NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DC V – CL

Disrupção Cultural V: Cinema & Literatura

A mão especulativa: uma (meta)física materialista da mão a partir de A Trama e o Círculo de Mariana Caló e Francisco Queimadela David Revés (NOVA FCSH)

Em “A Trama e o Círculo” (2014), filme da dupla portuguesa Mariana Caló e Francisco Queimadela, é-nos apresentada uma colecção de testemunhos de actividades humanas que têm a mão e o conhecimento empírico como denominador comum e vector comunicante. Por entre imagens de gestos intuitivos e acções técnicas, verificamos as vivências de mãos transformadoras, produtivas, edificantes e expressivas, que articulam a relação do indivíduo com a realidade natural e por si construída, bem como com outros corpos seus semelhantes. São exemplos de mãos que, como acção corpórea, criam um mundo — um Umwelt (Agamben) —, sendo estância relacional, dispositivo técnico, lugar de linguagem, matéria comunicativa e movimento condutor de pensamento. Deste modo, a partir deste filme, poderemos deduzir uma breve história da mão como agente que colocou em marcha a máquina antropológica e instituiu o plano da História, operando em acto o aparelho processual da superioridade da racionalidade tecnocientífica humana face ao sensível experimentado.

Contudo, em a “Trama e o Círculo”, que, não obstante, nos remete consecutivamente para formas de uma relação arcaica do humano com o mundo, poderemos igualmente pressentir o surgimento de um fundo material e fantasmático que destabiliza uma subjectividade reflexiva e permite detonar, paradoxalmente, o edifício antropológico, bem como proporcionar a disrupção do movimento comunicativo (plano narrativo e imagético) e da linearidade temporal do objecto fílmico em causa.

A nossa tese tem como premissa que essa presença espectral diz respeito ao real (quer lhe chamemos materialidade pura, physis, caos primordial ou absoluto) que a mão traz consigo enquanto seu elemento constitutivo e portador da sua força generativa e contingente, como um apelo primordial que se institui aquém e além de todo o aparelho simbólico humano.  Neste filme, essa marca surge não só pelo conteúdo das imagens apresentadas — tanto na sua organização narratológica como na dimensão do não dito —, mas sobretudo pela sua hapticidade sensível — formadora de um plano de produtividade caótica individual, em sentido deleuziano —, enquanto materialidade e produto privilegiado da mão que toda a obra de arte (e qualquer filme) é, e que o seu observador pode experimentar como uma espécie de unheimlicht freudiano, e, no caso específico da nossa análise, coincidindo com a estase atemporal e disruptiva do facto fílmico (Lyotard).

Para argumentarmos esta tese caminharemos entre a análise do referido filme e uma interpretação teórica que colherá dividendos das ciências da comunicação, antropologia, do pensamento ontológico bem como das filosofias da técnica e da imanência. O nosso intuito será traçar um caminho rumo a algumas teorias dos novos realismos especulativos (Meillassoux, Johnston, Grosz) onde iremos enquadrar as potências da mão humana, tendo igualmente como pano de fundo — e para o que nos servirá face ao objecto do nosso estudo —, os escritos sobre cinema de Lyotard, onde este autor esboça o conceito de materialidade soberana ou real ontológico.

Palavras-chave: Mão; real; hapticidade caóide; realismos especulativos; materialidade soberana.

Pavlensky com Sade: princípios para a desconstrução de uma mecânica do poder José Pedro Baptista, António Fernando Cascais (NOVA FCSH/ICNOVA)

