NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DI II – MH

Disrupção Informacional II: Memória(s) e História

Disrupção Política: A cobertura das eleições presidenciais na 1ª República pela revista Ilustração Portuguesa (1911-1923) Jorge Pedro Sousa (UFP/ICNOVA), Celiana Azevedo (IPSet/ICNOVA) & Fátima Lopes Cardoso (ESCS-IPL/ICNOVA) 

Em Portugal, a República foi imposta por uma revolução, a 5 de outubro de 1910. Foi um momento de disrupção política e social que originou novas e disruptivas formas de participação política. Uma delas foi a eleição por sufrágio indireto ou direto para a chefia do Estado. Passados mais de sete séculos de Monarquia dinástica, Portugal passou a ter um Presidente da República eleito. Apesar do interesse de que se reveste o estudo do comportamento da imprensa nas eleições para a Presidência, durante a I República Portuguesa (5 de outubro de 1910 a 28 de maio de 1926), trata-se de uma temática ainda não abordada na história do jornalismo português, maioritariamente, interessada em eleições presidenciais recentes. Esta pesquisa tem, pois, como objetivos: (1) descrever como a principal revista ilustrada portuguesa da I República, a Ilustração Portuguesa, cobriu as eleições presidenciais, então uma novidade política, entre 1911 e 1923; e (2) dentro de uma perspetiva hermenêutica, compreender, tendo em conta o contexto da época, as razões das escolhas e abordagens discursivas da revista. A investigação combinou uma abordagem quantitativa e qualitativa do discurso da revista, articulando a deteção, a recolha e a análise dos dados dos dois números anteriores e posteriores às datas de cada eleição e tomada de posse dos Presidentes. Mobilizaram-se, na interpretação de resultados, sobretudo os conceitos de noticiabilidade e enquadramento. Concluiu-se que: (1) as eleições presidenciais, na I República, tiveram forte repercussão na Ilustração Portuguesa, quer por causa do seu elevado valor como notícia, quer por causa do seu simbolismo político, social e cultural, à semelhança das entronizações nas monarquias; (2) o discurso da revista é tendencialmente descritivo e narrativo, raramente se tecendo na mesma qualquer tipo de comentário analítico e interpretativo que não fosse para saudar as qualidades de cada um dos novos Presidentes e formular votos de esperança num futuro melhor e mais ordeiro, facto que o contexto turbulento e disruptivo da I República, um certo desencanto público com o novo regime e o temor a eventuais represálias políticas ajudam a explicar; (3) observou-se, finalmente, a tendência de “pessoalização” do discurso, com forte recurso à fotografia de retrato.

Palavras-chave: Eleições presidenciais; I República; Portugal; cobertura jornalística; revista Ilustração Portuguesa.

Continuidade e disrupção política e social no ano de 1919: o discurso da imprensa portuguesa Helena Lima (FLUP)

O ano de 1919 significou o final da Grande Guerra e da República Nova. Contudo o fecho de ciclo não foi pacífico e sucederam-se acontecimentos de grande impacto em Portugal. Ainda abalado pelo assassinato de Sidónio Pais, o país viu o eclodir da Monarquia do Norte logo no início do ano. Ainda na primavera, surgiu uma nova vaga da Gripe Pneumónica, que embora de menor intensidade, não deixou de registar nova mortalidade e insegurança. Apesar da derrota monárquica, as hostes republicanas tardaram ainda em encontrar um modelo governativo de maior estabilidade. Estes acontecimentos a nível nacional tiveram como pano de fundo o Armistício e as consequências imediatas do pós-guerra.   Assim, 1919 foi um ano fértil em acontecimentos disruptivos e a imprensa portuguesa fez a cobertura dos factos entendidos como relevantes para o país, de acordo com critérios de noticiabilidade próprios, condicionados pelos elementos definidores do jornalismo, naquele período. A censura, as lutas sociais e a capacidade noticiosa terão tido relevância na forma como se produziram as notícias. Os acontecimentos foram categorizados de acordo com as lógicas jornalísticas da época, a sua relevância ou impacto, destacando as temáticas numa perspetiva de hierarquia jornalística. As formas mais evidentes dessa relevância, para este período, e que seriam uma tendência que viria a firmar-se do newsmaking contemporâneo, são visíveis nas chamadas à capa (valor de hierarquia máximo), o espaço e frequência dedicados aos temas, mas também as opções gráficas ao dispor das publicações da época, que conferiam às notícias elementos acrescentados de destaque, como as fotografias e outra iconografia, as opções relativas aos  títulos ou outros elementos que podiam acentuar a diferença face as outras notícias. O objetivo deste estudo é entender de que forma são visíveis estes processos de seleção e hierarquização em quatro exemplos da imprensa neste ano de 1919: Ilustração Portuguesa, A Capital, A imprensa e O Comércio do Porto. A metodologia passa por um primeiro nível de análise, a hierarquização, neste caso aferida pelas chamadas à capa e pelo volume de notícias, traduzindo o valor-notícia do tema ou a sua desvalorização (Roskos-Ewoldsen, Carpentier, 2002). Um segundo nível de análise reporta para uma categorização temática, sendo a frequência o indicador do valor-notícia. A seleção de uns acontecimentos em detrimento de outros, os fenómenos de frequência e o priming induzem no público a ideia que dados acontecimentos são mais relevantes que outros (Kiousis et al., 2006), com ênfase para determinados valor-notícia que implicam continuidade e consonância, como é o caso de cobertura de conflitos bélicos ou grandes crises internacionais, temas presentes na imprensa de 1919. Por outro lado, as notícias incluíram também maior diversidade temática, ilustrações e novos tópicos mais apelativos (Campbell, 2001), o que remete para uma componente de normalidade, distanciada dos elementos fraturantes vividos neste período.

