NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM – DI V – GF

Disrupção Informacional V: Géneros e Formatos Jornalísticos

Jornalismo independente, alternativo ou disruptivo? Os casos Fumaça e Divergente Luís Bonixe (IPP/ICNOVA)

As tecnologias de comunicação, e em particular a Internet, vieram transformar o cenário mediático em diversos dos seus domínios, desde a sua expressividade, modelos organizativos, modos de produção ou rotinas profissionais.

Para os meios tradicionais, o desafio coloca-se no processo de migração para as novas plataformas, implicando isso a reestruturação da própria organização, para além dos processos e dinâmicas dos profissionais. Por outro lado, a emergência de um conjunto de plataformas tem permitido o aparecimento de projetos jornalísticos, nativos online, que se apresentam como espaços de inovação, quer do ponto de vista da narrativa, das ferramentas utilizadas ou dos modelos de financiamento. Esta dimensão empreendedora do jornalismo, ao mesmo tempo que introduz uma nota de otimismo na narrativa do jornalismo em crise, não deixa, ainda assim, de colocar algumas interrogações.

Desde logo aquela que Natalie Fenton (2009) propõe e que se resume em se saber se a existência de mais espaços para a difusão de conteúdos informativos significa, de facto, um aumento de mais temáticas e/ou vozes no espaço mediático.

A questão não é nova e, na realidade, tem-se multiplicado em vários outros contextos. Por exemplo, os estudos radiofónicos viram a emergência das rádios livres na Europa (Eco, 1981; Guattari, 1981) como uma espécie de salvação dos media que deixariam de estar nas mãos dos grandes grupos económicos, permitindo assim que as comunidades se expressassem através dos meios de comunicação. A realidade, incluindo em Portugal, mostrou-nos um cenário ligeiramente diferente, pois muitos desses projetos “comunitários” acabaram por não sobreviver à tirania do mercado publicitário (Bonixe, 2019).

A questão é, por isso, retomada agora com a possibilidade de criação de espaços jornalísticos na Internet que se auto intitulam como independentes, livres ou alternativos. Em que medida estes espaços se diferem das práticas jornalísticas já existentes?

Susan Forde (2009), num tom interrogativo, reflete justamente sobre a necessidade de clarificação de práticas de jornalismo diferenciador dos modelos tradicionais, colocando a questão “What’s so alternative about alternative journalism?”. Já Atton (2003) sublinha que a prática do jornalismo alternativo está relacionada com uma maior responsabilidade social, é inclusivo e privilegia as pessoas. O jornalismo alternativo será, também, um espaço para a enunciação de temáticas menos tratadas nos media convencionais.

A presente comunicação pretende refletir sobre os modelos de jornalismo adotados por dois projetos portugueses, Fumaça e Divergente, que se assumem como diferenciadores da prática jornalística em Portugal. A Divergente, uma revista online, pretende “contar histórias que revelam silêncios” assumindo-se como um projeto de jornalismo narrativo. Já o Fumaça assume-se como um projeto “independente, progressista e dissidente”.

O nosso estudo, assumindo um carácter exploratório, pretende contribuir para uma reflexão sobre a prática de modelos de jornalismo diferentes dos ditos “tradicionais” a partir da observação e análise de conteúdo das notícias publicadas no Fumaça e na Divergente.

Palavras-chave: Jornalismo; Alternativo; Ciberjornalismo.

Vivacidade: relato de projeto de jornalismo de proximidade na Beira Interior Giovanni Ramos (LABCOM-UBI)

Seria um jornal de proximidade o melhor meio para um turista conhecer detalhes sobre a região de destino? O público-alvo de um jornalismo voltado ao turismo pode ter incluso também, os moradores locais? Foram estas as questões iniciais que levaram um grupo de estudantes de doutoramento em Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI) a produzir o projeto Vivacidade. O objetivo foi criar um meio de comunicação que falasse ao mesmo tempo com turistas e moradores sobre cultura, arte, desporto, história, entre outros temas ligados ao lazer da localidade onde o meio estava inserido. O primeiro produto foi intitulado Viva Covilhã, lançado em 12 de setembro de 2019, incubado no Re/media.Lab – Laboratório e Incubadora de Media Regionais, projeto do LabCom/UBI. O segundo, Viva Serra da Estrela, integrado em rede ao Viva Covilhã, foi lançado em 30 de dezembro de 2019, um guia digital sobre o parque natural.


