NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DP II – EL

Disrupção Política II: Eleições à Lupa

Eleições presidenciais: entre a pandemia e o populismo Isabel Ferin (UC/ICNOVA), Carla Martins (ULHT/CICANT) & Ana Cabrera (NOVA FCSH/IHC)

The Economist Intelligence Unit’s Democracy Index, publicado em janeiro de 2020, concluiu que a democracia estava fortemente debilitada no mundo. Estes dados, que são relativos a 2019, foram negativamente aprofundados pela pandemia provocada pela Covid-19. Alguns países, como a Hungria, a Polónia ou a Turquia, aproveitaram as medidas de contenção para transformar em definitivas muitas restrições temporárias, as quais suportaram à custa de narrativas populistas (Nagy, 2020). Outros países, muitos deles com democracias consideradas avançadas, como os Estados Unidos, ou em fase de consolidação, como a Roménia, reforçaram tácticas de identificação de inimigos externos ou internos, acusando determinados grupos étnicos e religiosos de porem em causa a segurança nacional ao contagiar e dissiminar voluntariamente o vírus (Moffitt, 2015). Outros desvalorizaram a doença e a sua propagação e puseram em risco a vida e a saúde dos seus concidadãos, como foi o caso de Bolsonaro e Trump. Estes construíram um discurso fortemente populista, assente nas redes sociais, com o fim de justificar a primazia do funcionamento da economia e do lucro, enquanto menosprezavam a gravidade da doença (Ferrari, 2020; Henrichsen, 2020; Nicolicchia, 2020; Pruden, 2020). Estamos, pois, perante um momento único de atuação dos políticos populistas e da utilização de estratégias de comunicação, a que Portugal não fica imune, ao passar de uma democracia plena a uma democracia com falhas, na classificação do Global Democracy Index, publicada em 2020 pelo The Economist. Neste contexto, a comunicação que se apresenta incide sobre a cobertura jornalística televisiva da campanha para as eleições presidenciais portuguesas, realizadas em janeiro de 2021. O artigo fundamenta-se nos Estudos sobre Mediatização da Política e do Jornalismo (Hepp &Krotz, 2014), bem como sobre a emergência do populismo na Europa (Foundation for European Progressive Studies, 2020). O objectivo é analisar como os jornais televisivos do prime-time da CMTV, RTP1, SIC e TVI cobriram a campanha dos sete candidatos, num momento em que se aprofundou a 3ª vaga da pandemia de Covid-19. Com uma metodologia de cariz quantitativa e qualitativa pretende-se observar as características de uma campanha que tende a decorrer em ambientes confinados e de grande afastamento físico entre participantes; as estratégias de comunicação política empreendidas por cada candidato; a visibilidade atribuída pelos blocos noticiosos televisivos a estes políticos; as características de personalização e os temas com maior destaque. Pretende-se, ainda, registar e inventariar os indicadores populistas observados nas peças relativas aos candidatos,. Como conclusões possíveis assinalamos a identificação das estratégias de cada candidato num período excepcional de pandemia; a crescente conflitualidade entre candidatos e a exploração mediática destas circunstâncias; os enquadramentos realizados, para cada político, pelo jornalismo televisivo, bem como as ruturas políticas que esta campanha apresentou, com a consolidação de um partido e um candidato populista.

Palavras-chave: Jornalismo Televisivo; Campanhas Eleitorais; Portugal; Populismo; Covid-19

As candidaturas femininas nas eleições presidenciais de 2021: entre a pandemia e o populismo Ana Cabrera (NOVA FCSH/IHC)

