NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DS III – LP

Disrupção e Sociedade III: Lugares e Posições

Práticas de receção e identidade nacional: questões epistemológicas e metodológicas Bruno Santos Dias (FLUC/ICNOVA) 

A acelerada transformação das tecnologias de comunicação que vimos experimentando, especialmente nos últimos anos, tem demandado um permanente repensar de conceitos e sua pertinência para interpretar as novas realidades. Nesse processo, um dos muitos aspectos em causa são as perspetivas sobre processo comunicacional, na qual destaca-se aquela vinculada aos estudos culturais e seu olhar para a cultura como constituída na experiência quotidiana dos indivíduos. É esta mesma perspetiva que pleiteia as identidades nacionais como conformadas a partir de narrativas que os sujeitos elaboram recorrendo a lembranças e associações de sentidos realizadas ao longo de suas histórias de vida (Bhabha, 2012; Hall, 1996). Para as Ciências da Comunicação a tradição cultural implica assumir os média como instância desse espaço social, “firmemente ancorados na teia da cultura” (Bird, 2003) e o fluxo comunicacional como um processo difuso e não-linear.


Frente a este enquadramento, esta apresentação tem por objetivo partilhar os resultados iniciais de uma investigação de doutoramento que busca compreender o papel das práticas culturais no âmbito da receção mediática presentes em trajetórias de vida de pessoas de nacionalidade brasileira em Portugal com foco, nomeadamente, nos processos de construção de subjetividades e expressão de sentidos vinculados à identidade nacional. Partindo da premissa de que consolidou-se no Brasil, nas últimas décadas do século passado, um ambiente de cultura saturada pelos média (Bird, 2003; Ortiz, 1988), a investigação propõe dois procedimentos metodológicos complementares: a pesquisa histórico-documental para caracterização sociocultural do período em causa e seus repertórios mediáticos dominantes; e as fontes orais, com recurso ao método biográfico que, por meio de entrevistas semiestruturadas com brasileiros imigrantes em Portugal  e que cresceram no Brasil do referido período, identificará as práticas de receção, passadas e presentes, relacionadas às expressões de identidade nacional.


A apresentação começa argumentando pela pertinência da noção de práticas de receção para os Estudos dos Média, o que possibilita uma abordagem para além do texto e do momento da receção, com o foco na memória e nas conexões entre múltiplas práticas e discursos (Bird, 2003; Carvalheiro, 2014; Couldry, 2004). Esta reflexão é acompanhada da discussão sobre as implicações teórico-metodológicas relacionadas, nomeadamente, a história oral e o método biográfico, e a exata medida para uma estratégia que não limite os relatos a memórias sobre textos e/ou gêneros mediáticos, ou mesmo um meio em específico, mas também não esteja sujeita à inconsistência e eventual superficialidade de menções laterais possibilitadas por um guião demasiado aberto (Carvalheiro, 2014).


Estas discussões serão articuladas aos elementos empíricos da etapa exploratória da mencionada investigação, utilizada para definir e testar os procedimentos específicos relativo às estratégias e instrumentos de recolha de dados, tais como a identificação de um conjunto inicial de fontes primárias e formas de acesso, no caso da pesquisa histórico-documental, e as estratégias de amostragem, a elaboração de formulários de controle e guião de entrevistas, e mecanismos de registo e processamento de informação, bem como sua aplicação em um grupo piloto, no caso das fontes orais.

Palavras-chave: Comunicação e memória; Cultura mediática; Estudos de Receção; Identidade Nacional; Migrações

As marcas do luso-tropicalismo nas intervenções do Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2021)  Vítor de Sousa (UM)

O luso-tropicalismo é um modelo social da autoria do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, que diferencia a colonização portuguesa da dos demais impérios europeus por ser, alegadamente, mais “benigna”. Foi sustentado em pressupostos históricos, na tradição e no alegado “carácter dos portugueses”, através de lugares-comuns, servindo de suporte científico, através da “mística luso-cristã de integração” (Freyre, 1953; 1961), para o desenvolvimento da política do Estado Novo, assumindo-se como pilar da alegada “particular maneira portuguesa de estar no mundo” (Castelo, 2011). O que desembocou na ideia de que a colonização dos portugueses foi uma “colonização doce” – sublinhando o seu recorte “excecional” e “ecuménico” -, por ser diferenciada das demais colonizações europeias, marcadamente “sanguinárias”, o que não deixa de configurar um contrassenso.