Esta comunicação é um relato da experiência prática dos membros da equipa durante os meses de junho de 2019, quando o projeto Vivacidade começou a ser planeado e janeiro de 2020, quando o Viva Covilhã foi repassado a um investidor que registou como órgão de comunicação social regional, hoje chamado de Viva Serra (www.vivaserra.pt).


A comunicação é dividida em quatro partes. Inicialmente, apresenta-se a revisão de literatura que levou ao desenvolvimento do projeto prático: as teorias sobre jornalismo de turismo (Brandão, 2005, Maldos & Brasileiro, 2015), jornalismo de proximidade (Jerónimo, 2015, Camponez, 2017), novos modelos de negócios na comunicação (Anderson et Al, 2012, Costa, 2014, Witschge e Deuze, 2015, Carlson e Usher, 2015).


A segunda parte apresenta o projeto Vivacidade em quatro eixos: contexto regional da Beira Interior e do Re/media.Lab, proposta editorial, proposta institucional e equipa. Na terceira parte são apresentados os relatos de como o projeto foi colocado em prática, desde os problemas encontrados e as soluções desenvolvidas. Inclui-se o calendário de atividades estabelecido e as ações realizadas no período entre junho de 2019 e janeiro de 2020 de cada participante.
Por último, são apresentados os resultados do projeto: repercussão, números de audiência e a transformação do projeto em órgão de comunicação social regional da Beira Interior. O Viva Serra é hoje uma revista digital da Beira Interior que funciona independente do Re/media.Lab e dos criadores do projeto Vivacidade.

Palavras-chave: jornalismo de proximidade, turismo, modelo de negócios

Um programa de rádio alternativo para tratar da agricultura de proximidade Cynthia Luderer (UM) & Caroline Sotilo (ESPM-SP)

Este trabalho, de caráter exploratório, tem o propósito de aferir sobre O som é a Enxada, um programa da Rádio Manobras, canal de comunicação alternativo, virtual, movido por voluntários da região do Porto. Dentre os mais de cem episódios produzidos desde 2015 dedicados aos temas vinculados à agricultura de proximidade, foram selecionadas para este estudo as pautas vinculadas à AMAP (Associação pela Manutenção da Agricultura de Proximidade). Das várias plataformas de podcast nas quais o programa pode ser acessado, a Mixcloud foi a escolhida para recolher os 31 programas selecionados que explicitavam o # AMAP. Amparado nesse repertório, este trabalho se propôs a responder a seguinte questão: Como as estratégias comunicacionais desses episódios convocam um público mais amplo para disseminar o conceito da AMAP? Para alcançar respostas para essa pergunta, foram selecionadas e averiguadas algumas informações quantitativas com o propósito de organizar uma planilha de dados com: a quantidade de plays de cada episódio; as hashtags destacadas; a duração dos programas; e o levantamento das palavras mais usadas com base no texto apresentado a cada episódio. Em termos qualitativos, foram somados aos dados o repertório de uma entrevista, elaborada com um membro do programa, e as próprias mensagens emitidas nos 31 episódios, os quais foram analisados sob a luz da análise do discurso e da semiótica da cultura. Esse aporte teórico metodológico auxiliou a compreender a construção narrativa expressa nos episódios, assim como perceber as nuances do programa como um texto da cultura, no qual estão inseridos agentes, vozes discursivas e memórias. Diante o tema abordado, que contempla aspectos econômicos e sociais, a Rádio Manobras, por seu caráter alternativo e de resistência frente a pautas hegemônicas dos media, destaca-se por sua prática disruptiva na curadoria da informação, contribuindo para um jornalismo de proximidade e crítica às questões ambientais. Frente ao digital e seus desafios, os media regionais e comunitários, ampliam suas possibilidades de comunicação, acesso e interação, rompendo a lógica das grandes corporações midiáticas, mesmo que a passos lentos. Sendo assim, as primeiras observações deste estudo levaram às seguintes considerações: da ausência de interatividade na plataforma examinada, indicando, entre outros pontos, que as estratégias comunicacionais aplicadas pelo programa atendem a um público restrito, mais especificamente, direcionado aos agentes vinculados à AMAP; no mais, a programação se mostra coerente com a vinheta “registos e conversas sobre a agricultura de proximida-de”, pois apresenta, e demonstra o interesse de ter no programa uma fonte de registo. Desse modo, ao pensar na linguagem como um código, a análise indica que os agentes do programa a usam para sedimentar uma comunicação interna, inibindo novos agentes de se apropriarem das mensagens divulgadas no curso da programação.