A campanha eleitoral para a Presidência da República que se realizou entre 10 e 22 de janeiro de 2021 foi condicionada pela 3ª vaga da pandemia e a imposição do Estado de Emergência a partir de 15 de janeiro. Contudo, foi também marcada pela atuação do candidato antissistema e populista André Ventura, líder do partido Chega, que disputava com Ana Gomes o segundo lugar nos resultados eleitorais. Para este candidato de extrema direita, o insulto foi o principal argumento e a primordial arma política que distribuiu parcimoniosamente por todos os políticos concorrentes. De entre os sete candidatos, duas eram mulheres. Ana Gomes e Marisa Matias foram, sobretudo, objeto do insulto por parte daquele candidato.
Ao populismo são normalmente associadas características como o etnonacionalismo nativista, hostilidade para com as elites (Canovan 1999), anti-pluralismo (Müller 2017) ou a oposição à imigração (Rydgren 2008). Mas Dietze and Roth (2020), associam ao populismo de direita “uma obsessão de género e sexualidade em diferentes arenas”, significa que as suas representações da organização social se pautam por uma família nuclear heteronormativa, e por isso rejeitam a educação sexual, o casamento no mesmo sexo, e remetem as mulheres para a sua situação tradicional, repudiando as questões de género. O populismo de direita procura resolver a crise da masculinidade nas sociedades ocidentais, baseando-se em estratégias anti-género, opõem-se às medidas anti discriminatórias e preparam projetos contra a igualdade de oportunidades (Sauer, 2020).


Nesta comunicação pretendemos responder às seguintes questões: Quais foram os temas privilegiados pelas candidatas Ana Gomes e Marisa Matias? Como se apresentaram ao eleitorado? Que programa de género valorizaram? Qual foi a atitude do candidato André Ventura perante as candidaturas de Ana Gomes e Marisa Matias? Que argumentos utilizou para as rebater?


A proposta metodológica vai no sentido de partir da análise da cobertura conferida aos candidatos às presidenciais, nos jornais televisivos da noite da RTP1, SIC, TVI e CMTV, entre 10 e 22 de janeiro, para nos situarmos num recorte que incide, sobretudo, em Ana Gomes, Marisa Matias e André Ventura.  A metodologia baseia-se numa análise de conteúdo apoiada numa base de dados, com o objetivo de analisar os temas, os cenários, a moldura humana, apresentados nos diversos canais e explorar a questão da relação entre género e populismo durante este período de campanha eleitoral.


Os resultados esperados vão no sentido de verificar como a resposta do populismo de extrema direita às questões da igualdade de género corresponde à reafirmação da masculinidade, como procuram sobretudo o apoio dos homens, como a resposta das candidatas, aos ataques machistas dos populistas, assentam no reforço dos valores da democracia e na defesa da igualdade de género.

Palavras-chave: Género; Populismo; Campanha Presidencial; Pandemia; Democracia

Debate político no Twitter durante as eleições presidenciais portuguesas de 2021 – o que acontece quando o discurso inflamado domina? Luís António Santos & Francisco Conrado (UM/CECS)

Durante anos, Portugal foi retratado como uma sólida democracia europeia em que as manifestações políticas extremistas de Direita eram quase inexistentes. Apesar do surgimento de micro-movimentos políticos orientados para o discurso populista pelo menos desde 2016 (como demonstrámos com uma análise de 1400 páginas do Facebook), foi apenas em 2019, com a emergência de um novo partido político – Chega! – que a extrema Direita conseguiu eleger um representante para o Parlamento nacional. As Eleições Presidenciais de 24 de janeiro de 2021 – em que o líder do Chega! se apresentou como candidato – foram um teste para a adaptação do sistema político a uma nova força e um terreno fértil para analisar estratégias de comunicação.


O primeiro objetivo deste trabalho foi estudar as conversas no Twitter relacionadas com as eleições, tentando avaliar se: 1) a presença de um candidato extremista de Direita influenciaria o discurso; 2) participantes abertamente de Direita / Esquerda usaram estratégias diferentes. Entre 2 de novembro e 22 de janeiro de 2021, recolhemos mais de 420.000 tweets mencionando pelo menos um dos candidatos. Os dados foram coletados via API do Twitter, com a ajuda do TCAT, e posteriormente processados em R. Para avaliar a inclinação política dos utilizadores, usámos codificação humana qualitativa, com base na presença de um em quatro indicadores (apoio aberto ao candidato em bio ou perfil com fotos, compartilhamento de um tweet com indicação clara de apoio, uso de hashtags específicas politicamente explícitas, publicação de tweet declarando preferência pessoal). A análise detalhada foi realizada com base em amostragem. Os resultados preliminares emergentes dos relatórios semanais produzidos indicam que o candidato da extrema Direita (que foi o 3º mais votado no país, multiplicando por seis os votos obtidos pelo partido em 2019) dominou substancialmente os debates no Twitter, não apenas por publicações na conta própria ou ações / pronunciamentos de campanha, mas principalmente por ser um foco de atenção para outros candidatos e seus apoiantes. Curiosamente, os usuários identificados com a Esquerda foram mais vocais e mais dinâmicos nas suas interações do que os usuários identificados com a Direita. Numa nota de sobriedade, importa assinalar que o presidente reeleito quase não teve presença no debate online, indicando que o Twitter em Portugal continua a ser um espaço para uma minoria ruidosa que apenas marginalmente deve ser percebida como representativa da população nacional.


