NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DI IX – MTD

Disrupção Informacional IX: Momentos & Temas Disruptivos

Dos rapazes da rádio” ao direito à palavra ‘jornalista’: a formação e a profissionalização dos jornalistas radiofónicos em Portugal Cláudia Henriques (UM/CECS)

Na década de 1960, o Rádio Clube Português (RCP) inaugura o Serviço de Noticiários, liderado por Luís Filipe Costa. Este projeto jornalístico traz à rádio uma nova linguagem de informação, uma outra estética sonora, e uma dinâmica informativa que exige noticiários em permanência. É criada uma equipa de “noticiaristas” que, ao contrário do que até então era comum na Emissora Nacional, já não se vão limitar a recortar e a ler ao microfone as notícias dos jornais. São profissionais que trabalham por turnos, vão para o terreno, escrevem as notícias que leem, e desenham práticas e rotinas próprias de uma redação de rádio. No entanto, só depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 estes profissionais alcançariam o estatuto pleno de jornalistas, com formação específica e acesso à estrutura sindical dos jornalistas.    
Nesta comunicação, partindo deste pressuposto de vitalidade e de emergência de um jornalismo radiofónico com uma linguagem e identidade específicas nas décadas de 1960 e 1970, indagamos sobre os percursos de institucionalização da formação e da profissão de jornalista radiofónico em Portugal. Fazemo-lo através de testemunhos recolhidos ou publicados de profissionais da informação da rádio à época, e da análise qualitativa de publicações periódicas e de documentos de arquivo. Refletimos sobre o perfil dos profissionais, o modo de entrada na profissão, as rotinas e práticas na sedimentação de um saber, a evolução da formação disponível e a integração no meio sindical. Concluímos que foi longo e sinuoso o caminho que os jornalistas da rádio tiveram de percorrer para alcançar um estatuto profissional semelhante aos jornalistas da imprensa, e que na construção histórica da profissão de jornalista radiofónico o projeto informativo do RCP teve influência.

Palavras-chave: Jornalistas radiofónicos; jornalismo radiofónico; formação; profissionalização; história da rádio

O modelo disruptivo de informação radiofónica: o caso do curso de formação de jornalistas da TSF  Luís Bonixe (IPP/ICNOVA)

A rádio TSF é o resultado da liberalização do setor radiofónico português ocorrido no final da década de 1980. O projeto surgiu da iniciativa de um conjunto de profissionais da rádio que pretendiam criar uma emissora virada para o jornalismo e que rompesse com o modelo de informação na rádio que predominava no país até então. A proposta passava pela criação de uma rádio de cariz informativo, na qual o relato em direto assumiria um papel determinante. Até à obtenção da licença para emitir, a TSF foi criando a sua estrutura, e em 1987 promoveu um curso de formação de jornalistas e locutores de onde sairiam os primeiros profissionais da rádio. Esse curso durou seis meses e teve como objetivo a criação de um modelo de fazer jornalismo na rádio distinto daquele que se praticava em Portugal até então. O curso foi idealizado por Emídio Rangel, um dos fundadores da TSF e o seu primeiro diretor, em conjunto com Adelino Gomes.


