NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DT I – MV

Disrupção Tecnológica I: Monitorização e Vigilância

Internet, governação, monitorização do comportamento e o problema da liberdade José Luís Garcia (ICS-UL)

Nos finais do século XX uma nova máquina, o computador, e o sistema tecnocientífico de maior complexidade jamais criado, a World Wide Web, sacudiram a realidade da comunicação, os processos sociais e fizeram ressurgir o fetichismo tecnológico. O computador data de 1945, mas só começou a funcionar a título experimental nos anos de 1950 e1960, tendo-se generalizado o seu uso em finais do século XX. Nas décadas de 1970 e 1980 surgiram as primeiras redes de computadores e, por volta de 1990, a World Wide Web, uma rede virtual assente na rede física Internet. O computador e a Internet são os motores do processo sociotécnico de digitalização e um novo ambiente para a construção de mundos sociais, culturais, económicos e políticos. Na década de 1970, surgem os PC, na de 80, o computador portátil, com os anos 2000 os smartphones e os tablets. Em finais de 2019, a Internet tinha cerca de 4,6 biliões de utilizadores, e existiam cerca de 5,1 biliões de proprietários de telefones móveis.


A Internet foi originalmente pensada pelos seus fundadores como um sistema aberto, plural e de liberdade de informação. Mas muito cedo a Internet se tornou alvo de combates pela determinação do seu rumo. No contexto da expansão do mercado e da radicalização do liberalismo económico desde os anos de 1980, muitos viram na Internet a possibilidade de uma nova vaga de crescimento do capitalismo de mercado e das suas lógicas em todos os aspetos das nossas vidas. A digitalização tem vindo a ser implementada sob a pressão da sua comercialização ou de poderes autoritários, o que está a conduzir às mais diversas patologias cognitivas, políticas e morais. Existe já uma considerável investigação e literatura sobre os inúmeros problemas gerados a partir das potencialidades da Internet: o surgimento de fossos digitais, que aumentam as desigualdades; a fragmentação e polarização da esfera pública, que leva ao fortalecimento das visões ideológicas preexistentes; o declínio da imprensa independente de qualidade, que tem posto em causa o papel de intermediação do jornalismo responsável; a proliferação de uma comunicação sem corpo que fomenta a dissimulação da identidade; o trabalho mediado por plataformas que cria trabalho precário e mal pago; a ameaça à privacidade e a muitas liberdades públicas. A comunicação que se pretende realizar foca dois outros problemas: a Internet como instrumento de governação e a monitorização digital do comportamento, passível de ser aplicado pelas mais diversas entidades (incluindo o Estado), ambos dilemáticos para a liberdade e a democracia.

Palavras-chave: Internet; governação, economia de dados; monitorização do comportamento

Media sociais e experiências de vigilância: uma comparação transcultural Rita Figueiras (UCP), Göran Bolin (Södertörn University) & Veronika Kalmus (University of Tartu)

Na era do ‘capitalismo de vigilância’, a vigilância do estado e dos media sociais convergiram tecnologicamente. Ambas usam a mesma infraestrutura de internet para capturar usuários dos media e monitorar a segurança do estado. Com a disseminação de dispositivos móveis e pessoais – como smartphones, laptops e media sociais –, as esferas que podem ser subsumidas a práticas de monitoramento multiplicaram-se para incluir com quem, quando e onde os consumidores e cidadãos estão a comunicar.


Está bem estabelecido nos estudos de vigilância digital que as atitudes dos cidadãos em relação à vigilância dos media sociais é ambivalente: os usuários de media são cépticos em relação à vigilância dos media sociais (e estatal), mas ao mesmo tempo fazem muito pouco em termos da sua própria proteção, por exemplo, através da alteração das configurações de privacidade nos media sociais. Acresce que se pode esperar que as atitudes em relação à vigilância do estado estejam relacionadas com as atitudes em relação à vigilância dos media sociais e, portanto, é expectável que as gerações criadas sob regimes de vigilância totalitária ou autoritária tenham atitudes diferentes em relação à vigilância dos media sociais, por comparação com as gerações criadas em democracias liberais. Também se pode esperar que os níveis de confiança nas instituições governamentais e/ou nos meios de comunicação tenham impacto nas atitudes em relação à vigilância das redes sociais digitais.
Deste modo, consideramos pertinente a realização de uma comparação transcultural de abordagens de vigilância dos media sociais entre diferentes gerações e entre países com experiências de regimes políticos e vigilância distintos, mas com níveis semelhantes de confiança nas instituições governamentais.


