NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DS I

Disrupção e Sociedade  I: Participação Disruptiva I 

Dinâmicas de comunicação na ação coletiva pela igualdade de género: uma abordagem etnográfica de relações públicas Naíde Müller (UCP/CECC)

A pandemia de Covid-19 veio reforçar a necessidade de uma resposta colaborativa global de governos, setor privado, sociedade civil e público em geral para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável global para 2030 (UN SDG Progress Report 2020).

É reconhecida a contribuição dos movimentos cívicos para a eficiência e estabilidade dos governos democráticos e para o desenvolvimento das sociedades modernas (Bourdieu, 1986; Coleman, 1988; Putman, 1993). A comunicação estratégica também é um fator determinante para a mobilização social na conquista da legitimidade e adesão participativa e democrática (Norris, 2002; Toro & Werneck, 2004; Negri & Hardt, 2005; Kunsch & Kunsch, 2007).

Mas várias áreas da comunicação estratégica, nomeadamente as relações públicas, não reconheceram as atividades relacionadas com o ativismo como parte integrante da disciplina e da prática durante muito tempo (Dozier & Lauzen, 2000; Dutta, 2009). Argumentamos que a comprovada eficácia das relações públicas – uma área de crescente relevância económica global (Guttmann, 2020) – na defesa das agendas das elites políticas e corporativas pode ser aplicada à defesa da Agenda 2030 por movimentos ativistas (Tafra-Vlahović, 2012; Acaroglu, 2014).

Para explorar este argumento, utilizamos o estudo de caso da UMAR (uma organização ativista para os direitos da mulher fundada em 1976) que trabalha no ODS5 (alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas). A UMAR enquadra-se na designação de “organização voluntária híbrida multifuncional” com capacidade para mobilizar recursos e obter compromissos (Hasenfeld & Gidron, 2005). Estas organizações combinam deliberadamente características de associações geridas por voluntários, movimentos sociais e associações sem fins lucrativos, sendo necessária uma visão abrangente e dinâmica da sociedade que articule a análise das organizações sem fins lucrativos enquanto expressão dos novos movimentos sociais (Martins, 2003; Ferreira, 2004; Hasenfeld & Gidron, 2005).

Recorremos a uma pesquisa etnográfica (6 meses de observação participante – janeiro / junho de 2021) para analisar como os ativistas são produtores de comunicação estratégica para a mudança social e como o ativismo e as relações públicas não são antagónicos, ocupando antes um espaço fluido influenciado por forças culturais e económicas (Ciszek, 2017). A etnografia tem sido apresentada como uma metodologia que traz desenvolvimentos relevantes para a investigação em relações públicas, nomeadamente no âmbito das tradições socioculturais (L’Etang, Hodges & Pieczka, 2012; Everett & Johnston, 2012; James, 2012; Xifra, 2012).

Pretende-se observar o potencial emancipatório, subversivo e transformador das relações públicas para a mudança social através de diferentes prismas: 1) Produção de significados sociais e a sua interferência nas relações de poder; 2) Desenvolvimento de campanhas de advocacy e de ativismo para mudanças sociais e políticas; 3) Negociação de identidades e de práticas culturais e 4) Gestão da reputação e comunicação política e mediática (Daymon & Demetrious, 2013).

Os dados preliminares indicam que existem zonas de convergência entre as relações públicas e estas formas de ativismo que podem inclusive ajudar a delinear estratégias para mitigar dificuldades estruturais (como as relacionadas com o financiamento e sustentabilidade económica) dos coletivos ativistas organizados no terceiro sector (Franco, 2014).

Palavras-chave: Comunicação; relações públicas; mudança; ativismo; terceiro sector.

#Feminismo Portugal: um mapeamento exploratório do panorama de hashtags feministas no Instagram Sofia Caldeira (ULHT/CICANT)

Meios digitais e redes sociais são hoje uma parte integral do nosso dia-a-dia e da experiência da vida política no quotidiano (Highfield, 2016). Movimentos como #MeToo cimentaram práticas activistas digitais que utilizam redes sociais como modos de disseminar informação, organizar acções, ou construir comunidades activistas. Estas plataformas permitem também a pessoas “comuns” (ou seja, pessoas que não sejam activistas, políticos de carreira, ou celebridades) criar, publicar, e interagir com conteúdo feminista. De entre estas redes sociais, o Instagram é, presentemente, uma das redes sociais mais populares globalmente, tendo em 2018 alcançado mais de um bilião de utilizadores (WeAreSocial, 2021) e, como tal, tornou-se um campo significativo para discussões políticas e feministas. Em Portugal, o Instagram surge como a terceira rede social (excluindo plataformas de mensagens como o WhatsApp) mais utilizada (WeAreSocial, 2021).


