NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DS VIII – PD II

Disrupção e Sociedade VII: Participação Disruptiva II

Juventude, criatividade e a nova ecologia híbrida ativista José Alberto Simões & Ricardo Campos (NOVA FCSH/CICS.NOVA)

A presente comunicação fundamenta-se no projeto em curso ArtCitizenship – a juventude e as artes da cidadania (2018-22), financiado pela FCT (PTDC/SOC-SOC/28655/2017), que tem por objetivo estudar o modo como os jovens – de forma individual ou coletiva –, implicados em diversas causas sociais, culturais e políticas, utilizam determinados recursos e gramáticas criativas para expressar os seus interesses e reivindicações na esfera pública. Nesta apresentação iremos focar-nos no uso multifacetado de recursos digitais – plataformas e equipamentos digitais – no ativismo, destacando a forma como estes têm contribuído para potenciar modos criativos de expressão e comunicação, assentes fortemente numa componente visual, com uma função imprescindível nas estratégias de divulgação, mobilização e formação de redes. O digital entra assim no ativismo de diferentes formas, articulando-se com outros modos de expressão e contextos, que constituem uma “ecologia híbrida ativista”, que conjuga novas formas de expressão (nomeadamente, o uso da internet e de outros recursos digitais) com formatos habituais de protesto (manifestações, sit-ins, etc.), gerando linguagens e estéticas específicas que se adaptam a diferentes “palcos” ou territórios de intervenção. Pretendemos explorar o uso do digital no ativismo a dois níveis: a) enquanto recurso/gramática que permite assegurar diferentes funções práticas (comunicação, informação, reflexão, debate, organização, etc.); b) enquanto território/palco de intervenção e expressão (manifestação, protesto, etc.). Em ambos os casos, teremos em conta o uso estratégico do digital em diferentes áreas ativistas, considerando tanto práticas criativas/ativistas individuais (de jovens ativistas) como coletivas (de grupos e coletivos ativistas), que permanecem de certa forma interligadas. Qual o impacto destes diferentes territórios e gramáticas ativistas na cidadania criativa dos jovens? Qual o papel do digital – enquanto parte da “ecologia híbrida ativista” –, nos reportórios de ação desenvolvidos pelos jovens em diferentes áreas de expressão ativista, associadas a causas distintas? No caso dos jovens, como tem sido destacado na literatura, as suas práticas de participação não só saem fora da esfera política institucional ou formal, como também dos temas de protesto comuns, encaminhando-se para causas em áreas minoritárias, habitualmente invisíveis ou secundarizadas, à margem de temas geralmente abordados por grupos ou movimentos sociais organizados. Deste modo, a sua participação tende a ser canalizada para formas de expressão inovadoras, com recurso a novas linguagens, através das quais criam formatos alternativos de participação cívica e política. Do ponto de vista metodológico, este é um projeto que assenta numa estratégia qualitativa, de índole etnográfica, envolvendo recolha multi-situada, com recurso à observação participante, à realização de entrevistas aprofundadas e à utilização de metodologias visuais. Nesta comunicação, teremos em conta não só o quadro teórico-conceptual desenvolvido no projeto, mas também a recolha empírica já realizada, nomeadamente cerca de 60 entrevistas aprofundadas a jovens ativistas entre os 16 e os 35 anos e a apreciação de documentos variados (de sites a materiais visuais diversos).

Palavras-chave: Ativismo digital; participação; criatividade; juventude; Ecologia híbrida ativista

Rupturas de sentido efetuadas nos corpos: imagens digitais de protestos das ruas e regimes semióticos Danielle Miranda (NOVA FCSH/ICNOVA)

Nesta comunicação, propomos reflexões a partir da investigação em desenvolvimento que possui como objeto de estudo os modos de significação dos corpos que compõem a semiosfera das imagens digitais de protestos anti-opressão. Interessam o corpo e as corporalidades com força acontecimental, em seu estatuto performativo, como textos da cultura capazes de reorganizar linguagens dominantes, tensionar normas e deslocar e produzir rupturas e disrupções em relação aos sentidos hegemônicos associados aos espaços ocupados pelos sujeitos. Esboçamos um gesto em direção à compreensão dos regimes de semioses de nosso tempo, que desafiam as práticas e pesquisas comunicacionais. Ao explorar a performatividade dos corpos que se reúnem na política das ruas como significante unívoco desses movimentos, e o agenciamento corpo-redes-ruas que converte-se em espaços de resistência e insurgência, pretendemos refletir sobre a dimensão corporal que garante a multiplicidade comunicacional das semiosferas de ativismos e resistências contemporâneas. Semioticamente, o corpo e suas imagens tanto reproduzem como podem reinventar as normas dominantes e regulações sobre seus corpos e os espaços que ocupam, sendo as redes digitais de comunicação, neste trabalho, também entendidos como seus espaços de aparição política e subjetiva. Desse modo, o exercício plural e performativo que instaura o corpo no campo político é abordado nesse trabalho, principalmente a partir de Judith Butler e suas investigações recentes sobre a “performatividade pública” em que os corpos reunidos em manifestações públicas, para autora, ao reivindicarem o direito de aparecer publicamente, tanto reafirmam, como transformam o espaço público, produzindo-o.