O segundo objetivo do trabalho foi o estudo dos conteúdos recolhidos através de uma análise de sentimentos, tentando perceber quais surgem mais associados a cada um dos candidatos. Utilizando o léxico NRC-EIL foi possível associar as palavras presentes nos tweets a seis graus/intensidades: Raiva, Medo, Tristeza, Nojo, Surpresa, Antecipação, Alegria e Confiança. Resultados preliminares mostram que André Ventura foi o candidato ao qual se associaram mais sentimentos, sendo que importa assinalar o facto de sentimentos negativos terem sido os mais expressados para a maioria dos candidatos.

Palavras-chave: Twitter; Política; Discurso; Sentimento

A cobertura de imprensa online das eleições autárquicas nos jornais PÚBLICO e EXPRESSO: análise de conteúdo comparativo entre os atos eleitorais de 2013, 2017 e 2021 em Lisboa João Carlos Martins (NOVA FCSH/ICNOVA)

Em Portugal, o poder local prometia uma das maiores conquistas de abril de 1974, após a queda do Estado Novo, consagrada na Constituição da República de 1976. Nas últimas quase cinco décadas, a proximidade entre cidadãos e políticos neste poder potenciava uma cultura democrática que a participação eleitoral não confirmou, traduzindo-se numa abstenção cada vez maior de eleição para eleição. Entre a democracia mediática e a cultura política, qual é o papel da comunicação social em geral, e do jornalismo online em particular, na formação dos leitores como eleitores?


Nesta análise de conteúdo (Berelson, 1952; Holsti, 1969; Rourke & Anderson, 2004; Krippendorff, 1980-2018) considerámos analisar peças jornalísticas durante a campanha eleitoral autárquica de Lisboa em 2013 e 2017, utilizando os sítios online do diário PÚBLICO e do semanário EXPRESSO, considerados jornalismo de referência em Portugal. Entende-se por imprensa de referência aquela que privilegia o tratamento de temas políticos, sociais, económicos ou culturais e onde os géneros jornalísticos dominantes são aqueles que convidam à reflexão do leitor.


Numa amostra total de 20 peças de diferentes gêneros jornalísticos nos dois atos eleitorais de 2013 e 2017, escolhemos 10 artigos em cada um desses anos de cada um dos jornais. O período foi o da última semana da campanha eleitoral, a última semana de setembro, já que o dia das eleições foi 30 de setembro em 2013 e 1 de outubro em 2017. Em ambos os períodos, o nosso ângulo de visão focou-se nas propostas eleitorais, dos programas apresentados à votação pelos partidos políticos, os quais foram efetivamente veiculados pelos meios de comunicação como parte da construção cívica e política do eleitor.


Para a análise da amostra escolhida, decidimos construir um código com os seguintes indicadores: a) Género e autoria; b) Tamanho; c) Relevância; d) Credibilidade; e) e) Fontes e esforço (de acordo com a credibilidade e o número de fontes, determinamos o esforço do jornalista medido em maior, médio ou menor); f) Temas (uma breve compilação de temas da campanha eleitoral local, isolando-os da discussão política geral da governança do poder central, discussão que deixamos para as conclusões) e g) Layout gráfico (utilização de fotos, ilustrações ou infografias).