A adoção do luso-tropicalismo por parte do Estado Novo serviu para justificar a sua retórica em relação aos então territórios ultramarinos. Primeiro, enquanto colónias e, já nos anos 50 do século XX, designados de províncias. Uma dinâmica tendente a sublinhar o slogan então em vigor, “Portugal não é um país pequeno”, para além de marcar posição junto da Organização das Nações Unidas, no sentido de que os movimentos independentistas que emergiam nas então “províncias ultramarinas” vissem inviabilizada a sua pretensão de autodeterminação, uma vez que pertenciam a Portugal, por via do seu “destino histórico”. Foi, de resto, neste período que foi cunhado o conceito de ‘portugalidade’, com a assunção de Portugal como um país uno e indivisível, o que ficou plasmado na ideia então propagandeada que ficou conhecida como “Portugal do Minho a Timor” (Sousa, 2017).

O luso-tropicalismo serve, hoje, para dar corpo ao mito da tolerância racial dos portugueses e até a um alegado nacionalismo integrador e universalista, que conceptualmente não deixa de ser problemático, já que esse tipo de epítetos estão associados normalmente a práticas xenófobas.
Isso mesmo pode ser observado no discurso político, como no caso do atual presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, durante o seu primeiro mandato (2016-2021). Mesmo que se perceba que elas estão distantes de um olhar xenófobo, a utilização de conceitos ligados a essas práticas não deixam de levantar vários problemas, tornando as dinâmicas
pretendidas equívocas. As intervenções do Presidente da República são mapeadas nesta comunicação através de uma metodologia compósita, assentando numa amostragem não probabilística (por conveniência), tendo sido também utilizada alguma análise de conteúdo. Corrobora-se a ideia defendida por Cláudia Castelo (2011), de que estudar a receção do luso-
tropicalismo em Portugal permite perceber como é que as ideias de Gilberto Freyre ainda ecoam no atual discurso político, com o risco atual a residir no facto de o conceito continuar a ser usado de forma acrítica e imobilista.


Palavras-chave: Luso-tropicalismo; Intervenções do presidente da República (2016-2021); O mito da tolerância racial dos portugueses; O nacionalismo português integrador e universalista; Memória

Referências
Castelo, C. (2011). O Modo português de estar no mundo. Porto: Edições Afrontamento.
Freyre, G. (1953). Um brasileiro em terras portuguesas. Lisboa: Livros do Brasil.
Freyre, G. (1961). O Luso e o Trópico. Lisboa: Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique.

Sousa, V. (2017). Da ‘portugalidade’ à lusofonia. Braga/Famalicão-CECS/Húmus

“Dawn of the planet of the apes”: racismo sistémico no contexto da pandemia da Covid 19 e a mimética entre a ficção e a realidade    João Maia (CEIS20)    

Esta comunicação tem como objetivo realçar o mimetismo entre a ficção e a realidade no contexto dos protestos antirracistas que tiveram lugar em diferentes partes do mundo, durante o ano de 2020, na sequência do desencadeamento da pandemia da covid-19. Num nível mais profundo, tendo em conta outros exemplos históricos, esta comunicação também visa colocar em causa as noções de modernidade e do Real.

Trata-se de um trabalho de investigação e de reflexão que reflete a revisão de material bibliográfico e cinematográfico e a sua abordagem comparativa e crítica, com eventos da realidade, realizada pelo autor ao longo das últimas duas décadas.

