NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DS VIII – PI

Disrupção e Sociedade VIII: Práticas & Influências

Desafiando imaginários: práticas mediadas de jovens adultos em aplicações móveis
Inês Amaral (FLUC/CECS), Rita Basílio de Simões (FLUC/ICNOVA), Sílvio Santos (FLUC/CEIS20) & Ana Marta Flores (FLUC/ICNOVA)


A convergência mediática convoca a hibridez dos canais (Chadwick, 2017), o que sustenta o argumento de que os públicos são inerentemente cross-media (Schrøder, 2011). Com efeito, as gerações mais jovens vivem numa realidade tendencialmente híbrida em que o consumo se tornou um processo coletivo (Jenkins, 2006), a tecnologia tem usos cada vez mais individualizados (Livingstone, Couldry & Markham, 2007) e performativos, e a relação com conteúdos e aplicações funciona numa lógica multitarefa (van Dijk, 2006). Neste sentido, as escolhas mediadas (Hepp, 2013) e as práticas de usos e apropriações da tecnologia por parte das gerações mais jovens são diferentes de outras gerações (Pacheco et al., 2017). No que concerne às questões de género, a pesquisa existente mostra que as diferenças não podem ser reduzidas à falta de igualdade de acesso às tecnologias. Embora existam desafios significativos a serem superados nesta dimensão, as diferenças entre as competências e usos da tecnologia, bem como a autoconfiança nas capacidades digitais são altamente genderizadas (West, Kraut & Chew, 2019). As competências técnicas de homens e mulheres, e o uso concreto que fazem delas, começam a ser diferentes na infância (Almeida, Delicado, Almeida & Carvalho, 2015). Na idade adulta, as mulheres usam plataformas digitais para atividades relacionadas com relações sociais e familiares e para responsabilidades domésticas. Os homens tendem a envolver-se mais em jogos e outras formas de entretenimento (Ahrens, 2013). A investigação tem mostrado que as interações e os processos narrativos coletivos que delas decorrem em plataformas baseadas em aplicações móveis aprimoram as relações sociais de poder, perpetuando masculinidades e feminilidades hegemónicas ancoradas à heteronormatividade (Amaral, Santos, Simões & Brites, 2021). As masculinidades e as feminilidades representam um ideal (Simões & Silveirinha, 2019), tanto imaginado culturalmente, como transmitido semiótica e discursivamente, do que significa ser e comportar-se como homem e mulher (Amaral, Santos, Daniel & Filipe, 2019). Sendo o género uma construção social (Butler, 1990), as masculinidades e as feminilidades não são naturais, espontâneas, fixas ou imutáveis. Resultam antes de processos sociais e culturais dinâmicos, sendo suscetíveis de serem desafiadas, (re)construídos e transformadas (Boni, 2002). Daqui decorre que a forma como as pessoas se envolvem com a tecnicidade e os imaginários das aplicações móveis, incorporando-os nas suas práticas do dia-a-dia, potencia uma (re)negociação das suas identidades sexuais e de género. Desafiando a investigação centrada nos riscos e oportunidades e nos usos e gratificações das práticas digitais, esta comunicação parte de um entendimento da tecnologia como produtora de significados, subjetividade e agência, modelados por relações de poder. Adotando uma perspetiva crítica dos média digitais contemporâneos e ancorada a uma nova abordagem feminista materialista, este trabalho visa compreender como é que jovens adultos percecionam os seus usos e apropriações de aplicações móveis para aferir como são negociadas e imaginadas as identidades de género nas experiências dos utilizadores. A abordagem metodológica deste estudo é qualitativa, operacionalizada através do desenvolvimento de seis grupos focais (n = 36) desenvolvidos com estudantes (18 a 30 anos) de uma universidade portuguesa.


Palavras-chave: identidades de género e sexualidades, culturas digitais, aplicações móveis, mediação digital


Interações positivas e negativas de seguidores com influenciadores Ana Jorge (ULHT/CICANT), Joana Cabral (ULP) & Ana Margarida Coelho (UCP/CECC e CICANT)


