NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DI IV IP

Disrupção Informacional IV: Informação e(m) Pandemia

O discurso jornalístico em torno da Covid-19 no âmbito do confinamento geral de 2021 Pedro Eduardo Ribeiro, Mateus Dellarmelin & Lénia Rego (UM/CECS)

A 13 de janeiro, o primeiro-ministro anuncia novo confinamento a nível nacional, a começar dali a dois dias, rompendo com o funcionamento social e levando a alterações significativas no quotidiano. Durante este período, acompanhando aquilo que foi tendência em 2020 (Lopes et al., 2020; Sousa et al., 2020), como na generalidade do jornalismo, os meios tradicionais com a componente digital apressaram-se a informar a sociedade civil sobre o novo recolher obrigatório. Adota-se, para o presente trabalho, a visão de Salaverría (2019). O autor entende que, apesar da expressão vigente a nível mundial de “jornalismo digital”, aquela que é mais frequente nas comunidades de investigação falantes de português é a expressão “ciberjornalismo”. Desta forma, de modo provisório, entende-se que, tal como tradicionalmente acontece (van Dijk, 1988), o jornalismo produziu discursos.

O objetivo principal do presente trabalho é focar nos discursos então produzidos e veiculados nos média nacionais digitais desde o anúncio do confinamento geral de 2021 até ao início do mesmo. Foram escolhidos para este estudo o Público, o Jornal de Notícias e o Expresso, na sua vertente digital, por serem os três jornais com maior circulação paga digital (APCT, 2020). Para o tratamento dos artigos, recorrer-se-á à análise de conteúdo (Bardin, 2004), fazendo a categorização temática dos mesmos artigos, de forma combinada com a análise do discurso, mais propriamente situando na Análise Crítica do Discurso (e.g. van Dijk, 2005), procurando perceber as funções comunicativas – mensagens percebidas, estilo e contexto – e o implícito – mensagens subliminares (Pinto-Coelho, 2008). Traduzindo por outras palavras, o que foi dito, como foi dito, em que contexto e o que não foi dito.

Relativamente aos objetos de estudo, pode adiantar-se que se denota, desde logo, uma transversalidade na abordagem do confinamento em várias secções, estando os artigos jornalísticos respetivos disponíveis de forma dispersa e não concentrada numa só secção, sendo atribuídas aos mesmos diferentes categorias. Por exemplo, “Coronavírus” ou “COVID-19”, mas também, entre outras, “Medidas do confinamento”, “Ensino superior” ou “Economia”. Os artigos nem sempre são focados diretamente no fenómeno do confinamento, sendo-o também nos seus efeitos indiretos. Além disso, existe um esforço de produção próprio, em conjunto com produção agenciada, e uma diversidade de fontes a considerar. Constituindo este um estudo exploratório, procura-se ir ao detalhe e oferecer perspetivas, neste caso, em torno daquilo que, discursivamente, os média em análise evidenciaram no período em causa, considerando a importância dos seus discursos a nível societal.

Palavras-chave: Discurso; Jornalismo; COVID-19; Ciberjornalismo.

Media regionais e pandemia: desafios para o jornalismo e para os jornalistas Pedro Jerónimo (LABCOM)

A crise pandémica afetou profundamente o ecossistema mediático português, de acordo com o “Digital News Report 2020”. A expansão do Coronavírus alterou principalmente a produção de informações e o seu consumo. O acesso à informação tornou-se essencial para a compreensão dos impactos da pandemia e a transmissão de determinadas informações pelos órgãos competentes.

No entanto, essa urgência em informar trouxe vários desafios para o Governo e outras entidades de saúde. Também desafiou os media, que se viram obrigados a lidar com uma situação inédita. A resposta dos diferentes meios de comunicação foi-se adaptando, principalmente após a primeira declaração do estado de emergência, com os portugueses confinados a procurarem cada vez mais informação e sobretudo online.