O curso é ainda hoje visto como um marco na formação de jornalistas de rádio em Portugal tendo criado as bases para o estilo de informação praticada na TSF e que ajuda a explicar os modelos de cobertura jornalística adotados pela estação em grandes momentos informativos. O primeiro desses momentos acontece ainda com a TSF na qualidade de rádio pirata e consistiu na cobertura em direto do incêndio do Chiado, no dia 25 de agosto de 1987. A cobertura feita ao Bloqueio da Ponte 25 de Abril, em 1994 ou a emissão de cem horas em contínuo dedicadas a Timor Leste, em 1999, são alguns dos momentos informativos que conferiram “à TSF notoriedade pública” (Proença, 2006, p. 245).
Em todos estes momentos, a TSF decidiu fazer emissões especiais de cobertura em direto, de modo contínuo e nalguns casos sem a emissão de publicidade ou música, o que configurou um modelo inovador de jornalismo radiofónico no contexto português.
Para este modelo, o curso de formação foi “a semente que deu a geração TSF” (Santos, 2008, p. 18), na medida em que preparou os profissionais “para o desenrascanço, preparou-nos para o improviso, para a adrenalina da rádio. Fomos trabalhados para escrever, estar em direto (Elisabete Caramelo, comunicação pessoal, 2021, maio 15).
A presente proposta pretende, a partir da bibliografia disponível e de entrevistas a formadores e formandos, revisitar o curso de formação de jornalistas da TSF realizado em 1987, procurando identificar marcas daquilo que viria a ser denominado de “estilo TSF” e, assim, refletir sobre o carácter disruptivo deste modelo no contexto do jornalismo radiofónico português.

Palavras-chave: Rádio; TSF, Formação; Jornalistas

Criação do Público: uma “onda de choque” na imprensa portuguesa Joaquim Fidalgo (UM/CECS)

O lançamento do jornal diário PÚBLICO, em março de 1990, foi mais do que a simples criação de um novo título de imprensa a somar aos vários então existentes.  No ambiente muito particular da realidade portuguesa, em que a informação jornalística mais qualificada e mais influente se circunscrevia sobretudo aos jornais semanários (Expresso, O Jornal, Independente, Semanário, Tempo), o surgimento do PÚBLICO provocou uma onda de choque no envelhecido e acomodado segmento dos jornais diários.  As repercussões fizeram-se sentir a breve trecho, quer entre os principais jornais nacionais (cujo empenho num maior dinamismo informativo e na modernização do “lay out” gráfico depressa se tornou evidente), quer até nas condições laborais dos jornalistas portugueses (cujos salários sentiram uma acentuada valorização, dado o “efeito de contágio” provocado pela oferta superior nas contratações do PÚBLICO). A proposta editorial do novo jornal – que buscara inspiração nalguns dos mais conhecidos jornais diários europeus de referência, como El País (Espanha), Libération (França), La Repubblica (Itália) ou The Independent (Reino Unido) – traduzia-se num conjunto de novidades, das quais podemos destacar: a aposta em duas redações e duas edições diferenciadas (Lisboa e Porto), correspondendo às metades Norte e Sul do país; um modelo gráfico moderno, com utilização de cores na primeira página e com uma grande disciplina de “design”; uma clara valorização da fotografia, por relação com o texto; uma abordagem informativa da atualidade em moldes transversais, com cruzamento entre diferentes áreas temáticas (concretizado na publicação diária de um “Destaque” convocando diversas secções); uma aposta forte em domínios tradicionalmente menos cobertos pela imprensa diária portuguesa, como a informação internacional, a cultura ou a ciência; um enfoque especial na necessidade de interpretar e contextualizar o noticiário do dia-a-dia, transferindo para o jornal diário um tipo de abordagem tradicionalmente mais associado ao jornal semanário.

Nesta comunicação pretendemos: (1) situar o lançamento do jornal PÚBLICO no ambiente político, cultural e mediático que se viveu em Portugal no final dos anos 1980, com particular incidência no panorama da imprensa escrita; (2) analisar as principais novidades e mudanças trazidas pelo novo título ao conjunto dos jornais portugueses, bem como ao grupo profissional dos jornalistas; (3) discutir as consequências destes movimentos na generalidade dos meios de comunicação portugueses da época, bem como as suas repercussões na evolução subsequente da imprensa do país. Pretendemos, por outro lado, refletir sobre a situação presente da imprensa portuguesa, à luz das mudanças desencadeadas no início da década de 1990 e continuadas com a transição para a era digital na viragem do século.

Palavras-chave: PÚBLICO; imprensa; jornais diários; jornais semanários; jornalistas.