A difusão crescente dos social media trouxe a ascensão de um novo tipo de produtores de conteúdo, os influenciadores – YouTubers, bloggers, instagrammers, tiktokers –, utilizadores comuns que monetizam a sua base de seguidores. Retratada como uma ocupação criativa potencialmente lucrativa e atrativa, o lado menos auspicioso e glamoroso da atividade é menos discutido (Mäkinen, 2020). Além da precariedade, aqui incluem-se também as interações problemáticas com a audiência, nomeadamente de agressão online e ciberbullying, discurso de ódio, maledicência e humilhação. Por serem percecionados como celebridades mais próximas e comuns, os influenciadores  estão mais suscetíveis à crítica e “mais condicionados a lidar com negatividade e agressão social” (Abidin, 2019, p. 199). Paralelamente, quanto maior a popularidade, maior a exposição – contas de Instagram com mais seguidores e popularidade tendem a atrair mais comentários negativos e críticas (Hosseinmardi et al., 2015). “Evidência preliminar sobre a eficácia das estratégias de coping sugerem que ‘procurar apoio social’ pode ser especialmente benéfico (Raskauskas and Huynh, 2015)” para os influenciadores (Abidin, 2019, p. 209); ao passo que soluções técnicas, como bloquear quem ofende ou apagar contas de social media, são problemáticas, já que os influenciadores dependem destes canais e de manter a ligação aos seguidores.  As perspetivas, experiências e estratégias de influenciadores para lidar com campanhas derrogatórias foram estudadas a partir dos conteúdos que publicam sobre cyberbullying (Abidin, 2019) e de entrevistas (Mäkinen, 2020). Mas a perspetiva das audiências está ausente da pesquisa (Machackova et al., 2020). Esta comunicação apresenta resultados de um estudo nacional sobre interações negativas (ameaças, mensagens de cariz sexual, apropriação de dados pessoais, etc), mas também positivas (apoio, conselhos, informação), entre utilizadores comuns de social media e influenciadores. O estudo compreende dois questionários, respetivamente a cada um destes agentes, e esta comunicação foca-se nos resultados do questionário dirigido às audiências. A recolha de dados ocorreu entre abril e junho de 2021 e obteve 450 respostas de utilizadores de social media, na maioria do género feminino (83,6%) e heterossexuais (85,8%), com média de idades 34 anos (DP = 11,25). Destes, 72% declararam ser seguidores de influenciadores. Os resultados sugerem que durante o período da pandemia a maioria aumentou tempo passado nas redes sociais (881,6%) e considera que o trabalho dos influenciadores uma ajuda durante as ciscunstância da pandemia (72,6%). A criatividade, interatividade e a solidariedade são os aspecto mais valorizados pelos utilizadores na relação com os influenciadores. Esta comunicação foca-se no retrato desses indivíduos relativamente às interações negativas e positivas que reportam relativamente aos influenciadores, bem como as alterações que a sua relação com os produtores de conteúdo passou durante a pandemia de Covid-19.


Palavras-chave: social media, audiências, violência, precariedade


Influenciadores digitais: a visão de crianças e jovens enquanto audiência Lidia Marôpo (CIEF-IPS/CICS.NOVA), Patrícia Dias (UFP/CECC), Catarina Delgado (CIEF-IPS), Maria do Rosário Rodrigues (CEIF-IPS), João Torres (CEIF-IPS), Eduarda Ferreira (CICS.NOVA) & Alexandra Costa (CEIF-IPS)


Vários estudos evidenciam que as gerações mais jovens formam a sua opinião em plataformas como o YouTube e o Instagram (Eurointelligence, 2019). Estas plataformas investiram fortemente para transformar utilizadores comuns em produtores de conteúdos credíveis e profissionais, os chamados influenciadores digitais (Jorge, Marôpo & Nunes, 2018). Deste modo, alimentam o seu modelo de negócio baseado na cooptação dos conteúdos e dados dos utilizadores (Stehling et al., 2018). Embora académicos e jornalistas subestimem a popularidade das celebridades digitais, estas promovem mensagens com grande repercussão entre os mais novos (Abidin, 2018; Àndo, 2016; Aran-Ramspott, 2018; Marôpo, Sampaio & Miranda, 2018). Os youtubers, por exemplo, são percebidos como mais populares entre os jovens do que as celebridades dos media tradicionais, transformando-se em potenciais líderes de opinião em comunidades digitais globais de partilha de gostos e interesses (Pereira, Moura & Fillol, 2018; Chen, 2016) O objetivo desta comunicação é discutir a emergência dos influenciadores digitais entre crianças e jovens com base na perspetiva destes. A pergunta geral de investigação é “Como se relacionam as crianças e jovens com os influenciadores digitais e como constroem sentidos sobre estes e sobre os conteúdos que estes produzem?”. Para responder a esta questão recorremos aos dados de 429 inquéritos e cinco grupos de foco realizados com crianças e jovens entre 10 e 17 anos do Agrupamento de Escolas Sebastião da Gama (Setúbal), no âmbito do Projeto Competências de Informação para Jovens da Era Digital (CIJED), financiado pelo Instituto Politécnico de Setúbal. No estudo, que inclui questões mais amplas sobre as culturas digitais juvenis, os participantes responderam sobre as características que associam ao termo influenciador digital, se seguem algum influenciador, quais são os seus três influenciadores preferidos (justificando a sua escolha) e quais os aspetos positivos e negativos dos influenciadores, tendo em conta o modelo de negócio das redes sociais. Os resultados apontam para um amplo reconhecimento do conceito de influenciador entre as crianças e jovens. Os influenciadores são vistos principalmente como alguém que conquista popularidade através das redes sociais e que consegue influenciar pessoas. Uma minoria percebe-os como profissionais que produzem conteúdos e cuja principal fonte de rendimento é a publicidade. São valorizados pelo entretenimento, enquanto modelos de comportamento ou estilo de vida e como uma fonte de aprendizagem informal, mas a sua atuação é reconhecida como uma performance diferente da vida real. Há uma predominância de influenciadores estrangeiros (brasileiros e americanos) entre os mais populares. Embora estejam presentes em várias redes sociais, estes influenciadores preferidos começaram a atuar no YouTube ou TikTok e produzem conteúdos, essencialmente, relacionados com entretenimento: jogos e/ou humor, beleza e estilo de vida ou dança. No meio destes conteúdos aparentemente banais, por vezes, surgem temas políticos e sociais com os quais as crianças e jovens acabam por contatar. A promoção de conteúdos comerciais pelos influenciadores não é questionada, mas são feitas ressalvas em relação a discursos mercadológicos que os jovens não consideram corretos ou éticos.