Com efeito, a mimética entre trabalhos de ficção e a realidade tem sido realçada por vários autores, nomeadamente nas últimas décadas. Salman Rushdie no seu livro “Fúria” retrata este fenómeno, mas também podemos discutir a inclusão nesta categoria das ideias de Slavoj Zizek em “Bem-vindo ao Deserto do Real” ou de filmes como “O Cavaleiro das Trevas”, em relação a ataques terroristas que aconteceram alguns anos mais tarde, ou “Vingadores: A Idade de Ultron”, em relação ao fenómeno de Fata Morgana, ou ainda de “A Origem”, na comparação com as relações do mundo globalizado com os conflitos contemporâneos das sociedades do Médio Oriente, entre outros exemplos. Tais casos, uma vez constituídos como objeto de estudo, levantam questões sobre a natureza da realidade em termos da ocorrência de mecanismos de sincronicidade e de plasticidade que vão para além da causalidade e do dualismo cartesiano.

Mais recentemente, o argumento do filme “Dawn of the Planet of the Apes”, em português “Planeta dos Macacos: A Revolta”, tem similaridades com os protestos globais antirracistas no contexto da atual crise pandémica. De um ponto de vista sociológico, como Bruno Latour defende em “Jamais fomos modernos”, coloca-se a discussão sobre a ideia de modernidade e a sua incongruência com a realidade social. No entanto, em termos filosóficos, podemos assinalar nestes fenómenos a libertação de forças ocultas, “monstros”, ou de poderes libidinais que revelam as profundezas da natureza humana. Como Nietzsche disse: “Aquele que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro. E se você olhar durante muito tempo para um abismo, o abismo também olhará para você.”

Palavras-chave: Pandemia; protestos; racismo; realidade; modernidade.

Emigrantes e imigrantes: Imagens, clivagens e miragens nos manuais escolares de História portugueses Rosa Cabecinhas (UM/CECS)

Nas últimas décadas houve uma proliferação de debates científicos e políticos em torno da “história oficial” e “memória pública”, nomeadamente no que diz respeito às “políticas da memória”, às “políticas de identidade” e aos “direitos de memória”. Recentemente, as contestações às narrativas hegemónicas da história têm irrompido com cada vez mais força na esfera pública, provocando verdadeiras disrupções culturais ao integrar “outras histórias”. Até que ponto essas outras histórias estão presentes nos atuais manuais escolares? Como são retratadas as pessoas com trajetórias de migração? Quais as clivagens entre a representação dos “imigrantes” e dos “emigrantes”?


Nesta comunicação serão apresentados os resultados preliminares de uma análise das representações sociais da migração nos manuais escolares de história atualmente em uso em Portugal. Esta pesquisa enquadra-se em um projeto de investigação mais amplo que tem como principal objetivo promover o interconhecimento e a compreensão dos processos de construção e reconstrução das memórias construídas coletivamente através de narrativas veiculadas por produtos culturais, educacionais e artísticos.


Os manuais escolares de História constituem fontes de informação privilegiadas para a construção de identidades sociais e visões do mundo, influenciando decisivamente as relações interculturais nas sociedades contemporâneas. Hoje, as escolas, são um espaço em que se confrontam “memórias hegemónicas”, informadas pelas narrativas dominantes da nação que continuam a ser veiculadas pelos manuais escolares, e “memórias itinerantes” que decorrem das experiências e trajetórias das pessoas envolvidas no processo educativo (estudantes, professores, encarregados de educação, etc.).


Nesta comunicação iremos analisar as imagens relativas a “migrantes”, “emigrantes” e “imigrantes” a partir de um corpus constituído doze manuais escolares, do 7º ao 12º ano de escolaridade, da Porto Editora por serem os mais usados nas escolas portuguesas. A partir de um quadro de análise interseccional e decolonial (Cabecinhas & Mapera, 2020; May, 2015; Mignolo & Walsh, 2018), prestando particular atenção ao modo às clivagens, implícitas e explícitas, veiculadas pelos atuais manuais escolares.


Nas conclusões iremos abordar as limitações decorrentes da forma como têm sido operacionalizadas as tentativas de incluir o “Outro” e construir memórias “globais” ou “cosmopolitas” nos manuais escolares, salientando o quanto ainda há a fazer para que a escola seja um espaço de co-construção de memórias transculturais.