Do papel ao digital: para a história dos mercados da imprensa portuguesa (1994-2021) Suzana Cavaco (FLUP/CITCEM)

A imprensa opera, em geral, num modelo de negócio “plataforma multilateral” (Osterwalder & Pigneur, 2010), dirigindo-se simultaneamente ao mercado do consumidor (ao vender bens de conteúdo) e ao mercado do anunciante (ao vender acesso às audiências) (Picard, 1989). No digital, podemos estar também perante padrões “freemium” (Osterwalder & Pigneur, 2010). Seja como for, quando um operador media opera num padrão de mercado multilateral (em que há uma proposta de valor para cada tipo de cliente), o desempenho num dos mercados tende a afetar o desempenho no outro. A presente comunicação propõe-se estudar os mercados do consumidor e os mercados do anunciante, desde meados dos anos 90 do século XX, relativos a vários segmentos da imprensa portuguesa de dimensão nacional em suporte de papel e a sua receção no digital.

Para tal, e recorre à análise documental. Explora os valores da circulação paga e os valores do investimento publicitário. Compara por um lado, os desempenhos no papel e no digital; e por outro, os mercados de imprensa de informação geral (diários, semanários e revistas semanais) e os mercados de revistas semanais de sociedade, femininas, e de televisão. Presta atenção ao mercado das empresas de distribuição de publicações periódicas, relacionando-o com a circulação geográfica. Contextualiza os desempenhos (tanto no mercado da publicidade como no do mercado do consumidor) na economia portuguesa em termos de PIBpc. Enquadra a realidade portuguesa numa das dimensões dos  três sistemas de media  analisados por Hallin e Mancini (2004): “indústria da imprensa de massa”.

O estudo explora várias fontes, de entre as quais, os boletins informativos da Associação Portuguesa Para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT) e os Anuários Meios & Publicidade da Marktest.

Duas das conclusões que se podemos apontar são:

  • o digital, apesar de representar menos custos e de facilitar o acesso ao produto, não tem vindo a compensar a perda de receitas provenientes da edição em papel, quer em termos de publicidade quer termos de circulação paga;
  • e a alta concentração no mercado da distribuição de publicações poderá ser interpretada como indicador de um mercado leitor exíguo, logo pouco atrativo.

Este estudo visa contribuir para um melhor conhecimento do percurso da imprensa portuguesa num tempo marcado por profundas alterações nos hábitos de consumo.

Palavras-chave: Imprensa; plataforma multilateral; publicidade; Distribuição

Música de intervenção na frente de combate – sugestões dos jornais de unidade na guerra colonial portuguesa Jair Rattner (NOVA FCSH/ICNOVA)

Durante a guerra colonial portuguesa (1961-1974), as unidades militares colocadas nos vários teatros de operações publicavam jornais periódicos com o objetivo de desenvolver o patriotismo, o espírito de sacrifício e criar o sentimento de pertença a algo maior, a nação. Trata-se de uma tradição militar que vem desde o século XVIII – os primeiros jornais de trincheira ou jornais de soldados conhecidos são da guerra da independência dos Estados Unidos e das guerras napoleônicas. Em Portugal, concebidos como parte da ação psicológica da guerra, esses jornais na sua maioria eram mimeografados, ainda que houvesse alguns impressos e outros manuscritos, que funcionavam como jornais de parede. Feitos apenas durante o período de destacamento nas antigas colônias, a maioria tentava ter periodicidade mensal. O número de jornais é incerto. Atualmente, apesar de haver uma menção à existência de 356 jornais de unidade encontram-se disponíveis 242 títulos na Biblioteca do Exército. Uma das características dessas publicações é que não era submetida à censura prévia, ao contrário do que acontecia com as publicações destinadas ao público civil. Na área cultural, sendo publicações criadas com o fito de uniformizar os soldados a favor do regime, no campo musical seria de se esperar que as sugestões para soldados que defendiam a integridade do império colonial fossem voltadas para o que se costumou chamar nacional-cançonetismo, com nomes, como António Calvário, Madalena Iglesias, Alice Amaro ou Maria da Graça. No entanto, no levantamento dos jornais de unidade encontram-se vários que propõem aos soldados ouvirem expoentes da música de intervenção portuguesa, como Zeca Afonso, José Mário Branco e Adriano Correia de Oliveira. Também nas recomendações de cantores de fora de Portugal, surgem nos jornais militares nomes que mostram que os soldados que combatiam nas ex-colônias portuguesas estavam em sintonia com o que acontecia no mundo. Assim, há sugestões de músicas de Chico Buarque – um dos expoentes da música dos que se opunham à ditadura brasileira – e os norte-americanos Bob Dylan, Janis Joplin entre outros que se posicionaram contra a guerra do Vietnã.  São indicações musicais que podem ser consideradas um sinal da ruptura que fez com que os militares que combatiam nas ex-colônias fossem os protagonistas da derrubada do regime português em 1974.