Face ao exposto, o objetivo desta apresentação é dar conta de uma abordagem analítica e metodológica para analisar: (1) em que condições os usuários de media aceitam a vigilância dos media sociais e (2) em que medida as experiências de práticas de vigilância sob totalitarismo, autoritarismo e democracia liberal afetam tal aceitação. A comparação transcultural apresentada apoia-se num inquérito representativo a nível nacional realizado em três países distintos: Portugal, Suécia e Estónia, em Outubro-Novembro de 2020. Com o exemplo das condições totalitárias vividas na Estónia do tempo soviético, as condições pós-autoritárias em Portugal e as condições de uma democracia de longo prazo na Suécia, a comunicação pretende discutir qual poderá ser o impacto – a existir – do legado das experiências totalitárias e autoritárias nas atitudes dos usuários em relação à vigilância das redes sociais digitais.

Palavras-chave: Media sociais; Vigilância; Vigilância estatal; Vigilância comercial; Usuários

Recomendado para você: pistas para investigar o consumo televisivo guiado por sistemas algorítmicos Vanessa Scalei & Magda Rodrigues da Cunha (PUCRS)

Em um cenário no qual plataformas de streaming disputam a atenção do público com os modelos tradicionais de distribuição de televisão (aberta e fechada), novos agentes entram em cena na conformação das práticas midiáticas cotidianas. Enquanto as empresas fazem uso de inteligência artificial e machine learning para fidelizar a audiência, esta busca a domesticação desses novos mecanismos. Assim, considerando-se que a distribuição via streaming tem a pretensão de conhecer o público para oferecer-lhe cada vez mais conteúdo coincidente com aquilo que foi previamente escolhido, o presente trabalho pretende examinar a atuação das chamadas mediações algorítmicas e sua implicação sobre os processos de tomada de decisão acerca do que assistir por parte dos espectadores.


O objetivo aqui é fazer uma discussão teórica sobre como esse fenômeno de recomendações algorítmicas atua no dia a dia da audiência, afetando rotinas e hábitos de assistir televisão. Para tanto, propomos uma articulação entre os campos da cibercultura e da ecologia das mídias em
diálogo com a teoria barberiana da comunicação, especialmente os mapas das mediações.
A premissa é que, ao coletar e armazenar dados de preferências dos usuários para, posteriormente, sugerir novos títulos a serem assistidos, as empresas que operam serviços de vídeo on demand (VOD), como Netflix, Globoplay, Prime Video etc., podem direcionar comportamentos, promovendo alterações na maneira pela qual as pessoas se relacionam com a mídia e seus produtos. Autores como Scolari, Manovich, Couldry, Hepp, van Dijck, Gillespie, Williams e Livingstone auxiliam na compreensão desse emergente fenômeno de dataficação da produção e suas conceitualizações são postas em articulação com as ideias de Martín-Barbero, Orozco Gómez e Garcia Canclini sobre consumo midiático e televisivo.


Para pensar esse novo cenário é importante considerar que a condição comunicacional contemporânea se dá na chamada midiatização do cotidiano, que leva os sujeitos a transitarem cada vez mais entre telas enquanto os meios têm as fronteiras diluídas entre si (OROZCO GÓMEZ, 2010). Sob esta perspectiva, o entendimento acerca do funcionamento de novos elementos é essencial para compreender o consumo midiático, aqui em particular o televisivo. Conceitos tradicionais dos estudos de recepção e consumo agora precisam ser relacionados a termos como plataforma, interface, software, machine learning, inteligência artificial e algoritmos. E o próprio entendimento de tecnologia precisa ser revisto. Desta forma, o ponto de vista de Martín-Barbero (2003, p. 18) para enfrentar esse tema é pertinente, especialmente quando o autor desloca seu olhar para pensar as tecnologias não mais como meros aparatos, mas como “operadores perceptivos e destrezas discursivas”. A base do pensamento barberiano sobre tecnologia e tecnicidade é fundamental para a nossa proposta de compreender o fenômeno das mediações algorítmicas, pois sustenta que não se pode recortar apenas uma camada do processo comunicacional para entender o todo. O autor defende que se “olhe entre” as pontas da produção, da circulação e do consumo para visualizar o que está nos
entremeios do fenômeno e os engendramentos que dão sentido às relações e às interações estabelecidas entre audiência e televisão, ainda que com a atuação da inteligência artificial.

Referências:
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2003.
OROZCO GÓMEZ, G. Audiencias ¿siempre audiencias? Hacia una cultura
participativa en las sociedades de la comunicación. In: Texto de la conferencia inaugural del XXII Encuentro Nacioanal Amic. Santa Fé, México: 2010.


