NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DC IV – EVF

Disrupção Cultural IV: Exposições, Vivos & Festivais

Publicidade ao ar livre, arte pública e reinvenção dos “modos de fazer” no quotidiano. Maria Helena Pires (UM/CECS)

No contexto do quotidiano, o espaço público urbano é palco de múltiplas (re)apropriações. O que quer dizer que é um universo topográfico de “práticas subretícias de criatividade” (Certeau, 1990), agenciadas nas entrelinhas dos imperativos, disciplinadores, que aí ordenam a vida de todos os dias.
Esta comunicação propõe-se discutir o modo como a publicidade ao ar livre (Bernstein, 2004), por um lado, e a arte pública (Pinheiro, 2017), por outro, se aliam entre si, potenciando a transformação da perceção, individual e coletiva, do espaço e experiência urbanos. Desde a migração ao nível dos suportes materiais de veiculação, de que são exemplo a exposição de obras de arte em outdoors publicitários ou mobiliário urbano, como é o caso dos abrigos das paragens de autocarro, caso do projeto intitulado “Cartografias da memória e do quotidiano. Ilustração no espaço público”, integrado na programação de Guimarães Capital da Cultura 2012, à transdisciplinaridade (Pires & Zara, 2021) observada na integração das media arts no campo da publicidade exterior, de que é exemplo recente o projeto piloto Sunset Spectacular, no quadro do programa Sunset Arts & Advertising, na cidade de West Hollywood, Califórnia, impõe-se, hoje, pensar sobre as novas estratégias criativas no território urbano e seus efeitos na estimulação de novas relações, estéticas e políticas (Steiner, 2018), com o espaço percorrido.


Entende-se a publicidade ao ar livre, na sua interseção com a arte pública, como uma manifestação material da nossa cultura contemporânea, fundamental ao exercício de modos outros de (re)apropriação do espaço comum. Por entre as margens do sistema, ou dos sistemas (subentendendo-se o capitalismo e o sub-sistema da arte), tais manifestações convidam à partilha de uma estética relacional quotidiana (Saito, 2017; Bourriaud, 2009), meio caminho andado para catapultar o sentir-com na direção do pensar-com… Equacionar as novas inter-relações, no espaço urbano, entre a publicidade exterior e a arte pública, é o objetivo desta comunicaçao. Procurar-se-á, num registo ensaístico, refletir sobre a problemática enunciada a partir de casos concretos.

Palavras-chave: publicidade ao ar livre; arte pública; espaço urbano; estética; política

Exibir um arquivo colonial visual: problemáticas e estratégias éticas e comunitárias Teresa Mendes Flores (NOVA FCSH/ICNOVA)

Resumo (500 palavras) (objetivos, enquadramento, metodologia)
Esta proposta para o grupo de Cultura Visual da SOPCOM, cruza duas das linhas de disrupção, a  social e a criativa, por quanto pretende cruzar a temática das representações fotográfica e fílmica dos povos e territórios africanos sujeitos à dominação portuguesa, que são atravessadas pelas problemáticas do racismo e do capitalismo, que as enquadram histórica e epistemologicamente, e o desenvolvimento de duas propostas de curadoria dos materiais trabalhados na investigação: uma proposta de curadoria digital e outra em espaço físico num museu, as quais aliam a criatividade à disrupção crítica como tentativa de produzir o bloqueio simbólico das interpretações racistas e coloniais e impedir a revitimização das pessoas representadas (Azoulay: 2008, 2019).