Propomo-nos fazer uma leitura do disruptivo projecto artístico de Pavlensky informados pela leitura que Lacan faz de Sade, sobretudo no texto Kant com Sade mas também ao longo do Seminário VII, A Ética da Psicanálise, pretendendo demonstrar de que modo mecanismos e estratégias sadianas não só se reproduzem como são actualizados nas práticas artísticas de Pavlensky. Em Segregation, 2014, Pavlensky senta-se nu no muro do centro psiquiátrico Serbsky, em Moscovo, e corta o lóbulo da sua orelha direita com uma faca de cozinha. Apesar do frio e dos incentivos das autoridades policiais para que salte do muro, Pavlensky permanece imóvel e aguarda a manietação, a detenção, o exame psicológico, o julgamento, a condenação e o aprisionamento. Ao longo da sua obra, que tende a seguir uma mesma metodologia, o artista russo opera sobre os mecanismos jurídicos, policiais, psiquiátricos e morais que acomodam a transgressão, revelando-os e capturando-os na dinâmica das suas performances. A acção singular disruptiva, numa lógica de guerrilha, serve sobretudo como catalisador para o funcionamento, nos seus modos próprios (jurídicos, policiais, psiquiátricos e morais), das instituições que sustentam a assimetria de poder na sociedade, que assim se vêem involuntariamente implicados. Lacan chama a atenção para a vocação oculta do objecto da lei e, à luz desta ideia, entendemos que Pavlenky, ao sujeitar o corpo aos seus mecanismos, pretende revelar o seu funcionamento e discursividade. Neste sentido, quanto mais implacavelmente a autoridade sobre ele agir, quanto mais grave for o caso apresentado contra ele em tribunal, quanto mais rigorosa a avaliação psicológica, melhores condições tem para que o seu fito se cumpra e que ele deliberadamente provoca. A exteriorização das relações de poder foi singularizada por Lacan como uma mais-valia da fantasia sadiana face ao imperativo categórico kantiano, que de forma mais insidiosa esconde o seu desígnio. A dupla Kant-Sade funcionará como paradigma para o modo como Pavlensky articula a complementaridade entre lei e desejo patente no funcionamento da autoridade e das instituições que a servem. Procuraremos demostrar de que modo o seu posicionamento como objecto de desejo da lei articula o desejo lacaniano, o desejo como o desejo do Outro e dependente de estruturas simbólicas, não só o despoletando mas também o frustrando, pois as suas acções, ao incluírem e encenarem a punição corporal bruta, tomam para si aquilo que lei tem como seu. Em resultado da nossa análise, esperamos concluir que a metodologia de Pavlenksy, ao implicar, aprisionar e escravizar o desejo da lei, o olhar do outro lacaniano, promove a consciência da assimetria presente nas relações de poder, subverte a disparidade subjectiva entre vítima e agressor e constitui-se como estratégia válida para uma discursividade contemporânea que relança o poder disruptivo inaugurado por Sade.

Palavras-chave: obsceno; Sade; Pavlensk; disrupção; transgressão

Imagens do feminino na ficção científica  Ana Carolina Fiuza (NOVA FCSH/ICNOVA)

Este trabalho se baseará na dissertação apresentada para a obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação (Universidade Nova de Lisboa), e atualmente em desdobramento no programa de doutoramento do mesmo departamento/instituição. A partir desta, buscar-se-á discutir as relações de alteridade presentes na literatura de ficção científica, a partir de dois eixos cruciais para o género: as representações da mulher e do universo feminino, assim como suas relações com a tecnologia e entrelaçamentos com a máquina. Apesar de historicamente excluídas do pensamento científico, tradicionalmente considerado um território de domínio masculino, as mulheres desde cedo protagonizaram o imaginário tecnológico — seja no desenvolvimento de uma relação íntima com essas inovações, a partir da industrialização dos lares, seja na criação de obras ficcionais que expressem, imaginativamente, a experiência feminina diante das novas ciências e tecnologias. Neste trabalho, será promovida uma articulação entre esses dois campos — a realidade e a ficção — a partir de narrativas escritas por e sobre mulheres, representativas de períodos distintos na história da ficção científica norte-americana (sobretudo no pós-Segunda Guerra). Após um panorama deste campo literário e do cenário tecnocientífico com que dialoga, três narrativas serão brevemente analisadas: “No Woman Born” (C. L. Moore, 1944), “The Girl Who Was Plugged In” (James Tiptree Jr., 1973) e “Bloodchild” (Octavia Butler, 1984). As obras têm em comum o facto de serem escritas por mulheres, com temáticas e personagens femininas. Elas possuem, portanto, uma dupla alteridade: ser mulher num campo tradicionalmente associado ao género masculino, e a introdução de temáticas próprias ao imaginário feminino numa grande narrativa — a História da Ciência — também tradicionalmente protagonizada pelos homens. Os dois primeiros contos enfatizam a “heteronormatividade compulsória” mas, ao fazerem-no, iluminam a zona cinza, híbrida e monstruosa na qual surgem as múltiplas possibilidades de definição do que é “ser mulher” — e, no limite, do que é ser humano. Isto nos leva à questão, de todo complementar, que atravessa as narrativas: em que medida — e de que maneiras — a tecnologia pode penetrar em nossos corpos e reformular nossas subjetividades? Como nós queremos que isto aconteça? Enquanto as duas primeiras autoras apontam os bons e maus usos da chamada “experiência cyborg”, num mundo marcado pelo acelerado desenvolvimento tecnológico, Butler vem nos lembrar da importância de nossos corpos, de nossa existência no mundo enquanto carne (flesh). No encontro promovido entre humanos e aliens, através da função reprodutiva, Butler questiona não apenas as performances de género, a nível biológico, mas também reitera o papel do orgânico nesta experiência híbrida de máquina e organismo. Amparada pelas reflexões de Richard Kearney acerca da alteridade, e do diálogo estabelecido com pensadores como Julia Kristeva, Paul Ricoeur e Jacques Derrida, entre outros — assim como por autoras ligadas aos Feminist Science Studies — a perspectiva fundamental deste trabalho será perceber como essas narrativas podem ser vistas como um retrato sócio-cultural de uma época, assim como refletem os papéis exercidos pelas mulheres na vida de sociedades profundamente marcadas pelo advento tecnológico.