Palavras-chave: Memória cultural; manuais escolares; migrações; representações sociais; estereótipos sociais

Invisibilidades e racismo: as representações da população cigana nos manuais escolares de História em Portugal  Isabel Macedo, Alice Balbé & Rosa Cabecinhas (UM/CECS)

Na maioria dos países, a narrativa oficial sobre a história da própria nação é parte integrante do ensino historiográfico (Carratero, 2011). Como consequência da ênfase em narrativas nacionais, os estudantes têm acesso limitado ao que é polémico sobre a história do seu país, dificultando assim o desenvolvimento de uma perspetiva crítica. Se considerarmos as narrativas históricas nacionais como instrumentos culturais, que configuram o modo como o passado é representado e compreendido –, mas que são também indicadores do conhecimento político dominante e têm acesso privilegiado a uma grande audiência – importa perceber que conteúdos são veiculados no contexto escolar atualmente.


Há vários trabalhos de investigação realizados sobre as representações do passado, em particular do colonialismo, nos manuais escolares de História (Cabecinhas et al., 2018; Cabecinhas & Mapera, 2020; Valentim & Miguel, 2018). Por exemplo, Araújo e Maeso (2012), numa investigação sobre Eurocentrismo nos manuais de História portugueses, constatam que a narrativa dos manuais analisados constitui um discurso evasivo do poder sobre a História, que naturaliza processos centrais como o colonialismo, a escravatura e o racismo. Estão, contudo, por realizar estudos sobre a população que tem sido mais discriminada ao longo dos séculos na sociedade portuguesa (Faísca & Jesuíno, 2006) e tem sido vítima de uma “lógica diferencial de racismo” (Casa-Nova, 2021), a população cigana.


Nesta comunicação propomos analisar os manuais escolares de História atualmente em uso em Portugal, do 5º ao 12º ano (da Porto Editora), procurando, em particular, identificar quais as representações veiculadas relativamente à população cigana. A referência à população cigana surge apenas no manual do 9º ano e na primeira parte do manual do 12º ano, na maioria das vezes associada ao nazismo e à perseguição e extermínio de judeus e desta população naquele período. Mas surge também na reprodução do texto de José Almada Negreiros de 1915, onde se escreve “O Dantas é um cigano!/O Dantas é meio cigano!”, um texto que constituiu um manifesto anti-Dantas, em resposta a uma crítica de Júlio Dantas aos autores do primeiro número da revista Orpheu, que veio agitar o panorama cultural português do início do século passado. A imagem da medição dos elementos faciais de “um cigano”, aludindo à pseudociência aclamada pelo nazismo, surge também no manual do 12º ano. Através da análise do discurso e das imagens destes manuais, propomos discutir a invisibilidade da população cigana nos atuais manuais escolares de História em Portugal e a persistência de uma narrativa que reconhece o racismo contra as pessoas ciganas apenas no quadro do nazismo, silenciando a violência e o racismo a que esta população foi e é sujeita atualmente.

Palavras-chave: manuais escolares; racismo; História; população cigana


As mulheres negras em Portugal: do silenciamento aos novos lugares de fala Sónia de Sá, Brenda Luppi & Micaela Cabral (UBI/LABCOM)

Os movimentos feministas e a luta pelos direitos das mulheres têm alcançado em Portugal novos espaços e representações diversas, quer no domínio público, essencialmente, na política e em cargos de liderança, quer no chamado equilíbrio entre a vida privada e pública, numa aproximação de deveres e fazeres entre homens e mulheres. Mesmo que o caminho seja, ainda longo, e as distâncias entre homens e mulheres sejam ainda relevantes, a figura da mulher branca, educada, empoderada e consciente dos seus direitos começa a emergir em Portugal. Contudo, quando na equação colocamos a mulher negra, a imagem de empoderamento esbate-se. Partindo dos trabalhos de Cambraia (2018), Hooks (2018), Johnson et al. (2019) e Ferreira & Souza (2017), analisamos a procura de lugar de voz da mulher negra em Portugal por via do ciberativismo. O estudo, que resulta de uma análise de conteúdo a uma dezena de plataformas de ‘blackactivism’ fomentado por mulheres negras, revela que há um processo de cultura da participação e agregação das mulheres africanas ou afrodescendentes em Portugal como forma de luta crescente pelo direito à voz pública, ao reconhecimento de lugares de fala e à proteção da sua imagem..