Palavras-chave: imprensa portuguesa, continuidade, disrupção, valor-notícia

Perante o tribunal de opinião pública: a imprensa de Lisboa e a greve dos trabalhadores de jornais em 1921 José Nuno Matos (ICS-UL)

No início de 1921, uma greve de jornalistas, tipógrafos e distribuidores de jornais paralisou a produção da grande parte das publicações de Lisboa. O caderno reivindicativo apresentado pela Federação dos Trabalhadores do Livro e do Jornal, organismo afeto à Confederação Geral do Trabalho (CGT), às empresas de jornais incluíam exigências diversas, nomeadamente aumentos salariais  (Vieira 1950). A proposta seria rejeitada, decisão que conduziu a assembleia de trabalhadores dos jornais a aprovar a greve. Ao tomarem conhecimento desta deliberação, as direções dos jornais enviaram para as suas tipografias um comunicado a anunciar a suspensão da produção assim que a greve se iniciasse e, paralelamente, a publicação de “um jornal coletivo com pessoal não aderente ao movimento dos reclamantes” .


Além do período de duração da greve, a qual se prolongou durante vários meses, e do seu cariz interprofissional, a peculiaridade deste acontecimento reside, precisamente, no modo como o jornalismo foi colocado ao serviço da luta por ambas as partes. As empresas de jornais foram responsáveis pela produção d´O Jornal, fruto da coligação de A Época, O Diário de Notícias, A Pátria, O Século e A Capital, editado durante os dois primeiros meses da greve. Numa fase posterior, até ao final da greve, os esforços concentraram-se na publicação d´O Diário de Notícias e d´O Século. Do outro lado da contenda surgiu A Imprensa de Lisboa (IL), sob direção de Campos Lima, advogado e um dos mais notórios intelectuais anarquistas, e propriedade das associações de classe dos trabalhadores de imprensa, dos compositores tipográficos e dos distribuidores de jornais. Por sua vez, A Batalha, órgão de informação da Confederação Geral do Trabalho (CGT), continuou a sair à rua.


A partir de uma abordagem histórica, influenciada pelos estudos do jornalismo, o objetivo desta apresentação é analisar em que medida é que a cobertura noticiosa realizada pela IL traduziu uma estratégia no conflito com as empresas de jornais, ou seja, até que ponto é que a sua agenda mediática esteve ao serviço de uma agenda política. A par da IL, a investigação considera igualmente os exemplares d´ A Batalha editados durante a greve. Pretende-se deste modo identificar semelhanças e diferenças no trabalho noticioso realizado por diários que, à partida, partilhavam o mesmo objetivo.

Palavras-chave: Imprensa; Jornalistas; Greve; Anarquismo; Nacionalismo

Disrupções na lusofonia… ou talvez nem tanto: o discurso das revistas Ilustração Portuguesa e ABC sobre o centenário da independência do Brasil (1922) Jorge Pedro Sousa (UFP/ICNOVA) & Celiana Azevedo (IPSet/ICNOVA)

Portugal e Brasil compartilharam, até 1822, uma única história. Mas a 7 de setembro desse ano, após mais de três séculos, o Brasil proclamou a sua independência. Cem anos mais tarde, a independência do Brasil foi motivo de celebração em ambos os países. De que forma as revistas ilustradas de informação geral então em circulação em Portugal, a Ilustração Portuguesa e a ABC, cobriram o centenário da independência brasileira? Que representações e enquadramentos mediático se fizeram do Brasil? Como a imagem mediática do Brasil poderá ter-se projetado no imaginário compartilhado dos portugueses? Responder a essas questões constituiu o objetivo da investigação que aqui se apresenta.