Os dados já recolhidos e analisados de 2013 e 2017, aos quais pretendemos adicionar dados de mais 10 peças jornalísticas da quarta semana de setembro de 2021 (última semana da próxima campanha eleitoral), apontam para uma certa dispersão e um desvio da comunicação política do governo local para o governo central. Algumas das peças analisadas refletem a ocupação do espaço discursivo da política local por representantes da política nacional, numa manipulação dos média que compromete o domínio de um discurso analítico sobre temas e candidatos locais. Uma estratégia política que é, por vezes, alimentada pelo jornalismo numa orientação de cobertura como uma competição estratégica, em detrimento das questões substantivas que os leitores e eleitores querem ver tratados para uma melhor formação do voto e diminuindo os valores da abstenção que foi de 54,9% em 2013 e 48,8% em 2017 em Lisboa.

Palavras-chave: Política; Comunicação; Poder Local; Campanha Eleitoral; Jornalismo

Propaganda política no Facebook: o caso da campanha de Rui Moreira  Sasha Rupar van Lammeren & Fernando Vasco Ribeiro (FLUP)

Em Computational Propaganda (2018), Woolley e Howard descrevem com clareza dois ramos de investigação em ascendência e que, certamente, precisam de mais estudos tendo em vista a natureza sempre mutável da era digital. Tratam-se da propaganda computacional e das ciências dos médias sociais. Como parte deste processo, os autores sugerem que o uso de algoritmos, automação e curadoria humana nas redes sociais e demais plataformas digitais constroem um arcabouço inteligível que fomenta e manipula o pensamento (e comportamento) humano. Tal impacto geram reminiscências que se verificam na rotina da sociedade e em suas atividades culturais, económicas e políticas.

Pippa Norris e Ronald Inglehart (2019), em sua obra Cultural Backlash, lançam mais luz a esta tendência, demonstrando que o risco de disrupção e de enfraquecimento das instituições democráticas é real e está em curso em muitos lugares do mundo. A sociedade pós-materialista, ou pós-industrial, preocupada com temas identitários choca-se com a sociedade da informação (Castells, 2010), numa rutura do modo de ser, estar e fazer a política. Debates que até então fariam sentido numa localização geográfica específica, hoje ganham contornos identitários globais. Tais movimentos, alimentados pelo sistema de comunicação em web, exigem um novo entendimento.

Com base neste paradigma e nas questões despontadas a partir dos estudos mais recentes da área, surgiu a necessidade e a motivação para a presente investigação. Compreendendo a importância das redes sociais na política, assim como na formação da opinião pública e propaganda, visamos fazer uma investigação com base num estudo de caso da campanha de Rui Moreira à Câmara do Porto em 2021 no Facebook. Para este objetivo aplicaremos três procedimentos de investigação: observação participante, análise de conteúdo (qualitativo e quantitativo) e entrevistas semiestruturadas com a equipa de campanha.

O período de recolha configurará os meses de Julho, Agosto e Setembro, de modo a coincidir com os meses de campanhas para as autárquicas de 2021. Os dados já absorvidos com base no Buzzmonitor (ferramenta de análise de dados das redes sociais), entretanto, já estão sendo analisados. Tais informações serão examinadas novamente quando faremos a triangulação dos dados.

Visamos, a partir do cruzamento destes dados, compreender como é possível fazer uma campanha política através das redes sociais utilizando-se de boas práticas de informação e comunicação. Considera-se que as novas tecnologias podem – e devem – favorecer e fortalecer o sistema democrático tendo em vista pesos e contrapesos que impeçam a desinformação e a mentira, num contexto de pós-verdade. Esperamos gerar conhecimento acerca do comportamento de eleitores no Facebook tendo em vista gatilhos de informação provenientes da propaganda política. Desta forma, ambicionamos também desenvolver uma metodologia tanto de investigação nestas áreas como de prática para a própria comunicação política nas redes.