Assim, o objetivo é questionar, sob uma perspectiva cartográfica deleuze-guattariana como se atualizam hoje os regimes de significação do corpo e como as organizações específicas de sentido dos corpos em imagens digitais de protestos globais marcam a configuração de tensionamentos semióticos e singularidades comunicacionais. Que sistemas semióticos se articulam com elementos do domínio das corporalidades nessa configuração?

Nessa abordagem, a partir de um conjunto de imagens de manifestações tais como a Primavera Latina desde 2019, Coletes Amarelos em França (2018), as Greves estudantis contra o Aquecimento Global (2018-2020), as manifestações Black Lives Matter de 2020, já sob contexto da pandemia covid-19, percebemos o corpo na sua capacidade de emissão e captação de signos, na aptidão semiótica/semiósica que caracteriza seu estatuto flutuante. Corpos-inscrição, corpos-disrupção, corpos que aparecem, operam, instituem e desestabilizam. Adotamos a perspectiva da semiótica da cultura, (Fabbri, 2010; Lotman, 1979, 1996a, 1996b, 1999; Lotman & Uspenski, 2007; Lozano, 2004; Machado, 2007) que centra seu estudo não no signo, mas em concepções específicas como as de semiosfera, texto, fronteiras semióticas, intersecção de sentidos e outras. Pretende-se, com isso, também partilhar nessa comunicação reflexões acerca do processo de investigar os modos de semiotização de ações que se produzem ao nível do desejo, da transubjetivação, em um processo cartográfico em ambiente digital. Em foco, estão as semioses que apontam rupturas de sentidos, continuidades, mas também descontinuidades, imprevisibilidades semióticas, potências performativas e/ou, inclusive, processos de desterritorialização ou esvaziamento sofridos pelos signos das ocupações e da política das ruas que se associam ao corpo.

Palavras-chave: Corpo; Política das ruas; Ruptura de sentidos; Regimes semióticos.

Práticas disruptivas.com – produzir cultura dentro de portas Andreia Galhardo & Ana Frazão-Nogueira (UFP)

Saído de um segundo confinamento, Portugal olha-se, enquanto mercado, para perceber o quão desolador se encontra, em diferentes sectores, mas também o quão vivo e renovado está, por força de disrupções criativas que se fizeram sentir em distintos sectores da atividade económica e social.


Neste texto focar-nos-emos especificamente sobre o setor do Entretenimento no nosso país, durante os dois períodos de confinamento, intervalados por poucos meses.
Seguindo de próximo a definição do dicionário online da Porto Editora, entendemos por Entretenimento o sector de atividades e espetáculos que têm que ver com o Teatro, com a Música, com as Exposições, com o Cinema, com a Televisão e com o global das artes de palco e plásticas, que podem, ou não, estar presentes na área do digital, do 3D, do virtual, que é como quem diz, a quarta revolução industrial.


Mas Entretenimento define-se, ainda, como aquilo que serve para ajudar a passar o tempo ou para distrair; é, segundo a mesma fonte “divertimento”, conceito que alimenta o homo ludens de Huizinga (1993), tanto através desses meios tradicionais, como digitais.
O entretenimento vem, por isso, trazer respostas a um consumidor ávido por estímulos, cujo lazer, que se define, conforme Baudrillard (1995), pela ausência do tempo de trabalho e o qual se mistura, numa situação de confinamento, com mesmo, o mundo do espetáculo soube bater à porta do público e, desta forma, profissões puderam sobreviver e os tempos em casa passavam-se com incentivos diversificados.