Palavras-chave: Feminismo, mulheres negras em Portugal, lugar de fala, empoderamento, estratégias de comunicação

Relatos de experiências migratórias de brasileiros e os sentidos construídos sobre a migração no Facebook Milena Ribeiro (NOVA FCSH/ICNOVA)

Esta proposta de comunicação busca refletir sobre as possibilidades de participação dos migrantes no espaço virtual do Facebook em contexto transnacional e os aspectos que atravessam as construções de sentidos sobre a migração em Portugal nesses ambientes. A partir da observação etnográfica virtual (Hine, 2016), pretende-se compreender de que modos as postagens de relatos de experiências migratórias nos grupos de Facebook Brasileiros em Portugal (BeP) e Portugal que Ninguém conta (PNC) e os comentários que suscitam marcam discussões sobre a migração e revelam percepções sobre seus processos migratórios. Com base nos relatos biográficos, em interações espontâneas nos grupos, é analisado como se dá a construção do sentimento de existência e individualidade do migrante, na ligação com o real e pertencimento ao local, e na organização da relação com o outro.


A análise das interpretações dos membros dos dois grupos do Facebook revelou que os sentidos sobre a migração de brasileiros em Portugal são construídos coletivamente a partir dos contatos transnacionais estabelecidos pelos emigrados com a terra de origem. O discurso é negociado entre as expectativas dos migrantes e do grupo, entre a realidade e a imagem que é construída a partir dos símbolos culturais do país de emigração. A exemplo dos relatos que reforçam um cenário de “boa vida” na migração, com uso de fotografias de momentos que fazem turismo, como símbolo de sucesso da sociedade de performers individuais (Han, 2014  como citado em Bauman, 2017, p. 34), em que o migrante se contenta com a satisfação do desejo de viajar pela Europa.


Ao assumirem o lugar de produtores da narrativa de suas vivências, a apropriação de discurso de superação e otimismo revelam o sentido da migração como: 1) ato de coragem e persistência, em que as dificuldades são vencidas, sem espaço para o reconhecimento das discriminações e outras problemáticas do processo migratório, evitando serem assim consideradas mensagens “pessimistas” que não teriam aprovação do grupo; 2) sentimentos de superação e gratidão, em que os riscos da escolha de migrar são de responsabilidade do migrante e os momentos de dor devem ser superados pela vontade de conquistar algo na Europa, simbolizado pelo alcance da permissão de residência, o principal objetivo dos migrantes que deixam para trás a expectativa de qualidade de vida e bom emprego.


A posição contraditória dos migrantes – que reconhecem os problemas sem questionar e optam por ressaltar ideias otimistas de superação – e a tendência de estimular a migração no grupo apresenta nos espaços digitais uma experiência alienada e mistificada da migração (Sayad, 1998). Isso nos leva a compreender que o legado pós-colonial continua corporificado nos espaços ordenados pela aparência e uma estrutura de poder simbólico impõe a maneira específica dos migrantes falarem (Georgiou, 2017), especialmente nos relatos dos migrantes que têm incorporados discursos sobre a migração que reafirmam a hierarquia de poder, desafiando uma participação disruptivas de resistência nos grupos de Facebook.

Palavras-chave: migração brasileira; Facebook; etnografia virtual

Como as crianças portuguesas perceberam o fenómeno epidemiológico COVID-19 Bianca Persici Toniolo (UBI/LABCOM), João Pedro Baptista (UBI/LABCOM), Cecília Ramos (UBI/LABCOM), Valeriano Piñeiro-Naval (Univ. Salamanca) & Anabela Gradim (UBI/LABCOM)