Palavras-chave: jornais de unidade; música de intervenção; guerra colonial

O jornalismo radiofónico nos anos 80: ruturas e continuidades Ana Isabel Reis (UP/CITCEM)

A revolução de 1974 trouxe profundas alterações ao setor da radiodifusão. No período pós-revolucionário subsistiu um cenário que praticamente ficou reduzido à emissora católica e à empresa publica de radiodifusão. Este duopólio contrastava com o panorama do setor na Europa onde o movimento das rádios livres ou piratas foi ganhando expressão desde os anos 60. Os ecos do que acontecia lá fora acabaram por se materializar ainda na década de 70, mas só nos anos 80 se viria a verificar o verdadeiro boom das piratas em Portugal. Ao longo da década as novas emissoras que emitiam à margem da lei encontraram o seu espaço e afirmaram-se como porta-vozes das populações. As rádios piratas foram fruto de um contexto único económico, político, mediático, social e cultural que espelham o país dos anos 80. E a história das rádios locais tornou-se indissociável do processo de evolução democrático e num contexto de amadurecimento da jovem democracia portuguesa (Azevedo, 2001; Bonixe, 2012). Entre as centenas de rádios que emitiram em todo o país há exemplos de rádios amadoras, rudimentares e voluntaristas, de projetos mais estruturados, e de rádios inteiramente profissionais que não se reviam na classificação de rádios piratas e se afirmaram como concorrentes das rádios nacionais. Se algumas reproduziram o que ouviam nas estações nacionais, outras romperam com os cânones estabelecidos e inovaram. De alguma forma todas contribuíram para outra conceção de fazer rádio e jornalismo. Essas mudanças não surgiram espontaneamente apenas na década de 80 e no palco das emissoras ilegais, tiveram raízes nos anos 60 e 70 nas rádios nacionais. Os profissionais que as protagonizaram lideraram projetos que correspondiam ao que acreditavam e sonhavam ser uma rádio e um radiojornalismo diferentes do que se ouvia nas ondas hertzianas nacionais. Os estudos feitos até agora evidenciam um marco antes e pós piratas (Santos; Ribeiro; Cordeiro; Bonixe; Carvalho; Oliveira; Costa e Silva; Azevedo; Cerejo; Reis). Assim, partimos da premissa de que nos anos 80 o jornalismo radiofónico mudou fruto de uma conjugação de fatores. O que mudou e como? – São as questões às quais pretendemos responder. Nesse sentido, foi efetuada uma revisão bibliográfica do tema, consultados jornais desse período, e também reportagens, entrevistas e documentários publicados posteriormente.  Foram também realizadas entrevistas a profissionais que, na época, integraram os projetos piratas. Esta recolha de dados permitiu identificar ruturas e continuidades no jornalismo radiofónico nos anos 80 agrupadas em oito pontos que nortearam os profissionais da rádio.

Palavras-chave: Rádios piratas; jornalismo radiofónico; jornalismo de proximidade; rádio local