A pesquisa apurou os enquadramentos discursivos referentes ao centenário da independência do Brasil nas revistas Ilustração Portuguesa, a principal revista ilustrada generalista de expansão nacional, e ABC – Revista Portuguesa, a primeira revista ilustrada de informação geral da I República. Para isso, foi realizada uma análise qualitativa e quantitativa do discurso de todos os números da Ilustração Portuguesa e da ABC publicados entre agosto e dezembro de 1922. A análise quantitativa centrou-se nos géneros jornalísticos e temas das matérias. A análise qualitativa incidiu nas sequências discursivas e nos exemplos iconográficos. Os dados foram interpretados desde um olhar hermenêutico e heurístico, tendo em conta o contexto histórico e sociocultural, à luz de conceitos como o de valor-notícia e enquadramento.

Concluiu-se que ambas as revistas fizeram uma cobertura pormenorizada das comemorações do centenário de independência do Brasil. O forte valor noticioso do centenário do Brasil, encarado a partir das relações entre ambos os países, explica por que razão o acontecimento foi tão amplamente repercutido nas páginas das revistas em Portugal.

As narrativas da Ilustração Portuguesa remetem para o imaginário da afinidade entre Portugal e Brasil, com os brasileiros vistos sempre como “irmãos”. Mas a perspetiva da revista é portuguesa – o Brasil é reportado sempre em relação com Portugal. Ainda que não abandone a imagem de união entre os dois países, a ABC teve uma abordagem mais centrada nos factos e crítica em relação ao Governo português.

O discurso visual teve grande destaque em ambas as revistas e contribuiu para consolidar as ideias sugeridas no texto verbal.

Palavras-chave: Centenário da independência do Brasil; cobertura jornalística; revista ABC; revista Ilustração Portuguesa.

Compreender o trabalho de Arnaldo Garcês na digressão pela moderna cultura de corrida portuguesa, para além da celebração do repórter fotográfico da Primeira Guerra Mundial Luís Camanho (FBA-UP/ID+), José Carneiro (FBA-UP) & Susana Lourenço Marques (NOVA FCSH/IHA)

Resumo (500 palavras) (objetivos, enquadramento, metodologia)
Arnaldo Garcez foi essencial na construção e consolidação da profissionalização do foto-repórter moderno em Portugal. Contemporâneo de Joshua Benoliel e Arnaldo da Fonseca, foi um dos mais proeminentes e prolíficos fotógrafos portugueses nessas décadas de fundação e imposição da fotografia através da imprensa ilustrada, interrompendo formalmente com o pictoralismo dominante e permitindo a observação de reminiscências da nova urbanidade em todas as suas dimensões.

Na historiografia, Garcez é profundamente celebrado — ao mesmo tempo de forma quase restrita —, com o corpo de trabalho realizado ao serviço do Corpo Expedicionário Português, cobrindo as tarefas militares da divisão de instrução, desde a sua preparação e embarque à participação na Flandres durante Primeira Guerra Mundial.

Nesta comunicação, que utiliza como ponto de partida o resgate de iconografia e narrativas dos primórdios da história e da memória do atletismo português percorremos de forma convenientemente orgânica uma parte muito específica da obra deste autor, através de uma investigação em desenvolvimento que articula informalmente e reciprocamente arquivos públicos e arquivos privados. Reinscreve-se Arnaldo Garcez na História da Fotografia como criador lúcido e diligente que consente consistentemente a observação de reflexos e instantes primeiros da cultura de corrida, esse fenómeno social total, assumindo correspondências diretas com a História da Cultura Visual em Portugal.

Esta investigação desenvolve-se no âmbito do Programa Doutoral em Design da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, tutelado pela Unidade ID+ (Instituto de investigação em Design, Media e Cultura).