Palavras-chave: Facebook; Política; Comunicação; Autárquicas; Disrupção;

Incivis e odiosos? Comentários online às notícias sobre as eleições legislativas de 2015 e 2019 Marisa Torres da Silva (NOVA FCSH/ICNOVA), João Gonçalves (Erasmus University Rotterdam), Pedro Coelho (NOVA FCSH/ICNOVA) & Maria José Brites (ULP/CICANT) 

A prevalência de incivilidade e a presença do discurso de ódio nos espaços online está amplamente documentada (Coe, Kenski, & Rains, 2014; Erjavec & Kovačič, 2012). A proliferação do ódio nestes espaços não é apenas preocupante enquanto sintoma das atitudes dos públicos, mas tem também uma influência nos indivíduos que são expostos ao conteúdo nocivo (Riedl, Masullo, & Whipple, 2020; Soral, Bilewicz, & Winiewski, 2018), trazendo sérios riscos à democracia. Este fenómeno é particularmente problemático no caso dos comentários às notícias, não só pela proeminência e responsabilidade que as organizações jornalísticas assumem enquanto dinamizadores do debate público, mas também porque os próprios comentários afetam a forma como as audiências interpretam o conteúdo das notícias.

Esta comunicação analisa a presença de incivilidade e de discurso de ódio nas caixas de comentários online de vários órgãos de comunicação social mainstream nas campanhas para as Eleições Legislativas de 2015 e de 2019. Esta pesquisa tem dois propósitos: por um lado, avaliar a extensão da incivilidade e do discurso de ódio nos comentários dos leitores em período de campanha e, por outro, investigar até que ponto é que este problema se agravou ou atenuou.

Para realizar esta análise, alavancámos um trabalho que se focou nas Eleições Legislativas de 2015 e que analisou extensivamente diferentes tipos de incivilidade presentes nas caixas de comentários, das formas menos graves até às mais extremas, como o discurso de ódio. Os dados de 2015 (n=28 615) mostram que, se considerarmos apenas as formas graves de incivilidade, cerca de 30% dos comentários continham pelo menos alguma manifestação mais ofensiva de incivilidade. No caso dos dados de 2019 (n=11 634), foi adotada uma abordagem automática para a classificação dos comentários seguindo as categorias previstas para a amostra de 2015, de forma a identificar a probabilidade de um determinado tipo de incivilidade estar presente num comentário. Os dados de 2019 mostram que, se considerarmos apenas as formas mais ofensivas de incivilidade, cerca de 37% dos comentários continham pelo menos alguma probabilidade de manifestação mais grave de incivilidade, o que denota um agravamento do problema entre os dois atos eleitorais.

Apesar de as manifestações e a probabilidade de ocorrências de discurso de ódio serem reduzidas no conjunto das publicações analisadas, a sua taxa de incidência aumentou ligeiramente. Constatámos, neste contexto, uma diferença significativa no que diz respeito à eficácia de modelos de moderação (como a pré-moderação ou a moderação colaborativa) na redução das probabilidades de ocorrência de discurso de ódio, em contraposição a sistemas de gestão que assentam na pós-moderação e/ou através de um plug-in, onde a possibilidade de instâncias de discurso de ódio se revelou maior.

Verificámos ainda, nos dados de 2019, uma mudança de registo nas instâncias de discurso de ódio online em relação ao que se constatou nas Eleições Legislativas de 2015, que sugere um tom mais insultuoso a nível geral (e não apenas circunscrito a um conjunto de políticos), que pode visar a exclusão de determinados grupos sociais dessa mesma discussão.

Palavras-chave: incivilidade; discurso de ódio; comentários online; período eleitoral.

O dia seguinte: a eleição de Joacine Katar Moreira na imprensa tradicional e online portuguesa Carla Martins & Carla Rodrigues Cardoso (ULHT/CICANT)