A pandemia do Coronavírus (COVID-19) tem não só colocado uma série de desafios para os sistemas de saúde em todo o mundo, como os seus efeitos têm sido devastadores ao nível económico, social e político. A par do perigo epidemiológico da COVID-19, a expansão da desinformação sobre a pandemia tem sido uma das principais preocupações da Organização Mundial de Saúde, inclusive entre as crianças. Assim, importa questionar: qual é o conhecimento e a perceção das crianças portuguesas sobre a COVID-19? O nosso estudo tem como objetivo principal responder a esta questão, avaliando a forma como perceberam o fenómeno epidemiológico. Para cumprir com este objetivo, aplicámos um único questionário para uma amostra de 960 crianças entre três e 11 anos, coletada entre os dias 20 de março e 21 de abril de 2020. O inquérito online com perguntas abertas foi divulgado por e-mail, através dos Agrupamentos Escolares, de todas as regiões de Portugal, e do
Facebook. Posteriormente, procedemos a uma análise qualitativa dos resultados para o que contamos com o software IRAMUTEQ. O estudo concluiu que as crianças portuguesas foram, em geral, capazes de identificar e definir a doença, avaliar seu risco de contágio e a gravidade que ela representa para a humanidade; que a maioria teme as consequências da COVID-19; e que não há relação entre medo e idade nos
resultados apurados.

Palavras-chave: COVID-19, Crianças, Portugal, Conhecimento, Perceção, Médias sociais digitais

Parentalidade no mundo online: A disrupção como catalisador para a criação de um novo futuro. Andrea Winkler-Vilhena (NOVA FCSH/ICNOVA)

Em 2020, a pandemia Covid-19 interrompeu a nossa vida. A esperança inicial de que seria uma pausa breve cedeu à aceitação de que duraria o suficiente para ter efeitos permanentes na nossa cultura, sociedade e comportamento. Nos primeiros meses surgiu um sentimento de otimismo: a sociedade usaria a disrupção como catalisador para a criação de um futuro melhor, desacelerado, mais verde e mais solidário. Mas à medida que o tempo passava, as saudades da vida-como-a-conhecíamos pareceu suplantar a ambição de criar um futuro diferente.


As ciências sociais poderiam aproveitar este momento para ser catalisadoras de novas versões do futuro. Isto permitiria dar às crianças e aos jovens novas e mais otimistas possibilidades de desenvolvimento e participação. Mas como podemos nós, como sociedade em geral e pais e educadores em particular, orientar os jovens no sentido de criar e alcançar essas versões do futuro? No mundo de hoje, a construção de significado das crianças é cada vez mais influenciada pelos media digitais (Bachmair, 2010), que são não apenas ferramentas convenientes, mas entidades que criam significado e influenciam a forma como pensamos e nos comportamos (Couldry & Hepp, 2017). As tecnologias digitais são um processo social e, ao usá-las, “estamos a criar um projeto juntos – um projeto para o nosso futuro coletivo” (Rushkoff & Purvis, 2011, p. 14). Interagir com os media e fazer escolhas sobre como usá-los está, por isso, ligado a escolhas éticas. A educação para os media inclui “uma dimensão ética, onde humanismo, direitos humanos e educação global também são incorporados”, uma vez que “o objetivo final […] deve ser criar melhores cidadãos e uma sociedade mais harmonizada” (Campos, 2018, p. 39).


Cabe assim, parcialmente, aos pais este tipo de educação para os quais, grandemente, não foram preparados. Adicionalmente, sentem que são eles os responsáveis pela gestão do uso dos media pelos filhos (Livingstone & Blum-Ross, 2020). A pandemia da Covid-19 obrigou as pessoas a desviar as atividades profissionais e educativas para a esfera digital. Isto destaca o que já era visível: a necessidade de saber mais sobre como as crianças crescem rodeadas por écrans e como as famílias medeiam e supervisionam este processo (Pereira et al., 2020; Ponte et al., 2019). Por isso, os pais precisam de receber ferramentas que ajudem a ensinar seus filhos a “serem críticos das representações e discursos dos media” e, ao mesmo tempo, enfatizar “a importância de aprender a usar os media como modos de auto-expressão e ativismo social” (Kellner & Share, 2005, p. 372). As práticas de “digital parenting” são um conceito polissémico que se refere tanto à mediação parental (como os pais regulam as relações de seus filhos com os media digitais), como a “como os próprios pais incorporam os média digitais em suas atividades diárias e práticas parentais e, ao fazê-lo, desenvolvem formas emergentes de parentalidade” (Mascheroni et al., 2018, p. 9).