Palavras-chave: AMAP, Som é a Enxada, Rádio Manobras, media regionais e comunitários, estratégia comunicacional

Jornalismo Infantojuvenil: produção de informação especializada e segmentada para crianças contemporâneas Ana Cátia Ferreira (FCSH-UFP)      

Esta proposta de trabalho concentra-se numa das maiores problemáticas da contemporaneidade: o papel do jornalismo infantojuvenil como produto jornalístico, onde os media são agentes ativos na construção social. Os jornalistas surgem como profissionais de um produto de consumo para crianças contemporâneas, sendo fundamental uma adaptação de discursos, práticas e formatos, sem abandonar os princípios tradicionais do jornalismo.  
Temos assistido a uma evolução de estudos em Portugal sobre as formas de consumo dos media por parte das crianças e dos seus respetivos efeitos, mas esta pesquisa coloca a tónica na produção da informação veiculada. Entende-se que se deve ir ao início da cadeia deste processo.


Esta problemática está a ser investigada para a tese de doutoramento intitulada “Jornalismo Infantojuvenil: produção de informação especializada e segmentada para crianças contemporâneas”, que tem por objetivo geral identificar o jornalismo infantojuvenil enquanto prática jornalística, através do conhecimento e da compreensão de como os jornalistas se relacionam com este produto enquanto emissores legítimos de um produto para as crianças contemporâneas. A partir deste objetivo definiram-se objetivos específicos: a) estabelecer um conceito operativo de jornalismo infantojuvenil; b) inventariar, caraterizar os produtos de jornalismo infantojuvenil existentes em Portugal quanto aos temas, linguagens e processos produtivos; c) contribuir para o conhecimento de uma produção jornalística de qualidade para crianças contemporâneas; d) observar as eventuais relações de complementaridade entre os produtos jornalísticos analógicos e digitais para crianças.


Tendo em conta o estado da questão, na qual pontuam os trabalhos de Matthews (2010) e Carter & Messenger Davies (2009), propuseram-se as hipóteses de partida: 1. A produção de informação para as crianças tem valor jornalístico ao estar enquadrada nos critérios jornalísticos e ser produzida por jornalistas; 2. O jornalismo infantojuvenil não tem subjacente a conceção de criança contemporânea na produção do produto; 3. Não há preocupação no investimento em espaços de informação concebidos para o público infantojuvenil, apesar de se reconhecer que constituem uma importante fonte de informação; 4. As limitações de equipa e a falta de conhecimento especializado são uma barreira para a produção jornalística para as crianças; 5. Os produtos jornalísticos infantojuvenis não trabalham os canais analógico e digital como complementares para a segmentação dos consumidores.


Conforme sugere Günther (2006) serão combinadas técnicas qualitativas e quantitativas para a recolha e análise de dados e teste de hipóteses. Desde um ponto de vista qualitativo, serão empregues a entrevista em profundidade e a observação não participante. Para a aplicação da entrevista, considerar-se-á o contributo de Bauer e Gaskell (2002), autores que destacam o contributo fundamental da entrevista para a elucidação de aspetos pouco claros do objeto de pesquisa; para a observação participante, seguir-se-á Sandiford (2015), que destaca o contributo desta técnica. Usar-se-á, ainda, a análise qualitativa do discurso, fundada na teoria da interpretação, ou hermenêutica, de acordo com Ricoeur (1999). Na dimensão quantitativa, far-se-á uma análise de conteúdo à revista Visão Júnior e ao noticiário Radar XS da RTP, com base em categorias criadas a priori e, se necessário, redesenhadas ao longo da investigação, seguindo as etapas de Sousa (2006).