Palavras-chave: influenciadores digitais; crianças e jovens; produtores de conteúdos; redes sociais; culturas digitais juvenis.

O testemunho na primeira pessoa no cinema e nas redes sociais Patrícia Sequeira Brás (ULHT)



Nos últimos anos tenho desenvolvido um projeto de investigação acerca da forma como o cinema feminista tem problematizado o uso do testemunho através da sua reconstituição. Esta investigação é informada teoricamente pelo trabalho de Adriana Cavarero, pois, segundo a filósofa italiana, as práticas narrativas feministas permitem uma narração recíproca que implica um reconhecimento mútuo. Esta noção de narração recíproca está próxima do conceito de co-vulnerabilidade da Judith Butler e também do conceito de ação política da Hannah Arendt.


No entanto, o testemunho na primeira pessoa tem tido um papel fundamental na exposição de estruturas de poder, principalmente em campanhas feministas como #MeToo, #TimesUp e #NiUnaMenos mas também em campanhas por direitos civis. Desta forma, o capitalismo comunicativo tem ajudado a posicionar a vítima no centro do discurso político; no entanto, como Jodi Dean argumenta, reduzir “o discurso político ao testemunho do sofrimento das vítimas inverte essas reivindicações de poder e subverte o espírito ativista do movimento.” (2009: 5) Isto porque, centrar o discurso político na necessidade de reconhecer a posição da vítima, ‘armadilha os reclamantes num duplo vínculo’, uma vez que se espera que as vítimas sofram e se sintam inadequadas e como tal, demasiado vulneráveis para liderar (Ibid.).


Uma vez que as redes sociais permitem a divulgação de opiniões e experiências, estas têm sido amplamente celebradas como “tecnologias democráticas”, no entanto, o seu uso parece confirmar, ao invés, a nossa capacidade reduzida de ação, minando também a possibilidade de organização política. Segundo Dean, a ‘materialização de ideais de inclusão e participação nas tecnologias de informação, entretenimento e comunicação’ captura a nossa capacidade de resistência e intensifica o capitalismo global (2009: 2). Por esta razão, na minha comunicação pretendo examinar se o uso do testemunho na primeira pessoa nas redes sociais são capazes, de facto, promover um palco político compartilhado e recíproco, segundo a filosofia de Cavarero? E desta forma, abordar as seguintes questões: poderá esta reciprocidade ser prejudicada pela natureza imediata destas tecnologias? E nesse caso, poderá o meio cinematográfico oferecer um tipo de experiência temporal radicalmente diferente do imediatismo das redes sociais? Se, segundo Dean, o uso de testemunhos na primeira pessoa parece subverter o ‘espírito ativista do movimento’, poderá então a reconstituição do testemunho oferecer uma saída radical fora da linguagem da vitimização?


Esta é uma comunicação exploratória que pretende especular acerca do uso das redes sociais para fins políticos e é informada mais pela teoria crítica do que pelas ciências sociais.


