NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DT IV – STR

Disrupção Tecnológica IV: Sensibilidades & Transformações

Refugiados 360: o ‘experienciar’ do 360 graus pode ser uma ferramenta geradora de empatia? Marina Vasques Oliveto (ULHT)


As experiências imersivas podem ajudar a reformular a questão da empatia do nível mais abstrato das instituições para o nível pessoal, a fim de torná-lo mais acessível e tangível. Considerando o aumento popularidade e relevância dessas tecnologias no discurso público, este artigo investiga como tecnologias imersivas, sobretudo os vídeos em 360°podem afetar a empatia dos consumidores com mudanças de atitudes e os efeitos.


Isso porque, a experiência de assistir um conteúdo em 360° pode gerar um comportamento difere no público, uma vez que, ao invés de ser sobre “contar histórias”, trata-se de “viver histórias”, pois permite que o usuário tenha um papel ativo (Maschio, 2017). Assim, neste artigo, a ideia de narrativa espacial refere-se às maneiras como as notícias imersas em 360° são construídas e ‘lidas’ dentro de um vídeo em 360° como histórias que permitem a exploração espacial (Jenkins, 2004). Existem muitas definições de lugar e espaço, que às vezes se sobrepõem e contradizem uns aos outros. Quando discutimos ‘local’, nos referimos a locais ‘reais’ e construídos.


Portanto, no conteúdo imersivo, o lugar desempenha várias funções, desde ser o foco principal de uma história até incorporar significado simbólico e emoções de reforço (Ryan, Foote e Azaryahu, 2016; Tricart, 2018). Espaço refere-se ao ambiente digital e sua capacidade de narrar os eventos e atender a diferentes formas (de la Peña et al. 2010; Tuan 2011). Assim, o 360° pode simular um senso de lugar manifestando lugares ‘reais’ como espaços digitais (Usher, 2019).


A discussão sobre o potencial da mídia imersiva para criar engajamento com outras pessoas tornou-se mais relevante nos últimos anos (de la Peña et al. 2010; Jones, 2017; Nash, 2018; Sánchez, 2017). Estudos sobre a imersão e os seus formatos destacaram a capacidade de oferecer experiências emocionais ao permitir que os usuários vivenciem histórias de uma perspectiva de primeira pessoa ao habitar o cenário da história (de la Peña et al. 2010; Kool, 2016; Maschio, 2017; Sánchez, 2017; Sundar, Kang e Oprean, 2017).


Assim, como parte desse estudo realizado a partir do projeto exploratório “Refugiados 360 – os desafios do acolhimento” será realizada uma pesquisa com jovens de 12 a 18 anos do ensino secundário em Lisboa, os quais irão passar por uma avaliação antes e depois de consumirem um documentário imersivo sobre refugiados no país. O presente estudo tem o objetivo de mensurar o nível de empatia a partir do consumo de uma reportagem em 360º que aborda uma temática contemporânea e sensível para a sociedade.


Portanto, esse artigo contribui para a discussão contínua da conexão entre presença simulada e emocional de engajamento examinando como a interação do espaço do usuário através dos conteúdos imersivos em 360° que revelam respostas emocionais diferenciadas no usuário.


Palavras-chave: imersão; vídeos 360º; empatia; experiências imersivas.


Narrativas imersivas e mudança social: da máquina empática à geografia emocional
António Baía Reis (CMC-University of Passau)

Com o advento das designadas narrativas imersivas, associadas a tecnologias tais como a realidade virtual, o vídeo 360 e a realidade aumentada, surge igualmente a ideia da “máquina empática” (Milk, 2015), isto é, o potencial que estas narrativas encerram no sentido de despoletar dinâmicas afetivas inovadoras entre público e as histórias retratadas. Neste sentido, o conceito de empatia torna-se particularmente central no âmbito da reflexão académica das dimensões emocionais das narrativas imersivas e na capacidade destas dimensões se manifestarem empiricamente no campo específico de trabalhos de impacto social. À luz de um enquadramento conceptual afeto aos media digitais e ciências cognitivo-comportamentais e dos resultados obtidos através de uma investigação de caráter practice-based que consistiu na produção de cinco documentários imersivos (realizados entre 2018 e 2020 em Portugal, Alemanha e Noruega) e da realização de entrevistas em profundidade a 21 especialistas internacionais na áreas dos media imersivos, pretende-se aqui apresentar e fomentar uma matriz conceptual inovadora e uma visão crítica acerca das dinâmicas teóricas e práticas emergentes ligadas às narrativas imersivas e a sua relação com públicos, empatia e mudança social.