Apoiadas neste cenário, julgamos que a nossa abordagem trará as conclusões de que partimos: que se irá observar que, neste domínio, a disrupção poderia ter sido maior, com a oportunidade bem melhor aproveitada, sabendo-se que não seria a falta de meios técnicos ao dispor da indústria do entretenimento a causa para não se ter ido mais longe.
Na divulgação destas propostas esteve sempre presente a Publicidade, um sector que, se sofreu uma séria crise, soube, como dele se esperava, jogar os dados neste tabuleiro concorrencial e limitado. Reinventando modelos, adaptando diálogos e, num tom de conversa formativo e divertido, a Publicidade, que parou muitas vezes para prestar serviço à Cultura, ajudou-a, de novo, a cumprir o objetivo de divulgar a sua nova existência.
Enveredámos por uma pesquisa bibliográfica que nos permitiu compreender o que se passou, no nosso país, nessas áreas e refletir sobre o que poderia ter sido feito, chegando, por fim, ao que se podem designar por tendências, momento em que se pretende ser possível apresentar algumas ideias que acreditamos poderem ser úteis para os atores deste mercado pós-pandémico da Cultura e do Lazer.

Palavras-chave: Disrupção cultural; Modelos de Comunicação; Publicidade; Cultura digital; COVID-19



“Sou um homem, pessoal”: (auto)apresentações de masculinidades no YouTube português Bibiana Garcês (UC/CES), Ana Jorge (ULHT/CICANT) & Ana Margarida Coelho (UCP/CECC/CICANT)

As representações dos homens partilhadas pelos media têm sido construídas por via de representações e imaginários social e semioticamente construídos, derivados de entendimentos hegemónicos sobre como um “homem de verdade” deve ser e agir (Santos e Carvalho, 2018). Na medida em que os media refletem e co-constroem a realidade, as noções de masculinidade neles representadas têm-se apresentado de forma cada vez mais complexa.


Nos social media, utilizadores/as comuns alcançam posições de visibilidade que podem permitir a monetização dos seus conteúdos e até a sua profissionalização (Hearn & Schoenhoff, 2016). Comummente conhecidos como influenciadores/as, produtores/as de conteúdo envolvem-se em técnicas comunicacionais de auto-apresentação (Senft, 2013) que visam criar uma intimidade em rede. Nesta auto-apresentação estão envolvidos aspectos de identidade de género, com possibilidades para a afirmação de identidades não-normativas e contestação de representações e normas de género (Jorge, 2020). Mais comum, no entanto, é a ativação de uma ideologia pós-feminista, que envolve autonomia individual com o consumo e auto-cuidado (Genz, 2015), a par de um backlash de reações misóginas nos social media (Banet-Weiser, 2018).


Esta comunicação faz parte de um estudo mais alargado que busca identificar e analisar de forma crítica as representações de masculinidades que são (re)produzidas nas redes sociais e media noticiosos em Portugal a partir de uma perspectiva feminista e interseccional. Aqui, propomo-nos a olhar para conteúdos produzidos por influenciadores/as no YouTube. Considerando que, como argumentam Connell e Messerschmidt (2005), “o género é sempre relacional, e padrões de masculinidade são socialmente definidos em contradição a algum modelo (real ou imaginário) de feminilidade” (p. 848), o corpus de análise é composto por publicações dos produtores/as de conteúdo homens e mulheres mais populares naquela plataforma no ano de 2019.


Serão apresentados os resultados da análise dos 56 vídeos selecionados, publicados em cinco semanas do ano de 2019 por 20 dos principais canais do YouTube português, sendo 10 influenciadores homens e 10 mulheres. Pelo menos dois vídeos de cada produtor/a de conteúdo foram selecionados. Os vídeos foram transcritos e posteriormente submetidos à análise de conteúdo no software de análise qualitativa NVivo, abordando principalmente as noções de masculinidade e feminilidade apresentadas.


Os resultados apontam para a maior apresentação de noções de masculinidades hegemónicas, seguindo uma tendência presente e amplamente documentada nos media de massa (Craig, 1999; Katz & Earp, 1999; Katz, 2011; Sutherland, 2016; Ward & Aubrey, 2017). Entre as youtubers mulheres, relacionalmente, retratam-se noções de feminilidade mais ligadas aos entendimentos tradicionais de género, com conteúdos sobre beleza, autocuidado e a casa, por exemplo. Através destes conteúdos recorrentes, está presente uma lógica de afirmação da sua identidade de género. Destacamos ainda a presença de self-branding (Banet-Weiser, 2011), conceito ligado a uma subjetividade empreendedora, por parte dos/as influenciadores/as. No caso das mulheres influenciadoras, há indicativos de que o público alvo será fechado e voltado para mulheres, demonstrando uma restrição do que os homens podem/devem consumir.

Palavras-chave: masculinidades; gênero; redes sociais; influencers; YouTube.

Do palco virtual para o quotidiano: disrupção, produtilização, ampliação e activismo Clara Gomes (NOVA FCSH/ICNOVA)

Depois do primeiro confinamento da pandemia COVID 19 os arco-íris do «vamos ficar todos bem» transformaram-se na evidência «nada será como dantes».