Bibliografia
Arendt, Hannah. The Human Condition. London, Chicago: University of Chicago Press, 1998.
Cavarero, Adriana. Relating Narratives: Storytelling and Selfhood, New York: Routledge, 2000.
Dean, Jodi. Democracy and Other Neoliberal Fantasies. Duke University Press: Durham & London, 2009.


Palavras-chave: testemunho, cinema, redes sociais, ação política

Utilização de aplicações móveis por jovens adultas/os LGBTQI+ em Portugal: um estudo exploratório Rita Alcaire (UC/CES)


Tendo como ponto de partida uma revisão sistemática da literatura dos estudos LGBTQI+ sobre o uso de aplicações móveis e a sua relação com a comunicação, as sexualidades e intimidades, a saúde, esta comunicação explora a forma como as aplicações móveis permitem a criação de relações íntimas, a marcação de encontros sexuais, a procura de bem-estar físico e mental, mas contribuem também para uma autorrepresentação e uma construção ou fortalecimento de pertença à comunidade LGBTQI+. Reconhecendo que o foco principal deste conjunto de literatura académica se tem concentrado maioritariamente em jovens ou em homens gay do Norte Global, esta comunicação aborda de forma exploratória contexto em Portugal, um país da Europa do Sul, pós ditatorial e pertencente à União Europeia, o que o torna um estudo de caso particularmente relevante. Na Europa do Sul, a cidadania íntima é influenciada por familismo, patriarcado, catolicismo e precariedade económica. Dessa forma, questionamos: a omnipresença das normas sexuais e de género influencia a interação com aplicativos móveis? A hetero e a cisnormatividade permanecem como scripts sexuais inescapáveis? E de que forma tudo isto é moldado pela precariedade? À luz desta reflexão, que decorre no âmbito do projeto MyGender: Práticas mediadas de jovens adultos: promover justiça de género nas e através de aplicações móveis, os resultados encontrados vão permitir uma nova lente em relação a como abordar o uso de aplicações móveis por jovens adultos LGBTQI+ em Portugal.


Palavras-chave: aplicações móveis; género e sexualidades; Portugal; jovens adultas/os LGBTQI+

Hierarquia de celebrificação digital – uma proposta de tipologia para análise de produtores e utilizadores de conteúdo de media sociais Bárbara Carvalho (FL-UC/CICS.NOVA)


Na esteira da temática do XII SOPCOM, “Comunicação e Disrupção”, este trabalho procura propor um formato metodológico inovador para investigar um fenómeno contemporâneo da cibercultura: o universo dos produtores e dos utilizadores de conteúdo de media socias. Seu objetivo centra-se em apresentar e detalhar uma proposta de tipologia, assente em uma “hierarquia de celebrificação digital”, para classificação e análise deste grupo social, nomeadamente no que se refere às questões de género e à promoção da cultura do consumo. Progressivamente, os media sociais deixaram de ser apenas um espaço de expressão pessoal e de cultura participativa (Jenkins, 2006). Ao longo da última década, converteram-se a um modelo de influência digital ancorado na exaltação da visibilidade, no estímulo à profissionalização de utilizadores produtores de conteúdo, na cooptação mercadológica das audiências e na gestão de metadados por meio de complexos sistemas algorítmicos (Jorge, et al., 2018; Khamis, Ang & Welling, 2016; van Dijck, 2017). Os estudos sobre a cultura das microcelebridades e o uso estratégico de influenciadores dos media sociais para a promoção de conteúdos comerciais se potencializaram a partir de 2016 (Hudders, De Jansa & De Veirman, 2021). Os media sociais como o YouTube, o Instagram e, mais recentemente, o TikTok, tornaram-se estrategicamente espaços primordiais dos processos de celebrificação. Neles, os limites entre o público e o privado se esbatem e as celebridades surgidas neste contexto conquistam uma capacidade de influenciar os indivíduos, incluindo as suas decisões de compra (Carvalho, Pereira & Marôpo, 2020). A ampla revisão da literatura favorecerá a perceção dos aspetos convergentes à produção de conteúdo digital de rapazes e raparigas e às práticas de influência de consumo que surgem na relação entre produtores e utilizadores de media sociais. Esta etapa respaldará a seguinte, que contemplará a construção da “hierarquia de celebrificação digital”, conforme cinco critérios previamente estabelecidos: 1) número de inscritos/seguidores; 2) métricas de interação; 3) nicho de conteúdo; 4) fluxo de produção; 5) nível de comercialismo presente nos perfis. A par das propostas de classificação de influenciadores digitais existentes no mercado e na academia, e que tomam como princípio norteador o número de seguidores, a tipologia aqui desenhada pretende aprofundar outros aspetos, tendo como pressuposto a ideia de que as performances de género e os comportamentos de promoção do consumo se conciliam de maneiras diferentes, conforme os níveis de fama são mais ou menos elevados. Esta proposta de tipologia deriva do percurso metodológico proposto no projeto de tese de doutoramento da autora, que tem o título “A construção de identidades e sociabilidades juvenis em rede: celebrificação, cultura do consumo e género nos media sociais” e procura entender como jovens em Portugal e no Brasil constroem as suas identidades e sociabilidades nos media sociais marcados por processos de celebrificação, promoção da cultura do consumo e performances de género.