Este estudo insere-se num projeto de investigação financiado pela FCT e parte do arquivo visual e textual das missões de geodesia, geografia e antropologia realizadas por Portugal entre 1883 e 1974, às possessões portuguesas dos territórios africanos. Este arquivo colonial e de ciência colonial pertence à coleção do Instituto de Investigação Científica Tropical do Museu de História Natural e Ciência da Universidade de Lisboa, museu que acolherá, em 2022, a exposição física referida. O estudo tem por objetivo integrar esta produção visual nas histórias da fotografia e do cinema portugueses (Sena: 1998) e contribuir para o conhecimento da história da sua cultura visual, identificando os regimes visuais e estratégias de poder que lhe estão subjacentes (Mirzoeff: 2002). Neste âmbito, apresentaremos as razões pelas quais consideramos este material sensível, à luz das recomendações da Associação Alemã de Museus e de outras entidades (são exemplo as publicações Guidelines for Dealing with Collections from Colonial Contexts, German Museums Association, Berlin, July 2018; e Previous Possessions, New Obligations, Museums Australia, May 2000) e como usar criativamente os recursos próprios aos ambiente digital, bem como refletir sobre inovação no contexto museológico físico (Golding, V., Modest. W.: 2013; Finlay, Raman, Rasenkoala et al., 2021; Edwards, E.: 2011). É um trabalho que decorre neste momento e que contamos ter bastante adiantado por altura da presente conferência. É também uma forma de abrir uma discussão em torno dos modos de exibir arquivos coloniais, cujo material tende a propalar estereótipos de raça e género enraízados, e procurar perceber que estratégias de exibição adoptar. Consideramos esta discussão de grande relevância pública e social em Portugal, cujas posições oficiais parecem ainda tender a negar (e sonegar) os aspetos negativos do passado colonialista e desconsiderar as suas consequências presentes, nomeadamente para as comunidades negras portuguesas ou imigrantes contemporâneas, que participam na sociedade portuguesa.
Bibliografia:

Azoulay, A. (2008). The Civil Contract of Photography. New York:Zone Books.

Azoulay, A. A. (2019). Potential History: Unlearning Imperialism. London and New York: Verso.

Edwards, E. (2011). Photographs: material form and dynamic archive. In Costanza Caraffa (Ed.). Photo archives and the photographic memory of art history (pp.47-56). Berlin: Deutscher Kunstverlag.

Finlay, S., Raman, S., Rasekoala, E., Mignan, V., Dawson, E., Neely, L., & Orthia, L. A. (2021). From the margins to the mainstream: deconstructing science communication as white, western paradigm. Journal of Science Communication, 01(20), 1–12.

Golding, V., & Modest, W. (Eds.). (2013). Museums and communities. Curators, collections, and collaboration. London and New York: Bloomsbury Academics.

Mirzoeff, N. (Ed.). (2002). The Visual Culture Reader (Second Ed). Routledge.

Sena, A. (1998). História da imagem fotográfica em Portugal – 1839-1997. Porto: Porto Editora.

Palavras-chave: Arquivo; fotografias e filmes coloniais; racismo; imagens científicas; exposições

O desafio digital nos festivais de cinema: um modelo em transição  Paulo Portugal & Ariuna Bogdan (NOVA FCSH)  

Berlim, fevereiro de 2019, a derradeira experiência internacional (ou outra) em festivais de cinema. Assim se iniciava uma longa travessia de um deserto de distanciamento dos instrumentos culturais ligados ao cinema. Em vez da aproximação promovida nestes encontros entre os criadores, mediadores de imprensa e público, a pandemia colocava-se limitadoras barreiras que provocariam, em última análise, algo próximo a uma ‘morte do cinema’. Pelo menos isso ditou a paragem forçada da produção, promoção internacional e, claro, a exibição. Em todo o caso, como normalmente também acontece em situações de crises agudas, algumas alternativas emergem e acabam por alimentar respostas que produzem ganhos em processos renovados e inevitáveis.

Numa altura marcada por uma disseminação massificada da oferta de bens culturais através de um gigantesco pipeline digital, analisamos o modelo reformulado de oferta de festivais de cinema, procurando identificar como algumas das mais recentes pistas de orientação poderão (ou deverão) ser absorvidas pelo vasto circuito de mostras de cinema internacional, mas também nacional. Partimos da experiência pioneira da Berlinale, o festival de cinema de Berlim, o último grande certame a cumprir o seu programa e um dos primeiros a oferecer uma completa estratégia de edição online. Complementado depois pela tentativa bem-sucedida da mostra de Veneza e até com provas adultas em festivais nacionais, como o IndieLisboa, entre outras iniciativas ocorridas durante a pandemia.