Palavras-chave: media digitais; realidade virtual; vídeo 360; empatia; mudança social

Design e como estes interagem com o público geral Marta Ferreira, Valentina Nisi & Nuno Nunes (ITI – LARSyS)

Resumo
As alterações climáticas são indiscutivelmente a crise mais urgente da actualidade, e a comunidade do design tem explorado continuamente como responder a este desafio complexo. No entanto, os últimos anos demonstraram o quão difícil pode ser a comunicação e interacção com estes temas. Como resposta aos desafios do Antropoceno, investigadores em HCI e Design têm debatido a necessidade de uma mudança do user-centered design para perspectivas mais inclusivas e multiespécies que também apoiam mudanças sistémicas. Em relação à utilização de novos media e a formas de comunicar este tema fora da simples apresentação de factos pessimistas, académicos como Robert Pratten têm vindo a vocalizar a necessidade de uma comunicação mais positiva e assente em acção, formalizada na sua proposta de “transmedia for change”.


Este é, portanto, um momento oportuno para questionar como a comunidade científica tem abordado a comunicação das alterações climáticas e os seus desafios de interação, apoiando a discussão sobre o futuro do campo.


Proponho apresentar a nossa revisão da literatura de projetos de investigação de HCI e Design sobre alterações climáticas focadas em comunicar este tema para o público em geral. O resultado é a análise e discussão de um corpus de 74 projetos por meio do Grounded Theory Review Method. A partir das nossas descobertas, propomos implicações para design que tiram proveito de diversas estratégias de interação e comunicação e esperamos assim informar futura investigação aplicada sobre este tópico urgente.


Palavras-chave: Comunicação; Interacção; Design; Revisão de literarura; Alterações Climáticas

Pixels apagados, backup vital: uma análise sobre as novas tendências no lidar com a morte no ciberespaço Milena Albuquerque (UBI)


O objetivo desta investigação foi apresentar, através dos progressos tecnológicos e digitais e ao desenvolvimento de formas cada vez mais sofisticadas de inteligência artificial, os caminhos para imortalidade virtual, onde a relação contínua e bem-sucedida entre amigos e familiares pode ser mantida nos momentos felizes ou não da vida ou até mesmo no pós-morte. São “vidas” que se firmam e se desenvolvem agora não mais, somente, pela capacidade biológica e física, mas também pela tecnológica e virtual. A esta tendência tecnológica fizemos uma analogia com o pensamento de Rodrigues (2006) a respeito de uma política de saúde, que preocupada com a proliferação da morte, defende o afastamento dela no seio social e a perpetuação da vida, com os fatores que fazem variar a longevidade humana. A morte é um fato da nossa existência, mas continua sendo assunto banido na sociedade ocidental. Em tempos de pandemia, percebeu que apesar do estranhamento que o peso da notícia sobre a morte de um parente, amigo ou até mesmo de um desconhecido tem reações diversas. Antes do avanço das redes sociais, a comunicação de falecimento ocorria de boca a boca, contato físico ou por meio do telefone. Pessoas de pontos distantes deslocavam-se à casa do defunto para apresentarem os sentimentos de pesar e, em sinal de solidariedade, ajudavam a família a propagar a informação. Hoje esse cenário é diferente, tornou-se virtual. A velocidade da informação se multiplicou com a utilização das mídias sociais que fazem o papel de transmissor e receptor da notícia. Através do Facebook e do Instagram, os usuários têm acesso à informação em tempo real e podem acompanhar o processo sem sair de casa. A isso se deve ao próprio desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e de informação, pois o homem necessita de novas formas para lidar com suas perdas e para isso busca novos espaços que possa estabelecer conexões com o mundo que não se consegue compreender. Como método da pesquisa foram elaboradas três fases no procedimento: a primeira, correspondeu à seleção de seis perfis póstumos veiculados no Facebook; a segunda, foram analisadas e discutidas sob a nova ótica dos ritu0ais online. E a terceira, inicia-se um processo de entrevistas com usuários que perderam um ente querido. Com base nos estudos de Rodrigues (2006), Ribeiro (2015), João José Reis (1991), Philippe Ariès (2003), Van Gennep (2011), procurou-se refletir sobre a concepção da morte e dos rituais que ajudam no processo de separação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Utilizou-se também da visão de Sodré (2002), Recuero (2005), Henry Jenkins (2009) e Rosa e Santos (2013) que discutem o avanço tecnológico, o ciberespaço e a usabilidade do Facebook, como uma rede interativa no mundo virtual.