O contacto físico tornou-se intimidade virtual, ficámos em tele-trabalho e o consumo apostou na transformação digital. No entanto, a cultura digital com as suas limitadas interfaces obriga-nos a fixar, durante horas, um ecrã; sentados, quase imóveis, escrevemos num teclado ou clicamos num rato – os olhos e o corpo adoecem, a plataformização ilude a criatividade, a fadiga Zoom instala-se.


Nunca as experiências da performance digital e da ciberformance foram tão pertinentes como agora, tanto a nível teórico – através de uma crítica de conceitos fracturantes como virtualidade, corporealidade, presença, interactividade, agenciamento ou imersão – como a nível empírico, através da criação de interfaces e ferramentas que permitem desenvolver a nossa condição digital de uma forma mais incorporada, amplificada e livre.
 Desde 2008 que tento contribuir para um enquadramento teórico da ciberformance, a performance que acontece em plataformas, ambientes e mundos virtuais e que se caracteriza por ser ao vivo, mediada, intermedial, multimodal, híbrida, liminar, colaborativa e interventiva estética e socialmente, sendo low cost e usando tecnologia livre e acessível.
Há três décadas que acções performáticas cruzam o mundo físico com a Internet, ligando utilizadores e públicos distribuídos geograficamente. Fóruns e ambientes textuais de jogo foram os primeiros espaços usados por ciberformers tendo estes, mais tarde, apropriado ambientes gráficos e mundos virtuais online.


Com base na minha própria prática artística nesses contextos e em produção académica sobre a performance digital criei um enquadramento que visa possibilitar uma melhor definição e compreensão deste género artístico.


Procurei, assim, abrir caminho para uma análise do contributo deste tipo de arte para o panorama mais vasto da relação entre a comunicação à distância, a Interacção Humano Computador (IHC) e a arte contemporânea.


Tendo em conta o período histórico que vivemos, com uma maior dependência da utilização do computador e dos ambientes virtuais e uma maior consciencialização das consequências desta relação, por vezes tóxica, proponho-me verificar a possível adaptação dos conceitos deste tipo prática artística ao nosso quotidiano.


Dos debates que são fundamentais para a compreensão dos aspectos disruptivos da ciberformance alguns se destacam: o posicionamento estético no liminar; o mito da interactividade e como alterar esse constrangimento através de um maior agenciamento na participação; a oposição entre perspectivas imersionistas e aumentacionistas e a problematização da vertente activista desta forma de arte.


Em 1999 Susan Broadhurst sentiu que não havia conceitos operativos para pensar a performance vanguardista fazendo surgir um grande contributo para a teoria crítica da performance: o seu conceito de acto liminar que é a acção que é híbrida, indeterminada, sem aura, experimental, inovadora e intersemiótica, favorecendo modos não linguísticos.
O liminar, onde a ciberformance se inscreve, é fundamental para entender esta performance que é disruptiva, interventiva socialmente, que derruba ou cruza barreiras estéticas e que, por conseguinte, acaba por ter efeitos políticos a posteriori.


Na tentativa de actualizar este enquadramento teórico para a ciberformance afigura-se-me importante abordar a ideia do mito da interactividade desenvolvida por Johannes Birringer (2011), que me levou a admitir que o agenciamento e a participação na ciberformance são hoje ainda limitados tal como o são na nossa vida digital quotidiana – disto resultando que a nossa relação com o computador/telemóvel pode aumentar-nos mas não imergir-nos, um debate também aqui muito pertinente.


Se a interactividade na ciberformance é limitada pelos próprios meios podemos dizer, no entanto, que a interacção dos utilizadores da Internet tem sido bastante livre e produtiva, tendo essa relação surgido no âmbito do produser, o produtilizador de Axel Bruns (2008). Esta figura disruptiva do produtor que é também o utilizador está presente na ciberformance, não só no seu processo de produção e intercriatividade (Berners-Lee, 1999) como na relação entre performance e audiência.


Por fim, veremos ainda aqui que a ciberformance, a performance art que acontece nos ambientes virtuais usando as possibilidades técnicas da Internet, é estética, social e politicamente disruptiva em dois sentidos: primeiro, porque provoca e desafia os meios tecnológicos que utiliza, questionando o copy right e as corporações que vivem da Internet através da utilização de ferramentas open source e freeware; segundo, porque utiliza esses meios para criar acções que põem em causa tabus sociais, debatendo questões ambientais, de género ou etnicidade e desenvolvendo-se através de performances que problematizam a actual relação humano/computador.

Palavras-chave: ciberformance; liminar; ampliação; agenciamento; produsage