Esta comunicação apresenta um mapeamento exploratório do panorama de hashtags feministas no contexto português na rede social Instagram. Combinando estratégias qualitativas de observação directa com métodos digitais (Rogers, 2013), esta investigação parte do estudo de quatro hashtags: #feminismoportugal, #igualdadedegénero, #naopartilhes, e #portugalmaisigual. Estes hashtags servem como ponto de partida para a criação de um dataset orientado em torno dos temas feminismo e igualdade de género (Literat & Kligler-Vilenchik, 2019). Os hashtags foram consultados semanalmente, durante cinco semanas consecutivas entre Abril e Maio de 2021. Os utilizadores destes hashtags foram contactados por mensagem directa no Instagram, informados dos objectivos da investigação, e o seu consentimento informado foi recolhido. 101 utilizadores concordaram participar anonimamente, e foram recolhidos 294 posts, datando de Outubro de 2020 a Maio de 2021. O dataset foi analisado usando a ferramenta de visualização de informação Gephi, para criar uma network de co-ocorrências de hashtags. Em adição, os posts, as suas legendas, e comentários foram também analisados qualitativamente (Given, 2008).


Esta análise multi-metodológica permite a exploração de uma gramática de hashtags (Omena, Rabello & Mintz, 2020), explorando a diversidade existente dentro dos mais de 1000 hashtags individuais identificadas neste dataset e as interconexões estabelecidas entre diferentes hashtags e diferentes comunidades feministas online. Esta diversidade enfatiza a pluralidade dos feminismos online, quer em termos de temáticas e conceitos feministas, da sua interrelação com questões comerciais que evocam a noção de feminismo neoliberal (Rottenberg, 2014), e na sua ligação a um imaginário feminista transnacional. A análise explora também o modo como, numa rede social baseada primariamente em imagens como o Instagram, preocupações políticas encontram-se inevitavelmente entrelaçadas com estéticas Instagramáveis (Caldeira, De Ridder & Van Bauwel, 2020), visíveis nas convenções visuais utilizadas em conjunção com os hashtags analisadas.


Este mapeamento de hashtags feministas no Instagram português explora assim tensões entre objectivos estéticos e políticos, entre uma política e uma economia da visibilidade.

Palavras-chave: feminismo online; Instagram; métodos digitais

O #vermelhoembelém no Instagram: a luta contra o machismo nas redes sociais Patrícia Teixeira (UTAD/ICNOVA) & Marlene Loureiro (UTAD/LABCOM)

Esta comunicação parte da análise do movimento “Vermelho em Belém”, mais concretamente do hashtag #vermelhoembelém, no instagram. Este hashtag surgiu como forma de protesto contra aquilo que foi considerado um ato de machismo, decorrente de um comentário depreciativo do candidato André Ventura sobre Marisa Matias, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, durante a campanha eleitoral para as Eleições Presidenciais de 2021. O candidato apoiado pela Chega disse, numa ação de campanha que “Marisa Matias não está muito bem em termos de imagem, com aquele batom vermelho, como se fosse uma coisa de brincar”. Durante os dias que se seguiram, muitos foram os utilizadores das redes sociais, anónimos e não anónimos, que fizeram com que o hashtag #vermelhoembelém (nas suas mais diferentes nomenclaturas) se tornasse num dos assuntos mais comentados nos meios de comunicação em geral e nas redes sociais, nomeadamente no instagram. A investigação que aqui se apresenta procura analisar como o tema foi então explorado nesta rede social, qual o papel que os seus utilizadores tiveram na propagação ou na condenação do discurso machista na sociedade portuguesa e como, a partir da exploração deste assunto, se conseguiu influenciar a esfera pública na reflexão sobre as manifestações machistas em Portugal e, consequentemente, na procura de uma sociedade mais inclusiva e equitativa. Para alcançar estes objetivos, seguiu-se um percurso metodológico qualitativo, através de uma análise de conteúdo de todas as publicações que incluíam o hashtag #vermelhoembelém, desde o dia seguinte ao da declaração até ao dia das eleições, procurando perceber se eram pró ou contra o dito de André Ventura e como procuravam combater o machismo com aquilo que partilhavam. Esta análise veio reiterar a importância que as redes sociais têm ganho para a discussão de temas importantes, como é o caso do machismo, e demonstrar a sua quota parte na construção de uma sociedade [mais] democrática.

Palavras-chave: Jornalismo; #vermelhoembelém; redes sociais; machismo; instagram

“A luta feminina está viva”: dificuldades e adaptação do ativismo híbrido em pandemia no movimento 8M em Portugal Camila Lamartine (NOVA FCSH/ICNOVA)

Os movimentos feministas conquistaram maior disseminação através do ciberfeminismo, a partir da contestação das desigualdades e das representações das mulheres no ciberespaço (Martinez, 2019; Haraway, 1991). Nesse sentido, alguns estudiosos indicam o surgimento de uma nova onda feminista que emerge das redes e plataformas digitais, vindo a reivindicar uma maior inclusão das diferenças e eixos de poder / opressão, enfatizando assim a interseccionalidade (Silva, 2019; Fernadez et al., 2019; Hollanda, 2018; Chamberlain, 2017), utilizada como estrutura teórica mais adequada para o movimento da quarta vaga, uma vez que busca intervir e viabilizar de forma política, mas não à custa da segregação, silenciamento e marginalização (Zimmerman, 2017).