Neste contexto, em que levar a informação às pessoas se torna essencial, os media nacionais nem sempre conseguem cobrir os cenários de proximidade. Nesse sentido, os media regionais assumiram um papel fundamental, com os seus profissionais a estarem na linha da frente na cobertura jornalística das cidades e pequenos territórios. Esta resposta veio acompanhada de problemas antigos e conhecidos que afetam um setor cujas fragilidades marcaram as últimas décadas. Com a falta de profissionais e recursos, as fracas estruturas que o caracterizam foram confrontadas com novos problemas, principalmente porque este setor ainda é muito dependente da circulação impressa paga e tem dificuldades em encontrar um modelo de negócio digital sustentável. A pandemia alterou assim a rotina dos jornalistas, que viram aumentar o trabalho, ao mesmo tempo que se viram obrigados a lidar com novas ameaças, como o crescimento da desinformação e dos conteúdos produzidos por utilizadores ávidos por revelar novos dados sobre a pandemia.

Este estudo – inserido num projeto mais amplo e com o tratamento de dados em curso – procura identificar as principais mudanças que a pandemia provocou nas rotinas jornalísticas dos media regionais. Para atingir esse objetivo, recorreu-se a um inquérito por questionário, aplicado aos jornalistas dos media regionais em Portugal. No final, registaram-se 201 respostas válidas, a partir das quais avaliaremos as mudanças registadas nas dimensões relacionadas à situação profissional (tipo de contrato; remuneração mensal; progressão profissional; condições de trabalho), mas também no próprio desenvolvimento do trabalho jornalístico (contato com fontes, tempo para produção de notícias, distribuição de informações, interação com o público).

Palavras-chave: Pandemia, media regionais, jornalismo, jornalistas, rotinas.

Rotinas e fontes de informação da pandemia no contexto regional: as primeiras vozes nos conteúdos online de dois meios locais Sónia Lamy (ULHT/CICANT) & Adriana Mello Guimarães (IPP)

Num ano dominado pela presença da pandemia da Covid-19 nas notícias, os média foram reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela própria Direção Geral da Saúde (DGS) como parceiros fundamentais na gestão de uma situação de crise de saúde pública. Mas, em algumas situações, a comunicação com os jornalistas ficou reduzida apenas aos momentos selecionados para a transmissão de mensagens de saúde pública (Teixeira et al., 2020). Perreault & Perreault (2021) concluíram, num estudo desenvolvido no decorrer de 2020, que os jornalistas se sentiam responsáveis, mas também vulneráveis pela informação veiculada através dos meios de comunicação. Ao partilhar informações sobre as situações de crise e desastre, os jornalistas existem como parte de uma ecologia na qual o jornalismo influencia e é influenciado pelo meio ambiente (Perreault & Perreault, 2021). Neste contexto, os órgãos de comunicação social locais desempenham um papel de informação de proximidade e Carlos Camponez (2002) sublinha a relevância deste conceito de “proximidade” aos agentes sociais e instituições e aos leitores.  Jerónimo (2015) sugere, precisamente, que o exercício de um jornalismo independente, no contexto local, é muitas vezes condicionado pela dependência económica das instituições. Numa época, de profundos constrangimentos, relacionados com a chegada ao contexto nacional de uma pandemia, sugere-se uma reflexão sobre o modo como os meios locais noticiam a chegada da Covid-19 à região. A partir da análise de conteúdo das notícias, sobre a pandemia, produzidas por dois meios de comunicação social regionais – O Setubalense e o Médio Tejo – durante os primeiros meses (março e abril de 2020) pretende-se contribuir para a perceção sobre o modo como foram veiculadas e produzidas as informações sobre um novo contexto, num contexto local. Hart et al. (2020) referem-se precisamente à relevância deste procedimento, para observação das estratégias e dinâmicas desenvolvidas pelos média nos primeiros meses de pandemia. Tanto O Setubalense (fundado em 1855) que tem também uma versão em papel, como o Médio Tejo, criado de raiz enquanto meio online em 2015, apresentam um arquivo que permite o levantamento longitudinal das peças publicadas em 2020. Mais de uma centena de peças facilitam uma leitura que pretende refletir sobre as fontes de informação que comunicam a crise num contexto inicial da pandemia, que se veio a arrastar. Como é que os jornais digitais locais representaram a atualidade pandémica? Quem está representado nas notícias sobre a COVID19, quando se desconhecia de forma profunda a doença?  Qual o género jornalístico empregue? Quais são os termos utilizados para descrever a patologia? Qual a localização geográfica das peças? Que práticas jornalísticas seguidas, numa representação da realidade, da qual as entidades e organizações desligadas da área da saúde, são remetidas de forma frequente para segundo plano?