Palavras-chave: Celebrificação; Cibercultura; Cultura do consumo; Media sociais

Outras formas de interação entre cientistas e sociedade: o ensaio audiovisual académico e seus públicos Pedro Pinto Oliveira (UFMG)


O presente estudo tem como proposta discutir o ensaio audiovisual acadêmico, outra forma de comunicar os achados da ciência além do paper, no processo de interação com seus diferentes públicos. Partimos da ideia de que a comunicação audiovisual pode contribuir para a democratização do conhecimento: é uma escritura voltada para públicos acadêmicos, em especial para os pares e, em desdobramento, para estudantes – em especial aqueles iniciantes em pesquisa, jovens que tem presença muito forte nas redes digitais. A linguagem audiovisual de conteúdo acadêmico tem, ainda, potência de entendimento para novos públicos. A ubiquidade e a dialética das imagens no contexto contemporâneo impõem novas formas de comunicação para a ciência no diálogo com a sociedade. Essa mudança nos processos comunicacionais faz emergir uma disputa de narrativas por imagens na internet: os cientistas produzem suas escrituras referenciadas em contraponto aos conteúdos de negacionismo e desinformação que se multiplicam no cotidiano do espaço público digital. O processo de comunicação do conhecimento situa-se, neste contexto, em fazer circular a escritura científica a partir das revistas digitais acadêmicas que começam incorporar a publicação de ensaios audiovisuais e daí para dialogar com públicos de sites de jornalismo científico, redes de grupos de pesquisa e de outros espaços mediáticos. Tomamos a noção de público e comunicação em John Dewey (2004) para pensar a capacidade para usar a linguagem audiovisual como instrumento expressivo e eficaz na criação de “um público”. Trabalhamos com a noção de ensaio audiovisual acadêmico na aproximação dos sistemas simbólicos da ciência, da arte e do cinema (Moreira e Oliveira, 2019). A experiência parte da palavra: o artigo verbal é uma base “extra fílmica” incorporada ao processo de montagem, que inclui a palavra pensada na plasticidade das imagens que formam um “discursus” da inteligência, conforme o entendimento do filósofo Galvano Della Volpe (1967). Ainda com a filosofia, trabalhamos a noção de conhecimento pela imagem de Georges Didi-Huberman (2004) aplicado ao processo de montagem audiovisual de uma escritura de ciência. Como procedimentos metodológicos para abrir a discussão proposta, utilizamos um ensaio publicado na revista digital Tecmerim (2019), da Universidad Carlos III, de Madrid, “Novas formas de comunicar ciência: a experiência do ensaio audiovisual científico”, e a sua divulgação no site de jornalismo pnbonline.com.br em Mato Grosso, Brasil. Referências: DELLA VOLPE, Galvano. Lo verosímil fílmico y otros ensayos. Tradução: Alberto y Juan Antonio Méndez Borra. Madrid: Editorial Ciencia Nueva, 1967. Título original: Il verosimile filmico e altri scritti di estética. DEWEY, John. La opinión pública y sus problemas. Madrid: Ediciones Morata, 2004. DIDI-HUBERMAN, Georges. Imágenes pese a todo: memoria visual del Holocausto. Barcelona: Ediciones Paidos Ibérica, S.A. 2004. OLIVEIRA, Pedro Pinto de. MONCADA SEVILLA, Nadia. Video-ensayos: pensar académicamente en imágenes y en relación con “el otro”. In: MOREIRA, Benedito; OLIVEIRA, Pedro Pinto de.; MATTOS, Aclyse de. (Org.). Comunicação, cultura e sensibilidade. Bagé: Editora Faith, 2021, p. 87-104. OLIVEIRA, Pedro Pinto de.; MOREIRA, Benedito Diélcio. Nuevas formas de comunicar la ciencia: la experiencia del ensayo audiovisual científico. Tecmerin: Revista de Ensayos Audiovisuales. Madrid, n. 2, 2019. Disponível em ehttps://tecmerin.uc3m.es/revista-2-4/.


Palavras-chave: Comunicação. Ciência. Filosofia. Ensaio Audiovisual. Públicos