O presente trabalho visa detectar as principais alterações do modelo motivadas pela radical alteração de oferta, os ganhos comprovados e as cautelas a sublinhar. Algures entre a necessidade de presença física dos agentes promotores, dos agentes mediáticos, bem como da fruição pública, mas também a agilização digital da oferta com ganhos muito significativos, tanto do ponto de vista dos produtores de serviços, como dos seus consumidores, na gestão de planificação de conteúdos, programação e forma de divulgação. Por fim, o peso entre a perda de proximidade física, e interação – bastante notória por parte da imprensa especializada – particularizada entre o sucesso da experiência na Berlinale, com assinaláveis ganhos, bem como no regresso da atual edição do festival de Cannes e no elenco de iniciativas já calendarizadas ao longo do ano cujas perspetivas de incorporação permitem fixar alguns elementos a ter em conta no que poderemos apelidar de transição um modelo.

Naturalmente, este desafio digital não será isento de escolhos. É que, entre as possibilidades de abertura de mercados e do alcance de novos públicos, haverá sempre de auscultar e medir, fazendo letra viva e aggiornada do critério e das previsões de Theodore W. Adorno, conjugando os perigos que repousam em redor da força mobilizadora do digital. Pois uma indústria, tal como a da divulgação do cinema em festivais, não deverá perder de vista o seu compromisso artístico, não cedendo a propostas que ponham em risco a perda da sua própria integridade e eventual manipulação.

Palavras-chave: Festivais de cinema; pandemia; digitalização.

Imagens disruptivas: ativismo, cidadania e o Festival Política Marta Fiolic (NOVA FCSH/IFILNOVA), Ivone Ferreira (NOVA FCSH/ICNOVA) e Maria Irene Aparício (NOVA FCSH/ICNOVA)

Esta comunicação tem como objectivo reflectir sobre a articulação dos conceitos de activismo e cidadania nas práticas artísticas e culturais das imagens contemporâneas. Cruzando áreas disciplinares e campos de acção, as artes visuais e a publicidade institucional podem constituir-se como formas disruptivas em relação às práticas consensualmente estabelecidas, evidenciando a forte influência das grandes transformações sócio-culturais e políticas na contemporaneidade. Deste modo, a nossa proposta, enformada pelos conceitos de cidadania e activismo e respectivas práticas (Harrebye, 2016; Tascon and Wils, 2016) tomará como estudos de caso A Troca, filme publicitário produzido pela FCB Lisboa para a promoção do último Festival Política 2021, e o documentário vencedor do Festival, Chelas Nha Kau produzido pelo colectivo Bataclan 1950 e os Bagabaga Studios. Será feita uma análise visual e semiótica (Kress and van Leeuwen, 2006; Saborit, 2012), mas também uma reflexão crítica (Walmsley, 2019) em torno das questões da criatividade nomeadamente em novos ambientes comunicacionais, como é o caso do digital. O estudo será complementado com uma entrevista ao director criativo da FCB Lisboa, Edson Athayde, também autor do filme promocional do Festival 2021. O festival teve a sua primeira edição em 2017, em Lisboa, tendo-se já expandido para Braga e Évora. Entre os temas abordados neste Festival, surgem as questões do voto e abstenção, os direitos humanos, a Europa, a sustentabilidade ecológica e as fronteiras, tópicos cruciais no topo das agendas internacionais, em resposta aos desafios de uma sociedade global e globalizante. O âmbito do Festival é, ele próprio, um campo de acção disruptivo no sentido em que procura promover a consciência social e política entre os cidadãos, fora das arenas políticas e sociais, através do confrontos com objectos e práticas de carácter lúdico e criativo como sejam os filmes, as exposições e os concertos, entre outras actividades educacionais e reflexivas, como é o caso dos workshops e debates. Os Festivais que cruzam arte e activismo, abordando questões políticas com o intuito de ampliar consciência cívica e acção, não respondem às correntes da indústria nem às necessidades do lucro, mas visam usar práticas artísticas e de entretenimento para criar uma comunidade coesiva dos cidadãos activos e desenvolver o pensamento crítico sobre a sociedade contemporânea, como é o caso do Festival Politica.