Palavras-chave: Jornalismo Local; Fontes de informação; COVID-19

Emoção e empatia na cobertura jornalística da Covid-19: estratégias narrativas disruptivas Dora Santos-Silva (NOVA FCSH/ICNOVA), Catarina Carvalho (NOVA FCSH) & Adelino Cunha (UE/IHC)

Nos últimos anos, a emoção e a empatia, palavras arredadas da narrativa jornalística por serem consideradas ameaças ao modelo dominante da objetividade, ganharam um novo espaço no jornalismo digital. Este novo ecossistema mediático permite o que Charles Beckett chama de “um novo ciclo de criação de conteúdo sensível” (2015, p. 14) ou a circulação de “notícias afectivas” (Beckett & Deuze, 2016, p.1); em suma, trata-se de novas formas de jornalismo participativo, personalizado, explicativo, experiencial, imersivo, que reforçam ou criam um vínculo emocional com o utilizador.

 Numa altura em que as audiências se encontram cada vez mais fragmentadas, em que a capacidade de foco e retenção de informação em ambiente digital pode ser diferente (Sillensen, Ip & Uberti, 2015), existindo uma desconfiança em relação à autoridade jornalística, a capacidade de gerar empatia é cada vez mais importante. O processo de empatia pode ser descrito como a partilha de uma experiência e a assunção da perspetiva do outro, dois processos que nos permitem colocar-nos na posição do outro e agir (Decety & Jackson, 2004).

Uma das formas para alcançá-la no jornalismo é através da inovação nos formativos narrativos, quer tendo como base a tecnologia – por exemplo, a realidade virtual como premissa da imersão – quer tendo como base a forma como a própria estória é humanizada, explorada e contada. Em todos os casos, a emoção é um dos recursos centrais.

A cobertura jornalística da pandemia da Covid-19 em 2020 e parte de 2021 é um exemplo flagrante de como é relevante ir além dos números e apostar em formatos narrativos inovadores para envolver o utilizador.

Esta comunicação tem como objetivo perceber que estratégias narrativas utilizadas em peças jornalísticas têm capacidade de gerar maior empatia e qual é o papel da emoção nessas estratégias. Para alcançar esse objetivo analisa os formatos narrativos usados em 21 peças jornalísticas digitais de longo formato publicadas em órgãos de comunicação social generalistas portugueses entre junho de 2020 e junho de 2021 sobre o impacto da Covid-19 em sete grupos específicos (profissionais de saúde, outros profissionais, comerciantes, sem-abrigo,  doentes, migrantes e outras minorias). 

De seguida, avalia o potencial de empatia dessas 21 peças através de um grupo de foco, permitindo compreender que estratégias narrativas têm maior probabilidade de envolver emocionalmente o leitor.

Palavras-chave: Jornalismo emocional; empatia; inovação no jornalismo; jornalismo digital.

A Pandemia no Jornal Público durante o 1º trimestre de 2020 Pedro Rodrigues (FCH-UCP/CECC)

Para além do aumento da mortalidade e morbilidade decorrentes da pandemia COVID-19, a crise de saúde pública foi acompanhada por outras disrupções, tanto ao nível social como económico. A resposta a estes problemas foi dificultada pelo que a Organização Mundial de Saúde denominou de “infodemia”, ou a proliferação excessiva de informação, onde factos se misturam com desinformação, aumentando a incerteza num contexto já à partida caracterizado por tensões de variada ordem. Nesta situação, os meios de comunicação social possuem um papel central, providenciando informação sobre as medidas adotadas para a contenção e mitigação da pandemia, bem como sobre comportamentos de prevenção a serem adoptados pela população.