Palavras-chave: televisão; consumo; recomendações algorítmicas; mediações

Corpo autovigiado e quantificado: a reconfiguração das relações sociais de género através das apps de automonitorização Rita Basílio de Simões (ICNOVA/FL-UC) & Inês Amaral (FL-UC/CECS)

Tem crescido substancialmente o interesse popular e académico pelas aplicações (apps) móveis para automonitorização de hábitos alimentares, sexuais e reprodutivos. Conduzida a partir de uma perspetiva centrada nos usos, a investigação neste domínio tem dado a ver a face positiva das plataformas dirigidas para a saúde e fitness, beleza e bem-estar, nomeadamente no que diz respeito à obtenção de apoio emocional e de acesso facilitado a informações sobre cuidados médicos (Lupton & Pedersen, 2016; Lupton, 2017; Goetz et al., 2017). Outros estudos têm mostrado a prevalência de efeitos igualmente positivos no conhecimento do próprio corpo e no seu domínio, a exemplo dos dirigidos para as apps que permitem o auto-registo do ciclo menstrual e do período fértil, a fim de controlar a natalidade (Epstein et al., 2017; Levy & Romo-Avilés, 2019).

Já a investigação crítica dos media, preocupada com as apps de automonitorização e a vigilância digital, tem trazido à colação o impacto destas plataformas no contexto sociocultural mais amplo. Estudos desenrolados neste âmbito têm questionado como as tecnologias digitais móveis, entre elas as apps de autocontrolo das funções reprodutivas e da atividade sexual, incluindo das performances sexuais, estão imersas em relações sociais de poder. Ao promover o registo voluntário de dados quantitativos sobre certos aspetos eminentemente pessoais (Lupton, 2014, 2015; Megarry, 2018; Karlsson, 2019), que se traduzirão em padrões e algoritmos, estas tecnologias estarão, em última instância, a favorecer formas específicas de estruturar a sexualidade.

No quadro de uma perspetiva feminista, as tecnologias de vigilância desempenharam sempre funções disciplinares, incluindo no domínio da regulação, definição e controlo de populações, com frequência construindo “novos corpos genderizados, racializados, capazes ou incapazes” (Nakamura, 2015, p. 221). O auto-registo de comportamentos e a produção de dados que as apps de saúde e fitness, beleza e bem-estar, ciclo menstrual ou hábitos sexuais permitem, disponibilizando para vigilância, quantificação e análise o corpo sexual e reprodutivo, transformam-nas, em todo o caso, em ferramentas disciplinares poderosas sem precedentes (Lupton, 2014).

Esta comunicação parte justamente de uma conceptualização crítica das apps de automonitorização e tem como propósito ampliar o seu entendimento não apenas como produtos socioculturais disciplinadores, mas também, e sobretudo, como tecnologias que reconfiguram as relações de género. Problematizando os resultados da investigação relevante neste domínio, colocaremos em relevo o papel destas plataformas como instrumentos de policiamento do corpo sexual e reprodutivo. Porventura mais significativo ainda, é o nosso argumento, mostraremos também como estão a normalizar construções específicas das relações sociais de género que, graças aos processos de data mining, reverberam tanto na esfera privada como no espaço público.

Palavras-chave: Género; Sexualidade; Aplicações móveis; Vigilância digital

De uma operatividade (a)significante: um olhar sobre a questão da catástrofe algorítmica Philipp Teuchmann (NOVA FCSH)

No contexto da semiótica e da teoria dos media contemporâneas, a categoria da «operatividade», designando processos que, ao invés do discursivo – do logos –, relevam do ratio – do computacional –, volta a ser objecto de renovada atenção. Trata-se aqui de dois movimentos que estabelecem uma certa relação de continuidade histórico-epistemológica entre si: 1) a ponderação da importância que determinadas configurações gráficas – e.g. mapas, listas, tabelas, gráficos, esquemas, planos, etc. – e diagramáticas têm para o pensamento – Charles. S. Peirce revelando-se aqui, de um ponto de vista histórico, de suma relevância;

2) a elaboração de uma Crítica da razão digital ou das sociedades de controlo. O algoritmo, na sua qualidade tecno-matemática, situando-se na senda de uma longa tradição de inscrições alfanuméricas e da espacialidade que estas compreendem, constitui-se aqui como objecto de especial interesse. Com efeito, nele faz-se inverter a lógica operativa da iconicidade
alfanumérica: no lugar de realizar um espaço de transparência, monitorização e controlabilidade cognitiva do significado – esta sendo a esperança que o modernismo e, mais especificamente, o iluminismo confiara ao alfanumérico –, o algoritmo marca o ressurgimento agora tecnicamente realizada – da contingência, culminando em novas configurações do incontrolável, incerto e opaco. Recorrendo principalmente ao pensamento semiótico de Félix Guattari, a nossa reflexão debruçar-se-á assim sobre esta configuração catastrófica do algorítmico, qualidade que torna especialmente visível o modo como o espaço de controlo constituído pela manipulação de signos dá lugar a uma sinalética circulacionista que interpela fluxos a-significantes – e.g. de números, dinheiro, dados. Para efeitos de exemplificar esta condição governativa que aponta para um operador/utilizador que deixa de ser protagonista para devir espectador, considerar-se-á sobretudo a célebre instância do «High Frequency Trading» (HFT), exemplo que nos interessa particularmente pelo algoritmo intervir aqui num campo que por si mesmo já antecipa as lógicas da maquinação (a-)significante – com especial
destaque para os seus «acidentes» e «acontecimentos» – de que depende a economia capitalista.