Palavras-chave: cinema; activismo; cidadania; publicidade

Potencial expressivo do cinema ao vivo em Atemporal de Light Surgeons Marta Pinho Alves (ESE-IPS/CIEF)

No decurso do processo de digitalização do cinema e, portanto, de uma outra etapa de transformação tecnológica deste medium, novas possibilidades de criação cinemática têm sido esboçadas. Naturalmente, estas possibilidades não nascem desvinculadas de um passado complexo e diversificado e são mesmo, em alguns casos, resultado da confluência de ideias, tradições e experiências antes parcamente exploradas, marginalizadas ou obliteradas. Um dos exemplos aqui integrados é o Cinema ao Vivo. Esta designação tende a ser consensualizada para aludir a espetáculos de apresentação de imagens em movimento perante uma audiência, com a particularidade de essas imagens serem registadas ou editadas durante a sua exibição, e combinadas com outros códigos e linguagens, tais como música, design, luz, entre outras, assim como a própria performance dos artistas, também executadas ao vivo.

Há já um conjunto amplo de artistas a declarar dedicar-se a este Cinema e uma panóplia de práticas que aparentam integrar-se nesta categoria, embora possam aí distinguir-se várias modalidades e formas de expressão. Talvez pela sua natureza recente, está ainda por realizar um mapeamento sistemático das modalidades de Cinema ao Vivo e dos seus principais autores que seria de grande relevo para a sua compreensão. No entanto, é possível identificar alguns contributos que, pela sua riqueza, sofisticação e autorreflexividade, são significativos para permitir analisar com profundidade este Cinema. Destaca-se neste artigo o trabalho realizado pelo coletivo artístico britânico The Light Surgeons que tem vindo a explorar as possibilidades do Cinema ao Vivo desde o dealbar dos anos 2000 e tem diversos objetos cinemáticos aí integráveis, todos eles apresentados e reinterpretados dezenas de vezes. Uma análise detalhada deste repertório, que continua a ser atualizado com novas propostas, permite entender o The Light Surgeons como criador de um corpo de trabalho dos mais complexos e profícuos neste domínio e definidor dos seus limites e potencialidades. Uma nova peça estreada em 2018, Atemporal, e já recriada em Atemporal 2.0, reflete sobre o tempo, o espaço e a memória e usa como fio condutor textos de John Berger. Tomando Atemporal como foco e ponto de partida para a reflexão, procura-se enunciar algumas das características fundamentais do Cinema ao Vivo, assim como das suas concretizações e potencialidades expressivas, contribuindo para o reconhecimento desta manifestação cinemática. Tentar-se-á igualmente mostrar de que modo a mesma aparenta ser uma emanação particular do cinema do tempo do digital.

Palavras-chave: The Light Surgeons; Atemporal 2.0; Cinema ao Vivo; Ensaio Audiovisual; Digitalização do Cinema.

A arte de tornar queer os museus: um estudo qualitativo dos públicos Rita Grácio (ULHT/CICANT)

Neste trabalho, reflecte-se sobre a forma como os museus têm vindo a abordar questões LGBTQI + e feministas no século 21, através de um estudo de caso  em Portugal. Este é um país particularmente interessante, porque embora tenha uma das legislações mais avançadas sobre direitos LGBTQI + na Europa (Santos, 2012), esse facto não tem tradução directa nos museus portugueses, nem do ponto de vista organizacional, nem do ponto de vista da museologia de género (Vaquinhas, 2014). Este artigo apresenta um estudo qualitativo dos públicos que participaram na iniciativa Trazer a Margem para o Centro, uma iniciativa liderada pelo colectivo feminista curatorial FACA. Esta iniciativa teve lugar no Museu Colecção Berardo, considerado um dos principais museu de arte moderna e contemporânea de Portugal. Este estudo consistiu na observação participante em dois dos três eventos que constituíram a iniciativa Trazer a Margem para o Centro, em que foi aplicada uma versão adaptada da técnica de Personal Meaning Mapping (Falk e Storksdieck 2005); e entrevistas semiestruturadas, por telefone, com os participantes do evento. Mostra-se como este evento promoveu a sensibilização entre os visitantes cisgénero com perspectivas heteronormativas, ao mesmo tempo que promoveu um espaço para contra-narrativas da comunidade queer,  demonstrando o papel do ativismo curatorial coletivo e dos museus na promoção da igualdade de género e inclusão. Propõe-se que o sucesso desta iniciativa permita reconceptualizar o conceito de gatekeeping, propopondo-se, ao invés, o de gateleaking, para organizações diversas e inclusivas.

Palavras-chave: museus; públicos; visitantes; gatekeeper; personal meaning mapping