Palavras-chave: Morte; Ciberespaço; Tecnologia; Imortalidade; Redes Digitais


As condolências no digital. Análise do discurso a obituários no Facebook de funerárias portuguesas Pedro Caldeira Pais (ISCTE-IUL/CIES-IUL)


Surgida de um projecto de Tese acerca da morte no contexto da internet, em Portugal, esta comunicação debruça-se sobre a evolução necrológica e os obituários digitais, nomeadamente em redes sociais. Mais especificamente, foca-se na análise às reacções e comentários de condolências online no Facebook de funerárias locais portuguesas, que publicam os óbitos e dão espaço, na publicação, para reacções de utilizadores. Com este estudo, procura-se compreender as características discursivas deste tipo de comentários, o tipo de dinâmicas estabelecidas na relação virtual dos utilizadores para com o falecido e a família enlutada, e que impacto este discurso, produzido num contexto digital, poderá ter na evolução do conceito de memorialização. A metodologia utilizada é a Análise do Discurso, tendo sido construído um modelo analítico que: i) identifica aspectos relativos à publicação obituária, como o número e tipo de reacções (e.g., likes), o número de comentários e de interacções entre utilizadores, ou o tipo de linguagem utilizada (e.g., utilização de emojis); e ii) explora os significados de determinados comentários, percebendo, entre outras coisas, que tipo de significação social – em relação ao morto – poderá ser produzida neste tipo de espaços. Foram analisadas as páginas de Facebook de cinco funerárias locais, que possibilitaram a análise de obituários em localidades específicas, nas quais os utilizadores que comentam tendem a conhecer o falecido por via do contacto físico na comunidade. O estudo reporta-se aos meses de Abril e Maio de 2021, analisando-se, de forma mais aprofundada, 30 publicações de óbitos. Da análise, surgiram diversas conclusões. Desde logo, verifica-se uma tendência para a utilização de uma “linguagem digital” por parte dos utilizadores, nomeadamente com o uso recorrente de emojis para expressar as condolências, simplificando a comunicação e introduzindo uma dimensão visual à reacção; ademais, a própria linguagem dos utilizadores – diversas vezes com um uso incorrecto da língua portuguesa – parece apontar para uma certa informalidade destes memoriais, contrastando com a formalidade existente noutros espaços de função similar. Tendo em conta uma dimensão mais sociológica, ocorre diversas vezes, nos comentários, a produção de significação social relativamente à vida do morto – com o relato de uma história, alusões à profissão ou a contributos para a comunidade, elogios à personalidade, etc. –, sendo a caracterização social, profissional ou pessoal do indivíduo produzida quase exclusivamente pelos utilizadores, e não através de um texto de obituário publicado pela agência e pela família. Já no que concerne à não associação de quaisquer perfis em redes sociais do morto, no momento da publicação do óbito, isto promove a criação de uma identidade virtual do indivíduo por parte da funerária, aspecto relevante na evolução do conceito de “mortalidade híbrida” (relação entre o físico e o virtual) e na visão destes espaços necrológicos no Facebook como pontes entre a experiência comunitária e a dimensão digital. De um modo geral, assiste-se assim a formas renovadas de produção de discursos de condolências, que poderão levar a uma reconfiguração de expectativas comunicacionais aquando da ocorrência deste tipo de acontecimentos, nomeadamente ao nível local.