Palavras-chave: Jornalismo Especializado; Jornalismo Segmentado; Jornalismo Infantojuvenil; Produção Jornalística; Criança Contemporânea

Convergência, jornalismo e entretenimento: quais os riscos? Informação-entretenimento como método de engajamento nas redes do jornal O MINHO Eduardo Faria & José Gabriel Andrade (ICS-UM)

Se até o final do século XX a preocupação do jornalismo era noticiar mais rápido através do “furo de reportagem”, o desafio agora é fazer com que o público possa clicar, visualizar, curtir e compartilhar a informação num alcance cada vez maior. Diferente do que presenciamos há duas décadas, a velocidade em noticiar não é mais determinante para que a informação seja convertida em rendimentos financeiros. Atualmente, é preciso fazer com que o público seja motivado a participar da informação. É através da energia do público que as informações são convertidas em ganhos financeiros, imposta “pela ditadura dos cliques” (Andrade, 2020, p. 89). Desde 2017, o jornal online O MINHO tem aproveitado o dia 1º de abril para promover um gênero de notícia-entretenimento. Não é novidade que a informação é um produto como qualquer outro (Halimi, 1998) e perde seu valor assim que deixa de gerar ganhos financeiros. Entretanto, o que difere o método utilizado pelo O MINHO é justamente o uso do não-acontecimento para a venda de “notícias” que possam gerar interações nas redes sociais. Para Fontcuberta (1999), o não-acontecimento rompe com o fato em realidade, que é a essência do jornalismo. Segundo a autora, o uso do não-acontecimento pode comprometer a credibilidade jornalística. Na contemporaneidade, assistimos mudanças significativas nos media de comunicação, informação e no entretenimento, que são impulsionadas sobretudo pela convergência entre os media e as redes digitais (Jenkins, 2020; Scolari, 2013). A convergência entre os media e as redes passou a fazer parte da realidade dos profissionais e do mercado mediático, exigindo dos media novas formas de contar histórias que sejam capazes de despertar no público o interesse em participar das narrativas – seja através de comentários ou partilhas nas redes. No jornalismo, esta transformação evidencia-se através do movimento em que o jornalismo perde o monopólio da informação, “da produção e disseminação da informação” (Spinelli & Santos, 2018, p. 10) para diferentes autores sociais. Deste modo “cidadãos comuns” tornam-se produtores de conteúdos, como no caso dos youtubers e influenciadores digitais, e passam a disputar espaço de audiência com os media de informação. Esta pesquisa de cunho qualitativo pretende fazer uso de técnicas mistas para o seu desenvolvimento. Num primeiro momento, pretende-se entrevistar o editor responsável pelo O MINHO com o intuito de compreender a proposta do uso do não-acontecimento como recurso para obter engajamento com o público. A seguir objetiva-se aplicar inquérito online em alunos de jornalismo da Universidade do Minho, a fim de observar como os futuros profissionais se relacionam, compreendem e pensam sobre a relação do jornalismo com o entretenimento. Numa realidade mediática estabelecida nas relações convergênicas entre os media e suas narrativas, nota-se a necessidade de refletir sobre as linhas que separam o jornalismo do entretenimento.

Palavras-chave: jornalismo de convergência; entretenimento informacional; narrativa transmedia; jornalismo online

Jornalismo de cinema: um olhar para a imprensa, televisão, rádio e online Jaime Lourenço (UAL/NIPCOM) & Maria João Centeno (ESCS-IPL/ICNOVA)

O Jornalismo Cultural abrange vários subgéneros de acordo com as diferentes manifestações artísticas e culturais. Um deles é o Jornalismo de Cinema, que se situa no mesmo quadro conceptual do Jornalismo Cultural, possuindo as mesmas características e assumindo-se como um campo de sentido informativo, crítico e pedagógico, mas com a actividade cinematográfica enquanto objecto. No entanto, e apesar de o cinema ser uma das três principais manifestações artísticas presentes nas páginas dos principais jornais portugueses entre 2000 e 2010 (de acordo com dados do projecto Cultura na Primeira Página), o Jornalismo de Cinema ainda é um campo por explorar pelas ciências sociais e da comunicação.

A presente comunicação pretende apresentar os resultados da análise à cobertura cinematográfica realizada pelos principais jornais portugueses (Público, Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Expresso e Observador) nas versões impressas e online e pelos programas televisivos especializados em cinema (Janela Indiscreta, Cartaz Cinema e Cinebox) e radiofónicos (Cinemax e A Grande Ilusão), de forma a identificar as principais características do Jornalismo português de Cinema ao longo do ano 2019.