Neste sentido, a presente reflexão não se pretende apenas como contributo para os debates contemporâneos que afirmam e interpelam o inevitável intervalo que se situa entre a celeridade operativa da máquina e a inteligência humana – esta problemática compondo-se como questão ético-política por excelência –, como visa igualmente demonstrar que no cerne deste problema está uma preocupação que é eminentemente da ordem do semiótico – trata-se, mais especificamente, de uma semiótica operativa e desubjectivada que nos aproxima do diagrama e do diagramático.
Concluiremos assim que a dialéctica que se estabelece entre controlo e descontrolo, aqui a ser entendida no seio desta semiótica a-significante e que resulta da originalidade dos algoritmos actualizados em máquinas, ao reformular o que se deverá entender por operatividade, reconfigura também a ideia de sujeito. A governação algorítmica faz assim emergir uma nova invisibilidade que emerge em detrimento de um conceito de razão que, tendo no centro um olhar do intelecto que tende a libertar-se de todos os fardos do contingente, se afirma historicamente enquanto technê de todas as technai.


Palavras-chave: algoritmos; semiótica; operatividade; (des)subjectivação

Métodos digitais e tecnicidade dos meios Janna Joceli Omena (NOVA FCSH/ICNOVA)

Os métodos digitais são aqui tomados como uma prática de investigação crucialmente situada no ambiente tecnológico que explora e do qual tira benefício. Esta prática de pesquisa propõe a reorientação dos métodos online e dos dados para a pesquisa social e do meio através da análise orientada por software, prática ainda não considerada como um tipo adequado de trabalho de campo porque estes métodos são novos e a sua descrição está ainda numa fase incipiente. Os métodos métodos obrigam a adquirir familiaridade com o software e refletem um ambiente habitado pela tecnicidade. Esta proposta diz assim respeito a um elemento-chave da abordagem de investigação dos métodos digitais: os meios computacionais (ou técnicos) enquanto portadores de significado. A ideia central desta apresentação é a de refletir sobre o papel do conhecimento técnico, da prática técnica e da aquisição de competências (como problemas e como soluções) em todo o âmbito dos métodos digitais, assumindo a tecnicidade dos meios computacionais e dos registos digitais como objetos de estudo. Ao centrar-me na forma como o conceito de tecnicidade é fundamental na investigação digital, argumento que não só os métodos digitais abrem uma oportunidade para uma investigação mais aprofundada deste conceito, mas também que beneficiam deste tipo de investigação, uma vez que a matéria-prima desta prática de pesquisa são os meios, os seus métodos, mecanismos e dados. Deste modo, utilizo e apresento a noção de tecnicidade-dos-meios em dois sentidos: apontando, por um lado, para a necessidade de conhecimento dos meios (duma perspetiva conceptual, técnica e empírica) e, por outro, para o objeto da imaginação técnica (a capacidade de tomar as características e as qualidades práticas dos meios computacionais como um conjunto [ensemble] e como uma solução para problemas metodológicos). Dois argumentos principais são apresentados: O primeiro afirma que só podemos tirar proveito daquilo que conhecemos de forma aprofundada, o que significa que é necessário que nos familiarizemos com os meios numa perspetiva conceptual-técnica-prática, enquanto o segundo argumento afirma que a prática dos métodos digitais é aperfeiçoada quando os investigadores estão recetivos a, amadurecem e adquirem uma sensibilidade para a tecnicidade-dos-meios. A principal contribuição desta proposta é o desenvolvimento de um conjunto de princípios conceptuais e práticos para a pesquisa digital. Teoricamente, é proposta uma definição mais ampla de meio nos métodos digitais, e introduzida o conceito de tecnicidade-dos-meios e aponta para três facetas distintas mas relacionadas – referimo-nos às culturas de utilização e à gramatização das plataformas, e às affordances do software –, como uma solução para minorar algumas das dificuldades relacionadas com a utilização dos métodos digitais. Na prática, apresenta abordagens metodológicas concretas que fornecem novas perspetivas analíticas para a investigação dos media sociais e para os estudos de redes digitais, ao mesmo tempo que sugere uma forma de levar a cabo trabalho de campo digital que é substanciada por práticas técnicas e pela imaginação técnica.