Palavras-chave: Comunicação da morte; Facebook; Obituário; Funerárias; Análise do discurso.

Teletrabalho ou disponibilidade infinita Bernardo Castro (NOVA FCSH/ICNOVA)

Quando Jonathan Crary, em 2013, editou o seu livro 24/7, a questão do teletrabalho era ainda residual, circunscrita a uma pequena fação de trabalhadores e habitualmente relacionado a uma certa precariedade laboral. É óbvio que muitos outros pensadores intuíram o incrementar da velocidade (destacaria os escritos de Sloterdjik como essenciais neste aspecto), fomentada por um capitalismo cada vez mais desregulado e que deu provas do seu gigantismo em 2008 com a queda da Lehman Brothers. Aquilo a que todos nós assistimos foi o modo como esta falência se propagou por todo o sistema bancário, criando ondas de choque que levariam autores como Mark Fisher a ironizar tragicamente, «é mais fácil pensar o fim do homem do que o fim do capitalismo». Neste contexto de crise profunda, a par de uma austeridade que desde o período Thatcher-Reagan não encontrava solo tão fértil para implementar novas técnicas socioeconómicas, assistimos a uma rápida desmaterialização do sistema capitalista. Esta desmaterialização (tão evidente quando pensamos na questão do défice), teve consequências óbvias no mercado laboral e no modo como este posteriormente seria reorganizado segundo uma nova lógica de flexibilização laboral, de uma economia da atenção e na produção de bens ditos imateriais. O epíteto desta nova era deu origem à tão celebre palavra «colaborador» (palavra essa, resgatada de uma história negra de há 60 anos atrás). O colaborador, que terá um pouco mais tarde ramificação no igualmente célebre «empreendedor», redundam ambas no mesmo objectivo e significado – a maximização do antigo trabalhador. Estas palavras que verteram do léxico empresarial para dominar o léxico dos media, formaram aquilo a que Deleuze e Guattari conceptualizaram como «palavra de ordem». Sem aparente questionamento, as palavras formaram cadeias infinitas de repetições, tornando prevalente tais conceitos sobre os antigos modelos laborais. O colaborador-empreendedor não só opacificou a relação trabalhador-empregador, colocando o trabalhador no aparente lado do empregador, como capturou o corpo do trabalhador e o sujeitou à estrutura totalizante da empresa. Este novo híbrido empresarial (sendo que o próprio «trabalhador» era por si só já um outro híbrido do antigo proletário, basta atentarmos no fabuloso livro de Kracaeur – Os Trabalhadores) não veio concertar assimetrias ou aplanar lógicas verticais, pelo contrário, veio unicamente assegurar que o trabalhador se transformaria em patrão de si próprio. Tal como o preso no tão célebre panóptico foucaultiano, o trabalhador passou simultaneamente a produzir e a controlar aquilo que produz. Chegado a este ponto, o cerne da minha comunicação visa não só traçar uma arqueologia moderna do trabalho sobre a perspectiva de quem o produz, como pretende compreender como o «teletrabalhador» é por fim, o estado último do trabalhador no sistema capitalista ao mover a estrutura da empresa para o domínio privado da casa (importa salientar aqui o papel determinante dos smartphones como os aparelhos que estabeleceram esta ponte). Acredito por isso, ser fundamental pensar esta nova categoria do trabalho, na medida em que estamos perante uma das mais radicais transformações ao nível laboral desde a Revolução Industrial.
Palavras-chave: teletrabalhador, capitalismo, colaborador, empreendedor, produção