Em resultado das eleições legislativas de 6 de outubro de 2019, três novas forças políticas entraram no Parlamento: Chega, Iniciativa Liberal e LIVRE. A eleição de Joacine Katar Moreira (JKM), cabeça de lista pelo LIVRE, constituiu uma novidade tanto ao nível político como mediático, desafiando cânones estabelecidos nos dois campos. Doutorada em Estudos Africanos, mulher negra, ativista feminista e anti-racista, a primeira deputada com gaguez, JKM chegou ao Parlamento precedida de uma reconhecida carreira académica e uma história de mobilização na área social.
O estudo que se apresenta faz parte do projeto de investigação “Intersectionality Media Lab – The Joacine Katar Moreira Case Study” do CICANT – Universidade Lusófona, financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia -, que tem como fim analisar, com ancoragem teórica numa perspetiva interseccional, a cobertura noticiosa dos primeiros seis meses do mandato parlamentar de JKM na imprensa nacional, tanto impressa como online (outubro de 2019 a abril de 2020). A pesquisa foca-se nas representações de JKM nas primeiras páginas dos jornais, capas de newsmagazines e homepages dos principais títulos de informação geral portugueses: Correio da Manhã, Diário de Notícias, Expresso, Jornal I, Jornal de Notícias, Observador, Público, Sábado, Sol e Visão. O recurso à interseccionalidade é “bastante relevante enquanto modo de olhar a construção mediática da sociedade e os seus impactos na desconstrução ou sedimentação de relações de poder, nas experiências e subjetividades dos indivíduos” (Cerqueira & Magalhães, 2017: p. 15). Em suma, “a incorporação de uma lente interseccional enriquece a compreensão dos investigadores do mundo social” (Misra et al, 2021: p. 9).


Nesta comunicação propomos apresentar o resultado de um estudo empírico, baseado na técnica de análise de conteúdo, de um subcorpus de 19 peças noticiosas publicadas a 7 de outubro de 2019, o dia seguinte às eleições legislativas. Incluímos na análise tanto as primeiras páginas / capas/ homepages como o desenvolvimento das peças noticiosas. A questão de investigação, incidindo sobre a novidade da eleição de uma deputada pelo LIVRE, perscruta as dimensões jornalisticamente valorizadas de uma candidata cujo perfil pessoal e político torna complexa a subsunção aos quadros habituais de representação mediática da política. Como referem Cerqueira & Magalhães, “a atualidade não se pode dissociar de vivências multideterminadas e sempre presentes”, e “como parte significativa destas experiências encontram-se os media” (2017: p. 10). Importa-nos, assim, compreender quais os atributos destacados neste “dia seguinte”, através dos textos e das imagens que compõem a narrativa dos media sobre a primeira mulher a representar um novo partido na Assembleia da República portuguesa e as suas características específicas.

Palavras-chave: Media; Política; Jornalismo; Interseccionalidade

Design editorial e conexão emocional na cobertura mediática da eleição de Joacine Katar Moreira   Carla Rodrigues Cardoso, Alexandra Barradas & Anna Ragasová (ULHT/CICANT)  

O design editorial é fundamental na hierarquização da informação e na construção do sentido oferecido ao público, nomeadamente, na maior ou menor capacidade de despertar emoções, sendo que “a exibição pública de emoções pode ser mobilizada de maneiras construtivas para criar comunidades de solidariedade, mas emoções negativas como medo, raiva, ódio e repulsa são comummente mobilizadas para criar hostilidade e divisões entre os grupos” (Wahl-Jorgensen, & Pantti, 2021, p. 7). Por outro lado, “parece que uma das principais preocupações do jornalismo visual de notícias é atrair o máximo de atenção possível no maior número de plataformas possível” (Gynnild, 2016: p. 76), um objetivo só alcançável através de um design editorial eficaz e cativante. Importa, assim, compreender a dinâmica de tensão entre continuidade e disrupção que as alterações tecnológicas operam no design editorial quando se passa da tradicional arrumação em papel para o universo multimédia online. Nesta investigação, procuramos respostas a duas questões principais: a) de que forma o design editorial contribui para a construção do sentido da mensagem jornalística e a investe de uma conexão emocional; b) que diferenças existem entre as estratégias de design editorial nos suportes papel e digital?

Para encontrarmos respostas, focamo-nos num caso concreto – a cobertura mediática na imprensa de grande informação da eleição de Joacine Katar Moreira, a primeira mulher a conseguir que um novo partido (LIVRE) tivesse assento na Assembleia da República. Os media responderam às características interseccionais de Katar Moreira – mulher, negra e a primeira parlamentar com gaguez – definindo estratégias de representação que passaram também pelo design editorial, para falar de uma realidade com fatores novos. Mergulhamos, assim, na “práxis do design a partir do campo jorna­lístico” (Gruszynski et al, 2016: p. 36) centrado no dispositivo mais nobre de uma publicação – primeira página (jornais); capa (revistas); e homepage (imprensa online) –, espaço privilegiado de poder de decisão de editores, chefes de redação e diretores.