Palavras-chave: Mulher; Máquina; Corpo; Subjetividade; Alteridade

O enigma dos objetos ou a reificação redentora: uma análise a partir de Philip K. Dick Manuel Bogalheiro (ULP/CICANT)

Sob o pano de fundo de um enredo protagonizado por telepatas, anti-telepatas e tecnologias de perpetuação da vida humana, Philip K. Dick descreve, na sua novela Ubik um mundo onde os objectos têm vida própria e interagem verbalmente com os seus utilizadores. Das portas às cafeteiras, dos automóveis aos micro-ondas, os objectos interpelam o quotidiano dos humanos e exigem, através das moedas que os activam, que o seu funcionamento seja pago. Numa rede geral, os objectos não apenas interagem, observam, registam, como, na expressão máxima da sua autonomia, resistem à actividade humana. Escrito em 1969, a novela de K. Dick apresenta uma realidade tecno-animista, numa alegoria antecipatoria que questiona o lado mais perverso daquilo que hoje podemos reconhecer como a internet das coisas ou os assistentes virtuais pessoais, como são exemplo a Alexa ou a Siri. Como o autor escreveria mais tarde, num ensaio sobre “O Andróide e o Humano” (1972), “o nosso ambiente – e está em causa o nosso mundo artificial de máquinas, construções, computadores, sistema electrónicos, componentes homeostáticos interligados entre si – começa a adquirir aquilo que os psicólogos receiam que o primitivo veja no seu ambiente: vida.”    

Apesar de se poder reconhecer em K. Dick uma consciência crítica dos sistemas de produção e de consumo, na ênfase que coloca na realidade artefactual do mundo, e no enlevo que deixa transparecer pela hipótese do tecno-animismo, está em causa uma reabilitação do estatuto dos objectos enquanto actantes (Bruno Latour) que, através das ligações que estabelecem em redes particulares – e progressivamente informatizadas –, induzem perplexidade, estranheza, incerteza, confrontando aqueles que os utilizam ou manuseiam com um modo radical de alteridade. Em última instância, os objectos terão a sua própria história evolutiva para além das apreensões que deles conseguimos produzir. “As formas anteriores transmitem uma vida invisível, residual, em cada objecto; o passado está latente, submerso, mas continua presente, com possibilidades de irromper à superfície, assim que a última impressão se extinga.” (K. Dick, Ubik). Em cada objecto esconde-se uma génese, uma arqueologia medialógica (Jussi Parikka), mas também um porvir, ou seja, um excesso que não se esgota em nenhuma concretização material particular.