A análise permite-nos concluir que estamos perante um jornalismo caracterizado pela divulgação, nomeadamente a propósito das estreias de filmes, uma vez que se verifica o seguimento escrupuloso pelos jornais e programas analisados do calendário de estreias. Por sua vez, o carácter reflexivo e interpretativo, característico do jornalismo de cinema e do seu formato identificador, a crítica, sai enfraquecido pela força da atualidade.

Assim, propomos, com esta comunicação, problematizar a cobertura jornalística que foi feita pelos jornais portugueses do cinema durante o ano de 2019. Esta comunicação faz parte da investigação de doutoramento “Jornalismo de Cinema em Portugal” financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Palavras-chave: Jornalismo de Cinema; Cobertura Jornalística

Medidas e limites para a emoção numa emissora pública: os relatos de Nuno Matos na Antena 1 sobre a seleção portuguesa de futebol José Carlos Marques (UNESP)

O comentador e locutor Nuno Matos, da rádio Antena 1, ganhou certa notoriedade internacional especialmente a partir de seu relato da partida Suécia 2 x 3 Portugal, realizada em Estocolmo no dia 19 de novembro de 2013, pelos play-offs das eliminatórias europeias para o Mundial de 2014 de futebol. Sua emoção ao narrar os três golos de Portugal anotados por Cristiano Ronaldo e o consequente apuramento para o torneio que seria disputado no Brasil foi destaque em diferentes veículos da comunicação social no Brasil, por exemplo. O mesmo Nuno Matos ampliaria os contornos desse fenómeno em outras duas oportunidades muito particulares: na final do Euro de 2016, no Portugal 1 x 0 França de 10 de julho de 2016 em Paris; e na estreia de Portugal no Mundial da Rússia de 2018, no empate em 3-3 com a Espanha, em jogo realizado em 15 de junho de 2018 na cidade de Sochi.


Este trabalho procura problematizar a missão de uma emissora pública de rádio, como é o caso da Antena 1, diante dos relatos repletos de metáforas e hipérboles do comentador e locutor Nuno Matos. Partimos da ideia de que, neste caso, amplifica-se o conceito de que o rádio não transmite apenas os acontecimentos em si, mas sim os relatos a respeito dos acontecimentos, algo apropriado para a configuração das transmissões de eventos desportivos.


Para mostrar-se mais próximo do adepto ou do aficionado do futebol, por exemplo, emissoras de rádio passaram a construir um espetáculo de transmissão para dar conta do espetáculo desportivo, numa construção narrativa que não por acaso passou a priorizar a emoção em detrimento de um relato mais sereno ou racional. A sintaxe das transmissões radiofónicas de competições desportivas, deste modo, ganhou um ritmo acelerado, frenético, com locutores, narradores e comentadores reconstruindo o facto futebolístico com paisagens sonoras mais carregadas e um linguajar intensamente apaixonado e por vezes caricato.


Para dar conta deste objeto de estudo, utilizaremos algumas reflexões de Umberto Eco sobre o relato desportivo (para o semiólogo italiano, teríamos aqui o desporto elevado ao cubo) e os conceitos do pensador canadiano Marshall McLuhan sobre o meio e a mensagem e sobre a dicotomia criada por ele (e muito contestada) a respeito dos meios quentes e frios. Por fim, tais elementos serão postos em perspectiva diante do compromisso público da Antena 1, emissora de radiodifusão pertencente à RTP – Rádio e Televisão de Portugal.

Palavras-chave: relato radiofónico; rádio pública; desporto; futebol; Selecção Portuguesa.

Televisão em direto sem imagens: a transmissão de jogos de futebol nos canais portugueses não detentores de direitos Carlos Pedro Dias (UAL/Observare)

É possível fazer televisão sem imagens? É uma pergunta que ganha cada vez mais sentido quando se olha para algumas das tendências da televisão em Portugal. O nosso objetivo é analisar a “transmissão” de jogos de futebol que é realizada por alguns canais não detentores de direitos de transmissão e que, por isso mesmo, não podem mostrar imagens do jogo. A que dispositivo mediático recorrem então estes canais? A fórmulas muito simples: um conjunto de comentadores em estúdio, um narrador do jogo e um pivot que funciona como distribuidor da emissão. Eventualmente uma câmara virada para as bancadas ou para o banco das equipas em jogo. Um jogo, que, adivinhamos, está a ser visto em estúdio através das imagens de outro canal de televisão e do qual temos os comentários, as análises e, também, as expressões dos convidados em estúdio. Trata-se de uma situação bastante peculiar em termos de comunicação televisiva. Que só pode ser comparada a uma transmissão de um qualquer evento virando as
câmaras para o lado oposto ao do “acontecimento”.