Palavras-chave: Arnaldo Garcez; História da Fotografia; Cultura de Corrida; Cultura Visual

Imprensa portuguesa entre 1968 e 1976: mercado e contextos Suzana Cavaco (FEP-UP/CITCEM)

No fim do regime autoritário autodenominado de Estado Novo, o mercado da imprensa diária portuguesa sofreu um movimento de concentração de propriedade, protagonizado por grandes grupos económicos/financeiros, numa lógica de instrumentalização dos media (Cavaco, 2012), que de acordo com Hallin e Mancini (2004) é relativamente vulgar nos países mediterrânicos do sul da Europa. Com a instauração do regime democrático, esses jornais acabaram estatizados em 1976, na sequência da nacionalização da banca e companhias de seguros por decisão do Conselho da Revolução. Maria Antónia Palla recorda esse tempo em que, por um lado, “o movimento laboral, na sua esquerdização progressiva após o 28 de Setembro [de 1974], criou em algumas empresas situações que determinaram a intervenção do Governo”; e que, por outro lado, “os governos privilegiavam o conceito de controlo político através da informação, o que acabaria por causar uma imensa perturbação nas regras do negócio” (1990: 274-5).

A presente comunicação propõe-se traçar o panorama da imprensa portuguesa nos primeiros anos do regime democrático (1974-1976), comparando-o com a evolução da situação económica e financeira  das empresas jornalísticas ocorrida no tempo da governação marcelista (1968-1974). Para tal, seguimos o modelo de organização industrial, estudando: o mercado (seu desempenho e estrutura); o comportamento estratégico das empresas (nomeadamente fusões horizontais e fusões verticais); e a regulação, que é uma das condições exógenas (ou forças externas) ao funcionamento do mercado. Enquadramos a realidade portuguesa em várias dimensões dos três sistemas de media  analisados por Hallin e Mancini (2004): “intervenção estatal”, “paralelismo político” e “indústria de imprensa de massa”. Enquadramos também no contexto económico nacional e internacional.

O estudo assenta sobretudo no recurso à análise documental de relatórios e contas das empresas. Atende-se também à legislação e outras disposições relativas à imprensa portuguesa, em vigor nos diferentes momentos no período aqui em análise.

De entre as principais conclusões, podemos apontar:

  • o regime democrático “herda” um conjunto de empresas media com resultados líquidos negativos;
  • e o ambiente agitado vivido nos primeiros anos de democracia não foram favoráveis ao desempenho económico das empresas deste setor.

Este estudo visa contribuir para um aprofundamento do conhecimento e compreensão da imprensa, enquanto negócio sujeito a diversos constrangimentos.

Palavras-chave: imprensa; jornais; democracia; nacionalizações; Estado Novo

“Quem tem medo da liberdade?” A Seara Nova e o PREC (1974-75) Pedro Marques Gomes (ESCS-IPL)

Quando ocorre o 25 de Abril de 1974 e a ditadura é derrubada em Portugal, a edição da Seara Nova relativa ao mês de maio já se encontrava praticamente pronta. Confrontados com o curso dos acontecimentos, diretor e redação decidem recomeçar do zero e preparar um novo número, com conteúdos que refletissem a nova realidade política vivida no país.


“Órgão de doutrina e crítica, a ‘Seara Nova’, liberta da censura e da violência policial, estará presente no processo político como sempre o esteve enquanto foi vítima do arbítrio fascista”, anunciava a revista no editorial de maio de 1974, deixando assente que continuará a intervir politicamente, agora com as possibilidades que a nova conjuntura abria.


Com esta comunicação pretende-se compreender como a Seara Nova atravessou o conturbado Processo Revolucionário em Curso (1974-1975). Analisam-se os conteúdos da revista e como estes foram evoluindo ao longo desses meses, mas também as várias controvérsias que rodearam a Seara Nova, designadamente a nível interno, de que é exemplo o episódio que envolveu a demissão do diretor, Rodrigues Lapa.


Assim, procuramos contribuir para um melhor conhecimento sobre a imprensa na Revolução e, muito em particular, acerca da Seara Nova, fundada em 1921, assinalando-se, precisamente este ano, o seu centenário. Entre as várias conclusões que iremos destacar encontram-se a elevada politização da revista, a existência de clivagens entre os seus colaboradores e as várias polémicas que suscitou.