Através de uma metodologia hermenêutica comparativa, na qual, a par da ficção de K. Dick e das referências já apontadas, integramos a filosofia da técnica  de Gilbert Simondon, ou a ontologia orientada para os objectos de Graham Harman, procuramos indagar a viragem objectual (objectual turn) que se tem popularizado recentemente. Dar visibilidade ao modo de existência própria dos objectos técnicos – sejam artefactos, instrumentos, máquinas ou algoritmos – é, abandonando um prisma antropocêntrico, não apenas reconhecer a forma como a génese da cultura humana é sempre uma tecnogénese, como também promover uma atenção sobre as materialidades e as processualidades que determinam a experiência, na maior parte dos casos de forma inconsciente. Nesse gesto, mesmo que apenas esteticamente, habilita-se uma espécie de reificação redentora na qual, suspensos dos seus fluxos instrumentais ou comerciais, os objectos podem ser reinstalados através de virtualidades que ainda não foram actualizadas.

Palavras-chave: Ontologia dos objectos; animismo; reificação; actante; alteridade.

A presença de Federico Fellini na construção estética de António Lobo Antunes: diálogo ou inquietude artística? Anabela Branco de Oliveira (UTAD/LABCOM)

António Lobo Antunes tem uma inequívoca relação dialógica com o cinema. Retratado como um “raio de luz poeirenta” projetada num “lençol amarrado a uma parede de madeira ao pé do mar”, o cinema é o “Espírito Santo” da sua infância. A memória estética de António Lobo Antunes projeta-se entre vozes e imagens: momentos, exemplos, percursos, citações, títulos e pedaços de texto fílmico: planos conhecidos, sequências inesquecíveis, rostos e mitos cinematográficos. Um processo criativo que é assumido em inúmeras entrevistas. No seu percurso ficcional, António Lobo Antunes traduz a presença identitária forte e indispensável de múltiplos realizadores. Nos momentos mais descontraídos das entrevistas, em jornais ou documentários, Fellini serve sempre de referência ou exemplo. No processo de auto análise literária e nas respostas aos desafios temáticos que os jornalistas e críticos lhe colocam, Fellini é o realizador continuamente referido.

Há um episódio marcante na vida profissional de Lobo Antunes, médico psiquiatra, frequentemente referido nas entrevistas e nas crónicas e que tem o imaginário felliniano como referência: o embate psicológico provocado pelo início da sua carreira no Hospital Miguel Bombarda cujo ambiente é constantemente retratado nas suas múltiplas vozes narrativas. As vozes narrativas em Lobo Antunes projetam uma amálgama de personagens marcadamente fellinianas. Tal como os de Fellini, os corpos de Lobo Antunes são intensos, franzinos, improváveis e extravagantes.

O romance polifónico de António Lobo Antunes projeta múltiplas vozes narrativas que exigem a participação constante do leitor, como em Fellini; a fragmentação espacial e temporal exige uma outra grelha de leitura e de análise, como em Fellini; o olhar exuberante, transgressor e terrivelmente sarcástico com que analisa a sociedade também é felliniano.

O sonho, a avalanche estética, a performance corporal que atravessam os espaços, a relação com a contemporaneidade histórica, a coabitação com a memória e um olhar fragmentado inseparável do objeto artístico são pontos ambiguamente comuns de dois autores, tão intrinsecamente diversos e tão esteticamente díspares, ou não…

Tendo em conta os pressupostos teóricos de Jeanne-Marie Clerc, Carmen Peña-Ardid, Abílio Hernandez Cardoso e Wladimir Krysinski, esta comunicação analisa a presença da estética e do universo felliniano na estética literária… ou talvez fílmica… de António Lobo Antunes.

Bibliografia :

CLERC, Jeanne-Marie, Le Cinéma, Témoin de l’Imaginaire dans le Roman Français Contemporain – écritures du visuel et transformations d’une culture. Peter Lang Publications Universitaires Européennes, Bern, New York, 1983.

CLERC, Jeanne-Marie, Littérature et Cinéma. Nathan Université, Paris, 1993.

COHEN, Keith, (org.), Writing in a Film Age – essays by contemporary novelists. University Press of Colorado, 1991.

PEÑA-ARDID, Carmen, Literatura y Cine. Catedra – Signo e Imagem, Madrid, 1996.

HERNANDEZ CARDOSO, Abílio, “Narrativas: Da Letra no Filme à Imagem no Texto” in Senso-Revista de Estudos Fílmicos n.º1, Universidade de Coimbra, Outubro 1995, p. 17.

KRYSINSKI, Wladimir, Carrefour de Signes – essais sur le roman moderne. Mouton Éditeur, La Haye, Paris, New York, 1981.