O enquadramento desta informação toma assim especial relevância. O objectivo deste estudo é identificar os principais enquadramentos e fontes utilizadas pelo jornal Público na cobertura dos três primeiros meses da pandemia COVID-19. Mais especificamente, pretende-se compreender quais os elementos recorrentes e como foram articulados mediante a evolução da situação epidemiológica. O trabalho contribui assim também para a identificação dos principais valores-notícia no contexto de uma crise de saúde pública em Portugal.

O estudo consiste na análise do enquadramento da cobertura noticiosa no website do jornal Público durante os três primeiros meses de 2020, recorrendo à proposta de Van Dijk para a análise de notícias. A metodologia depende da análse da articulação entre estruturas globais e estruturas locais. As primeiras implicam a análise do tema da notícia (macroestrutura), habitualmente expresso no título e lead, e da organização geral do texto (superestruturas). Por sua vez, as estruturas locais (microestruturas) referem-se a elementos estilíticos do texto, incluindo formas semânticas e sintáticas, bem como aspetos retóricos.

A análise permitiu identificar os elementos aos quais o Público concedeu maior proeminência ao longo dos três meses e relacioná-los com os valores-notícia que subjazem os princípios normativos da cobertura neste jornal.

Na cobertura da pandemia podem ser identificados valores-notícia como a imprevisibilidade, negatividade e magnitude do evento, associada à sua relevância para o número elevado de pessoas envolvidas nos seus potenciais impactos. Na fase inicial da cobertura, o número de fontes é limitado e o enquadramento alinha-se com comunicados de imprensa de fontes governamentais e agências de saúde. Com o aumento do número de países afetados, aumentou também a frequência e variedade temática das notícias, servindo a comparação com eventos anteriores percebidos como semelhantes como justificação da cobertura. No final de Fevereiro, as consequências económicas e as medidas de contenção ganham destaque, altura em que também as fontes se multiplicam. Com a evolução da situação epidemiológica, para além das fontes oficiais, o Público constrói um enquadramento próprio a partir da seleção e articulação de contributos de especialistas e profissionais de variada ordem.

O estudo examina como o tema da pandemia COVID-19 foi tratado por um jornal de referência em Portugal. A análise contribui para melhor compreender a centralidade dos meios de comunicação social durante uma crise de saúde pública, e o seu papel na disseminação de informação útil no contexto de uma infodemia.

Palavras-chave: COVID-19; pandemia; notícias; infodemia; Público.

A problemática do género nas investigações sobre crise de saúde pública e práticas jornalísticas no primeiro ano de pandemia de Covid-19 Juliana Alcântara (UC)

A pandemia de coronavírus representa uma rutura nos processos sociais que indubitavelmente influenciaram nas práticas jornalísticas desde então. Com o intuito de saber como a investigação científica enquadrou, no primeiro ano de pandemia, as questões de género ao investigar as práticas jornalísticas, esta pesquisa apresenta uma meta-análise baseada em 18 publicações indexadas. A recolha contemplou as bases de dados Web of Science, Dialnet, Redib, Pubmed, Redalyc e Google Scholar, e os diretórios Scielo e Directory of Open Access Journals (DOAJ).  Para o tratamento dos dados, foi aplicada a análise de conteúdo a fim de que, através da categorização, fosse possível encontrar os contributos metodológicos, descobrir a partir de quais perspetivas a problemática é analisada, assim como quais são as autorias privilegiadas e qual a sua importância para o campo de estudo dos media.

O trabalho explora investigações que tenham como objetivo pesquisar o jornalismo no contexto pandémico e sugere que as metodologias e as perspetivas utilizadas são, de certa forma, insuficientes para endereçar a multiplicidade das circunstâncias que surgiram na rotina jornalística. Algumas lacunas de pesquisa são reconhecidas pelas e pelos autores, que encorajam a continuação e a expansão da investigação por não ter sido possível abranger nas suas pesquisas a complexidade da crise desencadeada pela pandemia. Além disso, nos primeiros estudos o recorte temporal esteve reduzido, tendo como foco os primeiros meses da pandemia.