No caso que analisamos, do futebol, os participantes nem sequer estão no estádio, a descrever aquilo a que assistem presencialmente. Ora este dispositivo é o dispositivo que a rádio utiliza há muitos anos para a cobertura dos jogos de futebol. E onde a ausência de imagens (que faz parte das caraterísticas do meio) obriga a um reforço da linguagem descritiva do jogo. E a televisão? Estaremos em presença de um novo formato híbrido de transmissão de futebol? E porque se tornou popular esta forma de transmissão que consegue, apesar de tudo, audiências muito interessantes? Será tudo explicável pelas caraterísticas do mercado desportivo em Portugal? Em que a maioria dos jogos é transmitida em canal fechado e sujeita a pagamento? Ou estaremos a assistir a uma “vingança” da rádio que conquista a televisão, impondo os seus códigos a um meio que sempre a ameaçou? Existirá uma tendência comparável noutros países com um mercado televisivo do desporto semelhante ao mercado português?


Procuramos realizar um estudo exploratório sobre este tema procedendo ao levantamento do estado da arte aplicável a este fenómeno de comunicação. Procura-se assim caraterizar uma tendência televisiva que tem vindo a ganhar terreno e que pode ser facilmente alargada a outras áreas onde não existam imagens. É aliás um estudo que poderia alargar-se à cobertura de alguns diretos, relacionados sobretudo com catástrofes, em que a escassez de imagens disponíveis é “resolvida” através do recurso a comentadores e representações gráficas. Sem dúvida um tema a merecer investigação mais aprofundada.


Palavras-chave: Televisão; Rádio; Futebol

“Em atualização”: padrões e tendências das notícias de última hora  Fábio Ribeiro (UTAD/CECS)

Uma das principais disrupções informativas das últimas décadas está provavelmente relacionada com a disseminação da expressão “última hora” para destacar notícias que, na ótica jornalística, sugerem um determinado impacto na sociedade, do ponto de vista económico, político, social, entre outros âmbitos de suposta influência. Como sugerem Lewis e Cushion (2009), “a sede em ser o primeiro [a dar uma notícia]” tem vindo a sobrepor-se ao dever de verificação apurada das informações.

Na era de uma “apoteose das breaking news”, conforme designaram Brighton e Foy (2007), até a própria designação de “notícias de última hora” motiva divergências lexicais consoante o meio de comunicação, entre os que optam por sinalizaram estas notícias “em atualização”, “ao minuto” ou “alerta CM”. Aliás, a clássica distinção entre “hard” e “soft” news (Wheatley, 2020) parece agora fundir-se num imenso caos informativo (Lehman-Wilzig & Seletzky, 2010).

Mais do que o impacto, a vários níveis, ou do caráter recente de certas informações, autores como Ekström, Ramsälv e Westlund (2021) responsabilizam a cultura do imediato, as notificações digitais, as pressões de tempo sentidas nas redações e a informação viral dos canais de informação jornalística de 24 horas como decisivas para a criação de um contexto onde tudo parece ter impacto de “última hora”.

Tendo como base estas considerações, esta comunicação apresentará os principais dados de um estudo exploratório sobre as características assumidas pelas “notícias de última hora”, assim definidas por uma amostra de meios jornalísticos online, ao longo de um mês de observação. Recorrendo a uma análise qualitativa e quantitativa, pretende-se medir a presença das “notícias de última hora”, determinar os assuntos que mais frequentemente são sinalizados com esta etiqueta informativa, personalidades e instituições mais frequentemente associadas, entre outras categorias de análise.

Com este estudo procura-se promover uma maior compreensão deste fenómeno inevitável do jornalismo, bem como a eventual deteção de situações que denunciam possíveis incumprimentos éticos, como a ausência de atribuição de declarações, a inexistência de fontes ou mesmo de lógicas associadas à manipulação da informação.

Palavras-chave: Breaking news; jornalismo; padrões; noticiabilidade; tendências.