Ainda que o primeiro filme (A Batalha de Tabatô) seja rodado na Guiné-Bissau, interessa-nos sobretudo discutir o papel da linguagem cinematográfica nas representações de países africanos que ainda manifestam as marcas do colonialismo português. Tendo nascido em Angola, João Viana encontra em África as referências do seu universo fílmico. Interessa-lhe, deste modo, filmar as comunidades locais, recorrendo a atores não profissionais e trabalhando nas suas línguas. Como o cineasta chegou a afirmar numa entrevista, “os filmes do ocidente são o espelho da nossa alienação”. Assim, João Viana debruça-se sobre esse imaginário que o Ocidente romantizou e imbuiu de fetichismo, revisitando-o à luz do devaneio e da imaginação, linhas que inscrevem a sua proposta estética.

Palavras-chave: cinema; onirismo; pós-colonialismo; estudos culturais; estudos fílmicos

A lusofonia nos jogos de múltiplos jogadores online Érico Medeiros Aires (UM)

O universo dos jogos eletrônicos, com seus softwares conectados mundialmente,  plataformas de convivência virtual, consoles e até as comunidades dentro das redes sociais tradicionais, tem construído uma nova ágora eletrônica dentro do próprio ciberespaço, um passo além daquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castells (2004) chamaria de cacofonia de sotaques, mas que poderia se aproximar do conceito de polifonia de italiano Massimo Canevacci (2004), por agregar não só línguas e culturas diferentes, mas também, por forçá-las ao convívio e interação ao limitar aos mesmos servidores do jogos participantes de culturas, línguas e nacionalidades diferentes.
Com quase 3 bilhões de usuários e gerando receitas projetadas para 2021 em torno de 175 bilhões de dólares (Newzoo, 2021), números superiores a totalidade do mercado de áudio visual, a indústria dos jogos eletrônicos se impõe como objeto de atenção para a pesquisa em comunicação.
Diversos campos das ciências já se debruçaram sobre o mercado ascendente dos jogos (Jenkins, 2006, Caillois, 2001, Aarseth, 1997). Estudiosos da psicologia têm se detido sobre a questão da influência do conteúdo no comportamento humano (Baranowski T, Baranowski J, Thompson D, Buday R, Jago R, Griffith MJ, 2011), teóricos da educação têm experimentado o uso dos jogos como ferramenta de ensino (Riva, 2009), já há casos de sucesso de jogos empregados como ferramenta em terapia de reabilitação motora e mental para pessoas em tratamentos paliativos de sequelas físicas ou mentais de traumas, Alzheimer ou derrames (Bavelier, 2009). Já as ciências sociais e da comunicação têm focado na construção das narrativas, identidades e estereótipos representados pelo conteúdo dos jogos (Aarseth, 1997).
É interessante que poucos tenham se detido a observar os jogos eletrônicos, sobretudo aqueles de múltiplos jogadores (MMO – Massive multiplayer online), como um aparato de mediação tecnológica. Que como tal, propício cada vez mais a criar ambientes ricos de diversidade humana, multiculturais, interculturais e transculturais, espaço de transfigurações mitopoéticas (Derrida, 1967 Martins, 2012; 2015b, 2020), onde as relações baseadas na interação-comunicação entre os jogadores tornam-se um campo de estudo riquíssimo.
Esse trabalho é o exercício de conhecimento exploratório, uma travessia cartográfica, onde objetiva-se conhecer o ambiente de comunicação construído nos principais jogos eletrônicos, identificando as ferramentas disponíveis, suas funções e as regras de uso (e restrições e punições para o mau uso), ou seja, a forma de agir e interagir neste espaço polifônico. Ao mesmo tempo em que se busca compreender qual tipo de papel (uso) a língua portuguesa tem se prestado nesse lugar.
Pierre Lévy (1999) já nos alertava que o ciberespaço é resultado daquilo que as pessoas colocam dentro dele, portanto, diversidade cultural, lutas de poder e dominação são resultado de escolhas sociais. Estariam, portanto, os usuários dos jogos, instrumentalizando a língua portuguesa a serviço do acolhimento fraterno (FIORIN, 2006, MARTINS, 2018), num ambiente de reinvenção dos laços lusófonos, um novo lugar imaginado, imponderável, comunitário, – de Gilbert Durand e Michel Maffesoli (2001) -ou de imposição de poder e hostilidade, conforme estudadas por Foucault?

Palavras-chave: games, jogos eletrônicos, lusofonia, analise do discurso