Um destes movimentos é o 8M que se configura como uma recente atividade feminista de greve, cuja origem se faz na Polónia em outubro de 2016 contra a ilegalidade do aborto, chegando na Argentina após assassinato da adolescente Lúcia Pérez, espalhando-se rapidamente para Itália, Turquia, Peru, Chile, Estados Unidos, Espanha, México e vários outros países do globo (Arruzza, Bhattacharya & Fraser, 2019). Em 2019, os protestos em Portugal, 30 mil mulheres marcharam contra a violência machista em pelo menos 13 cidades, de acordo com organização do evento em cada país. O 8M repolitiza os movimentos feministas deste século (Arruzza et al, 2019), que se caracteriza como fruto de mobilização da associação entre o ativismo digital e de rua (Zimmerman, 2017).


Com o advento da pandemia da covid-19, a mobilização que sempre levava milhares às ruas, teve de ser adaptada de acordo com as medidas de proteção de saúde implementadas pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS), tendo as plataformas organizadoras se utilizado amplamente do Facebook e Instagram.


Portanto, com o objetivo de problematizar a presença de uma quarta onda feminista e do ativismo digital, tecemos uma análise das páginas do Instagram e Facebook das entidades coletivas encarregadas de organizar e promover o 8M em Portugal (Rede 8 de Março e Greve Feminista) no ano de 2021. Dessa forma, através da observação participante netnográfica e de entrevistas exploratórias e semiestruturadas queremos perceber as dificuldades e adaptações enfrentadas pelas organizadoras para realizar o 8M, considerando a pandemia, igualmente, como um contexto disruptivo em si.
Espera-se identificar ainda as agendas, temas e feminismos abordados nas publicações, além do engajamento do próprio usuário, a fim de melhor compreender a construção de um feminismo interseccional por meio do ativismo digital, e assim perceber se a presença online suplantou o movimento nas ruas, ou se justamente a falta de aglomeração física desmotivou o engajamento político no ano de 2021.

Palavras-chave: Movimento feminista; Ciberfeminismo; Movimento 8M; Netnografia; Entrevistas.

 “Você não está só, eu também passei por isso”: uma abordagem autoetnográfica sobre o papel das redes sociais na (re)afirmação identitária de sobreviventes Taiana Catharino (NOVA FCSH/ICNOVA)

Ser uma mulher sobrevivente de violência física, psicológica ou violação sexual e defrontar-se com relatos pessoais sobre assédio, abuso e violência é identificar-se, mesclar-se, referenciar-se a todo o tempo na escuta ativa e leitura atenta dessas mulheres. As semelhanças das experiências, descrições de sensações, recepção e superação são muitas vezes claras e profundas. As histórias misturam-se, parecem descrever uma a experiência da outra, em um misto de solidariedade, indignação, compaixão e empatia.


Na minha pesquisa de tese eu analiso a percepção das mulheres sobre o papel das suas narrativas pessoais, publicadas em redes sociais, relacionadas às suas experiências de diversas formas de controle sofridas por seus corpos e vozes. Utilizo fundamentos da teoria fundamentada em dados construtivista e autoetnografia como metodologias de pesquisa e tenho realizado entrevistas em profundidade com mulheres que relataram em suas redes sociais alguns tipos de controle sofridos, como violência sexual, relacionamentos abusivos, assédios moral e sexual e diferentes tipos de silenciamento.


Todas as entrevistadas acreditam que o principal fator que faz com que as sobreviventes continuem sendo desacreditadas, julgadas e culpabilizadas são a incompreensão, por parte do interlocutor, do
processo de (re)elaboração da história, da inconstância de emoções, do desconforto, da pressão da (auto) culpa e do medo do julgamento. As mulheres indicaram que o principal sentimento associado
à recepção da publicação de relatos nas redes sociais foi alívio. Alívio por terem compartilhado, alívio por terem sido de alguma forma apoiadas, ouvidas ou lidas, alívio por perceberem que não estão
sozinhas. Por outro lado, em relação à recepção das suas histórias contadas em ambientes offline, principalmente a familiares e amigos próximos, as mulheres disseram sentir indignação, raiva ou revolta
pela indiferença e julgamento que perceberam nos comentários e atitudes de seus interlocutores.

Relatos em redes sociais servem como um mecanismo de comunhão de experiências e uma forma de ecoar vozes que vêm sendo silenciadas e desacreditadas. Por meio de uma abordagem autoetnográfica, como sobrevivente de relacionamento abusivo, violência física e violação sexual, mesclada à análise de entrevistas e narrativas das mulheres, proponho argumentar como a publicação de relatos pessoais em redes sociais sobre abusos (físicos, psicológicos e/ou sexuais) pode ser mais fértil, rica e produtiva para a (re)afirmação identitária da sobrevivente do que o debate em círculos privados em ambientes offline.

Palavras-chave: autoetnografia; abusos; redes sociais; identidade; sobrevivente