Palavras-chave: Revolução; Liberdade; Imprensa; revista; 1974-1975

Revista sonora, uma voz não alinhada na rádio cabo-verdiana no período final do colonialismo Ana Isabel Reis (UP/CITCEM)

O cenário radiofónico de Cabo Verde na era colonial teve particularidades que o distinguiram das restantes colónias portuguesas. O arquipélago não possuía rádios de propriedade e gestão portuguesas. As três emissoras que existiram nasceram da iniciativa privada cabo-verdiana, no seio de uma elite local culta ou que fazia parte das esferas do poder administrativo colonial.  Eram assumidamente rádios “de cabo-verdianos para cabo-verdianos”, conforme reconhecem alguns relatórios da PIDE, a policia politica portuguesa, que referiam que as rádios não constituíam “um meio perigoso de doutrinação política” que colocasse em causa os interesses de Portugal. Esta perceção estendia-se aos noticiários. A partir de Lisboa, a Agência Press Lusitânia enviava para as rádios as notícias da metrópole e do Ultramar, do desporto e do estrangeiro. A informação local era produzida pelas próprias emissoras e passava pelo crivo da PIDE.  O noticiário sobre o arquipélago era escasso e resumia-se, em grande parte, à atividade da administração portuguesa.

No âmbito da informação local, além dos noticiários, a Rádio Barlavento apresentava semanalmente o “semanário de atualidades” Revista Sonora, que se afirmou desde o inicio na grelha de programação da Barlavento (Gonçalves, 2019) e se manteve em antena até à independência, apesar de sofrer algumas interrupções. O programa abordava temas da atualidade e problemas que afetavam a população e o arquipélago, sendo especialmente crítico em relação à administração portuguesa em Cabo Verde a quem apontava falhas e alguma inércia.


Nesta comunicação propomos traçar o perfil editorial do programa Revista Sonora da Rádio Barlavento na última década do período colonial. Nesse sentido, foram consultadas as transcrições dos programas que estavam disponíveis em vários arquivos e alguma correspondência trocada entre a PIDE de Mindelo e a de Lisboa referente ao programa ou ao seu autor.


O que concluímos é que a Revista Sonora é, marcadamente, uma voz critica em relação ao poder colonial, mas também em relação à população nativa. O programa contraria o tom do noticiário local das rádios cabo-verdianas que faziam a apologia da administração portuguesa e remetiam para um papel secundário a realidade do arquipélago. Assim, podemos concluir que a Revista Sonora, na última década do período colonial, revelava uma visão não alinhada com a oficial sendo uma das vozes mais conceituadas na rádio Barlavento.

Mulheres portuguesas que reportam a guerra: perfis, experiências e problemas (1969-2020) Ana Catarina Simões (ESCS-IPL) & Filipa Subtil (ESCS-IPL/ICNOVA)

Até aos anos de 1980, a presença das mulheres no jornalismo português foi diminuta e o trabalho por elas realizado praticamente invisível. É a partir dessa década que mulheres jovens e com escolaridade ao nível da licenciatura, em particular nas áreas da comunicação e do jornalismo, começam a chegar em massa às redações dos principais meios de comunicação, contribuindo, desde então, para uma reconfiguração de género, etária e de qualificações sem precedentes desta atividade profissional. Todavia, este processo não ocorreu de forma idêntica em todas as áreas do jornalismo. Editorias há que, passados 40 anos, continuam a ter uma composição de género profundamente desequilibrada. A reportagem em zonas de conflito, o fotojornalismo e o jornalismo desportivo são apenas três dos casos onde a presença de mulheres continua a ser residual. Esta realidade não é específica do contexto jornalístico português. Veja-se, a título de exemplo, o caso do fotojornalismo: um inquérito realizado, em 2015, aos concorrentes do prémio da World Press Photo, revelava que 85% dos candidatos eram homens. As razões elencadas para esta exclusão são múltiplas, mas a maior parte aponta para características específicas de homens e mulheres que os tornariam mais ou menos aptos para fazer reportagem em certos contextos e circunstâncias.


Analisando o caso específico da reportagem de guerra, o objetivo principal desta comunicação é dar a conhecer o perfil de algumas das poucas mulheres jornalistas portuguesas que, ao longo dos últimos 50 anos, tiveram oportunidade de reportar conflitos bélicos. Através de uma estratégia metodológica de matriz qualitativa, que combinou recolha de informação documental e não documental (entrevistas não diretivas), traçámos o perfil biográfico e profissional de 5 dessas jornalistas.

Concluiu-se que todas têm presente a excecionalidade das oportunidades que tiveram; e que, apesar das incompreensões, quer por parte das famílias, mas também das chefias e colegas de profissão, das dificuldades e discriminações de que foram alvo, voltariam a fazer tudo de novo porque consideram que a sua condição de mulheres lhes permitiu oferecer aos leitores/telespectadores outros ângulos de abordagem de realidades tão dramáticas e contraditórias.

Palavras-chave: Jornalistas; Mulheres Repórteres de Guerra; Portugal; Percursos biográficos e profissionais; Conflitos