Esta comunicação tem como base o projeto de Doutoramento em curso, utilizando as artes como ferramenta pedagógica e experiencial. As artes podem criar maneiras imersivas de visualização de informação, fornecer âncoras visuais e emotivas, fornecer experiências de aprendizagem (Dewey, 2005) para compreender e interiorizar melhor conceitos como socialização, a criação da realidade e os processos cognitivos das crianças. Ao desenvolver estratégias de mediação para pais, implementando-as na sociedade, este projeto quer contribuir para um futuro que não apenas retome a vida como a conhecíamos, mas que a avance em direção a um “common good”, um bem comum (Gordon & Mihailidis , 2016, p. 2).

Palavras-chave: digital parenting; educação para os media; educação; parentalidade; mediação

Pictografia alimentar: da escrita imperceptível da anorexia nervosa Carolina Baptista (NOVA FCSH/ICNOVA)

Centrada na dimensão imperceptível da comunicabilidade, a presente comunicação propõe uma análise semiótica da escrita alimentar na anorexia nervosa. No seu enquadramento teórico, clínico e terapêutico, subsiste uma apresentação da perturbação alimentar enquanto desvirtuamento na relação entre um sujeito e vários objectos (corpo-como-objecto, objecto-comida, etc.). Longe desta apresentação, atesta-se a possibilidade de a anorexia se manifestar numa materialidade condicente com processos de subjectivação e não com modelos de identidade, que, por ora, enclausuram o sujeito-anoréctico em esquemas de comportamentos rígidos. A subjectividade, em contrapartida, não se estabelece na tensão entre «dentro» e «fora», mas numa contaminação intermitente, forjada na violência do que se anuncia de imperceptível na experiência dos corpos. O que se pretende demonstrar é a forma como a escrita alimentar revela as singularidades captadas, de onde se extrai que a compulsão para a auto-restrição alimentar se escreve no modo como os sujeitos compõem, escolhem e ingerem os pratos.

Na pictografia, dá-se o estabelecimento de uma ligação em que a significação começa quando o pictograma se torna esquemático ou estilizado, estando aí representado o acontecimento. No nosso caso, da multiplicidade de registos pictóricos, o locus de interesse é o prato, sendo aqui que os traços fundamentais de uma pictografia alimentar anoréctica são identificados: geometrização, obsessão pelo corte, tipologia facilmente identificável e numerologia alimentar. O que se defende é uma abordagem tecno-semiótica (Erdmann) à leitura de um conjunto imagens de pratos, recolhidas na rede social Instagram, em contas que se destinam a reportar o percurso individual de três jovens mulheres em recuperação de anorexia nervosa. Num primeiro momento, caracterizar-se-á o ideário da recuperação (Eating Disorder Recovery Community), cuja ambiguidade na definição dum estar-recuperado tende a encapsular os indivíduos numa vivência labiríntica do que é a recuperação: a sua e a de outros em situações similares. Depois, tratar-se-á de compreender o modo com a rede vem estabelecer uma lógica de virulência e contaminação, propícia à disseminação dos discursos identitários. Como toda a modelização, a rede (digital e virtual), pela lógica viral embutida, funda-se na semi-autonomia, demonstrando as potencialidades contidas na ideia de uma máquina viral universal (Parikka). A rede virtual é o espaço onde a narrativa é possível (narrativa da identidade anoréctica e do estar-em-recuperação) e, ao mesmo tempo, o para-sítio (para-site) que encontra na pictografia uma escrita dos mecanismos da anorexia. Nesta escrita não há proximidade absoluta entre o nome e o sentido: não há nomeação ou desígnio inscrito na palavra, já que não é a palavra que se escreve na configuração do prato. O(s) sentido(s) corresponde(m) à teia que une a descrição dos elementos concretos e a capacidade que estes adquirem na comunicabilidade do elemento imperceptível, ou seja, a exposição da prevalência das estruturas anorécticas em sujeitos-em-recuperação e/ou recuperados.

Palavras-chave: pictografia alimentar; rede; anorexia nervosa; imperceptível; subjectividade.