São frequentes e relevantes os temas sobre desinformação e tecnologia. O primeiro fala diretamente do senso do papel social da profissão de jornalista e da defesa dos factos e das comprovações científicas num cenário em que o fenómeno desinformativo, que, mesmo não sendo novo, impôs novos desafios relacionados com a crise de saúde pública. Quanto ao segundo ponto, a tecnologia serviu como facilitadora dos processos de trabalho, trazendo contratempos e obstáculos, mas também oportunidades para a manutenção de laços sociais apesar do obrigatório distanciamento social e do teletrabalho. O risco de infeção e as medidas tomadas pelas empresas preocuparam a classe jornalística, que, por um lado, temeu as consequências de despedimento e de lay-off e, por outro, considerou a crise como uma situação importante para se destacar e conseguir uma possível promoção.

O argumento principal desta comunicação é de que, embora estejam reconhecidas as limitações nas próprias pesquisas, é necessário um novo direcionamento para investigar o jornalismo durante a pandemia. Isto porque a parcial ausência do prisma de género nas investigações académicas sobre as rotinas noticiosas nos mostra uma carência em considerações sobre igualdade, que, se endereçadas, apontariam para questões intrínsecas sobre liberdade individual e coletiva, assim como equidade e justiça nas relações laborais de uma profissão com características tão próprias.

Palavras-chave: género; jornalismo; pandemia; investigação; meta-análise

O perfil do pivô em situações de crise: o estudo de caso do Jornal da Noite da SIC durante a pandemia da Covid-19 Patrícia Caneira (NOVA FCSH)

A crise dos meios de comunicação é cada vez maior e torna-se imperativa a sustentabilidade financeira. No caso da televisão, a aposta dos publicitários depende diretamente das audiências no canal, pelo que a forma de produzir jornalismo acaba por ter como fim a função económica, que passou a sobrepor-se à função social (Brandão, 2005). Durante o período da pandemia da Covid-19, os média sofreram uma queda substancial das suas receitas publicitárias, no entanto, o consumo de televisão cresceu fortemente: segundo os dados da GFK/CAEM, a 15 de março de 2020, 31,6% dos portugueses esteve em frente à televisão, números que não aconteciam desde março de 2012. No entanto com um monotema a controlar todos os meios de comunicação, a abordagem que cada televisão dá ao mesmo assunto, é fundamental para que daí se faça uma distinção entre o produto apresentado de forma a atrair mais público e alcançar uma maior audiência (Oliveira, 2012). Esta distinção está a cargo do pivô que deve criar uma relação de confiança e credibilidade com os telespetadores, fazendo com que estes fiquem no canal, do início ao fim da emissão. Este artigo pretende analisar as mudanças ocorridas no papel do jornalista durante a pandemia da Covid-19, através de uma análise ao fecho das emissões do Jornal da Noite da SIC durante o mês de abril, comparando-as com o efeito nas audiências do canal e na popularidade dos pivôs Clara de Sousa e Rodrigo Guedes de Carvalho. Os resultados mostram que durante o período crítico que o mundo atravessa, assistimos a uma nova dinâmica do jornalismo, principalmente no meio televisivo, em que os pivôs saíram de um registo meramente informativo, em que se posicionavam como um observador distante, para passar a um perfil mais opinativo e de intervenção pública. Esta nova dinâmica permitiu que as audiências das emissões subissem, tornando o Jornal da Noite o quinto programa mais visto do mês de abril e colocando a SIC no primeiro lugar dos canais generalistas, mas fez também com que a popularidade dos próprios pivôs de informação subisse, permitindo que estes divulgassem trabalhos e projetos pessoais, distintos do jornalismo.

Palavras-chave: Jornalismo televisivo; SIC; covid-19; pivô; audiências.

A morte em contexto pandémico: proibição ou espetáculo? Eudora Ribeiro (NOVA FCSH)

A atitude perante a morte e a sua compreensão foram diferindo ao longo da História e consoante as geografias. No Ocidente, assistiu-se a uma evolução de uma morte considerada familiar e próxima, física e espiritualmente, na Idade Média, para uma morte considerada proibida na sociedade moderna. Uma morte sequestrada, vergonhosa, cada vez mais separada da vida e escondida, desde o início do século XX. A morte, tal como o luto, tornou-se obscena e incómoda, razão pela qual passou a ser ocultada para não perturbar o bem-estar dos vivos. Na modernidade, a morte assinalou o fracasso em preservar a vida.