Este estudo faz parte do projeto de investigação “Intersectionality Media Lab – The Joacine Katar Moreira Case Study” do CICANT – Universidade Lusófona, financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que acompanha os primeiros seis meses da cobertura mediática da deputada. Para este estudo em particular, definimos como período de análise as duas primeiras semanas pós-eleitorais (6 a 20 de outubro de 2019) e recolhemos um corpus de 49 peças nas páginas, capas e homepages dos dez jornais e newsmagazines em análise: Correio da Manhã (CM), Diário de Notícias (DN), Expresso, jornal I, Jornal de Notícias (JN), Observador, Público, Sábado, Sol e Visão. O facto de se trabalhar com um corpus alargado e multifacetado – imprensa diária e semanal; de referência e popular; conotada com ideais políticos diferenciados – enriqueceu a opção metodológica pela análise de conteúdo. Os primeiros resultados mostram um considerável relevo dado à eleição da deputada, que se acentua na imprensa online, na qual chega a ser manchete, percorrendo uma panóplia de representações emocionais que vão da calma angelical à explosão eufórica enformadas pelo design editorial.

Palavras-chave: design editorial; emoções; cobertura mediática; jornalismo; Joacine Katar Moreira.

O uso do humor e da irreverência como estratégia de comunicação política: O caso do Iniciativa Liberal nas Europeias e Legislativas de 2019 Marco Matos & Vasco Ribeiro (FLUP)

Partindo da área de interesse da Comunicação Política e do Marketing Político, no presente trabalho é empreendido um estudo de caso da forma como foram utilizados o humor (Hurley et al., 2011) e a paródia, com uma aposta numa estratégia de comunicação irreverente e disruptiva, pelo Iniciativa Liberal nas duas primeiras eleições às quais concorreu: as Europeias e as Legislativas de 2019. Para tal, é utilizada uma metodologia em dois níveis. Primeiro, é realizada uma análise semiótica de um corpus de 21 cartazes, inaugurados pelo partido entre janeiro e dezembro de 2019, a partir de um quadro de análise próprio que confluiu propostas de análise de autores de campos interdisciplinares como a Semiótica Social e a Análise do Discurso Multimodal. Tendo-se por base a proposta de análise semiótica de Roland Barthes em “A Retórica da Imagem” (1964), que divide o suporte publicitário em três níveis – textual, iconográfico e simbólico –, são ainda estudados os processos de polifonia e de utilização da dêixis (Benveniste, 1966), assim como o diálogo multimodal na construção do significado humorístico (Kress & Leuween, 2006) e o tipo de técnicas do humor utilizadas para tal construção (Asa Berger, 1993), entre outras pospostas matriz nestas áreas de estudo, relevantes para o entendimento do objeto em análise. Num segundo momento realizam-se um conjunto de entrevistas semiestruturadas aos principais intervenientes no processo de criação dos cartazes analisados, com o intuito de se perceber qual o público-alvo da comunicação, qual o seu grau de eficácia nos resultados eleitorais e na perceção do partido pelo eleitorado, assim como na dinâmica interna do partido, e o porquê de ter sido escolhido o humor, a disrupção e a irreverência como principais estratégicas comunicativas do recém-criado partido. Os entrevistados neste passo metodológico são o Carlos Guimarães Pinto, presidente do partido no período a analisar; Rodrigo Saraiva, assessor de comunicação do partido; e Manuel Oliveira, proprietário da agência publicitária “A Mosca”, e designer conceptual dos mesmos (Guimarães Pinto, 2019). Entendemos que os resultados do trabalho podem ainda abrir novos caminhos à análise da crescente utilização deste tipo de suportes comunicativos disruptivos por partidos mais tradicionais do sistema, como o PSD e o CDS-PP, fenómeno que parece ter vindo a ganhar fôlego no espaço público.

Palavras-chave: Comunicação Política; Campanha Política; Humor; Outdoors; Iniciativa Liberal.