A medicalização da morte contribuiu para esta morte marginalizada e objeto de interdição: morre-se no hospital, longe da família e amigos. Também a desritualização da morte deu o seu contributo. Os funerais passaram a realizar-se o mais depressa possível, substituíram-se as roupas escuras pelas do dia-a-dia, e o enterro pela cremação, que minimiza os restos e exclui razões para visitar o túmulo.

Foi, entretanto, proposta uma nova fase à História da morte no Ocidente: a morte espetacular ou espetacularizada. Discutida e exposta pelos media, considerou-se que a morte foi mercantilizada e transformada num objeto de consumo superficial e de entretenimento. É certo que os acontecimentos que envolvem a morte estão entre os mais dignos de notícia e os cabeçalhos enchem-se de atentados terroristas, guerras, doenças fatais, homicídios. Os media noticiosos são um palco onde a morte aparece constantemente, o que é considerado normal.

A presente comunicação visa refletir sobre a forma como tem sido comunicada e experienciada a morte na atual pandemia: Proibição? Espetáculo? Ambos? Por um lado, o atual contexto de pandemia levou a morte para os destaques noticiosos, com atualizações diárias dos números de mortos e infetados, à escala nacional e internacional. A pandemia tem feito manchetes em todo o mundo e os media encheram-se de gráficos e mapas com números de mortos e notícias das mortes. Por outro lado, poder-se-á considerar que a pandemia também tem reforçado a perspetiva moderna de conceber a morte como interdito. Repetidamente veiculada pelos media, a morte pode ser primeiro apresentada como espetáculo e, depois, banalizada, sendo esta banalização uma forma de reforçar a sua dimensão de interdição. Além disso, assistimos à separação forçada de pacientes e familiares no final da vida: os doentes com Covid-19 morrem longe da família e amigos, isolados e sós.

Em contexto pandémico, a morte parece, por um lado, ter permanecido como morte proibida, na forma como é vivida. Por outro lado, a morte pandémica comunicada nos media parece continuar a enquadrar-se na morte espetáculo, apesar da cobertura não ir muito além dos números. A este respeito, poder-se-ia considerar que apesar das atualizações diárias sobre mortes por Covid-19 serem cruciais para a mensagem de saúde pública, seria importante redirecionar a comunicação e dar atenção ao processo de morrer e à forma como é compreendida a mortalidade.

Palavras-chave: Morte; pandemia; proibição; espetáculo.

Desconfinamento 2021: o que dizem as notícias? Uma análise da cobertura jornalística televisiva dos canais generalistas em sinal aberto em horário nobre (11 de Março a 2 de Maio) Catarina Burnay (UCP), Felisbela Lopes (ICS-UM), Ana Teresa Peixinho (FL-UC) & Clara Almeida Santos (UC)

A 11 de março de 2021 deu-se início à primeira fase do segundo desconfinamento em Portugal. Após vários meses de avanços e retrocessos na evolução da pandemia por Sars-CoV-2, o país vislumbrava um caminho mais sereno, marcado pela diminuição do número de contágios, de internamentos e de óbitos. Os decisores políticos, auxiliados por especialistas escutados periodicamente em reuniões, foram comunicando as medidas com uma regularidade pré-anunciada, sendo essas decisões alvo de uma permanente mediatização feita a partir de diversos ângulos. Nesta comunicação, observamos a cobertura realizada pelos canais generalistas televisivos em sinal aberto, nos seus noticiários de maior audiência (os
serviços noticiosos das 20h00), tendo como pergunta de partida: “como se caracteriza a cobertura jornalística sobre o desconfinamento desenvolvida pelos canais de televisão em sinal aberto nos noticiários de maior audiência?”. Neste contexto, foi construída uma grelha de observação e análise composta por três macro-variáveis – temas, protagonistas e posicionamento – declinadas em múltiplos indicadores.


Seguidamente, foi feito um mapeamento das peças referentes ao tema-chapéu “desconfinamento” incluídas no Telejornal (RTP), Jornal da Noite (SIC) e Jornal das 8 (TVI), entre o dia 11 de março (primeiro dia da primeira fase de desconfinamento) e o dia 2 de maio de 2021 (último dia da terceira fase de desconfinamento) e procedeu-se ao seu visionamento integral. Os dados recolhidos das 673 peças identificadas foram codificados e categorizados em SPSS, permitindo alcançar resultados, quantitativa e qualitativamente, expressivos e reveladores.


Podemos, assim, concluir que a Saúde constituiu o tema principal, predominando notícias sobre a vacinação, testagem e situações de alarme/risco; o protagonismo dividiu-se entre as autoridades (Presidente da República e Ministra da Saúde) e os populares (reações ao processo faseado de desconfinamento), ganhando destaque na terceira fase o coordenador da Task Force para a vacinação e, embora tenha prevalecido o tom positivo nas três fases, foi-se observando uma tendência decrescente na incidência deste posicionamento. O presente trabalho insere-se num projeto mais vasto sobre a comunicação da pandemia e do processo de
vacinação nos legacy media (imprensa e televisão), nas redes sociais digitais e nos sítios das fontes oficiais nacionais e europeias.


Palavras-chave: cobertura jornalística televisiva; pandemia; desconfinamento; Comunicação de Saúde

Jornalismo de dados e rádio informativo: experimentação e inovação na cobertura da Covid-19 pela Rádio Renascença Debora Lopez (UFOP/UFP) & Luãn Chagas (UFMG)

O rádio contemporâneo enfrenta muitos desafios ao se inserir em uma ecologia midiática complexa e mutável, afetada direta e indiretamente por novas dinâmicas de produção, circulação e consumo de produtos midiáticos. O contexto da mediamorfose e as alterações nas relações dos meios com as audiências deriva em um novo rádio, expandido para outras plataformas, que insere novas formas de narrar em seu cotidiano, que circula por espaços distintos e que, ainda assim, mantém muitas de suas características essenciais e de seus desafios (Kischinhevsky, 2016; Lopez, 2010; 2016).


Para o jornalismo radiofônico, a nova ecologia de mídia constitui um cenário de impacto. Nele, os processos de interação com a audiência se diversificam e assumem protagonismo e de seleção de fontes de informação se complexifica (Martínez-Costa & Prata, 2017; Chagas, 2020). Alguns dos desafios enfrentados pelo radiojornalismo em plataformas digitais derivam de rupturas, outros originam-se no meio tradicional e potencializam-se no novo cenário. É o caso da seleção de informações, da apresentação de números e da apropriação do jornalismo de dados.
Neste artigo, analisamos a adoção do jornalismo de dados pela Rádio Renascença, emissora portuguesa, na cobertura da pandemia do vírus SARS-CoV-2, em 2021. Partimos do desafio de apresentar números no rádio, que acompanha o radiojornalismo desde sua criação, e discutimos as possibilidades abertas pela construção de narrativas ampliadas através de elementos parassonoros. Para isso, realizamos um estudo descritivo da cobertura realizada pela emissora em dois eixos: a) análise das produções da página “Mapas e Números do Coronavírus – Dashboard da Renascença”; b) análise das produções informativas sonoras inseridas no site da emissora sob o selo “Coronavírus”. Para a delimitação da amostra foram feitas coletas diárias e em turnos alternados, durante uma semana, do especial “Mapas e Números do Coronavírus”, da página “Essencial COVID-19” e da Reportagem Renascença.


A análise descritiva foi conduzida pelos autores a partir das seguintes categorias: a) apresentação dos dados: descrição, visualização, sonificação; b) relação entre dados e histórias de vida; c) papel dos dados: atualização, contexto, validação, utilidade pública. Pretendemos, então, a partir de uma análise individual e posterior comparação das produções sonora e parassonora da Rádio Renascença, entender o potencial e o papel do jornalismo de dados no rádio contemporâneo. Ainda que não permita extrapolações dos resultados por se tratar de um estudo de caso, compreendemos que os resultados deste artigo podem auxiliar na compreensão das hibridizações geradas no radiojornalismo pelas plataformas digitais, especificamente no que diz respeito ao uso de dados.

Palavras-chave: Rádio; Jornalismo de dados; Pandemia; Radiojornalismo