NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DI VII – TA

Disrupção Informacional VII: Temas em Agenda

O jornalismo, a opinião pública e o processo independentista catalão: análise às fontes de informação da imprensa diária espanhola (e catalã) Ana Daniela Pereira (UP)

A partir do estudo de caso das fontes de informação do discurso noticioso, publicado nos jornais Ara, El País, El Mundo e La Vanguardia, sobre o processo independentista catalão, pretendeu-se identificar e avaliar a projeção pública das fontes de informação utilizadas em notícias e reportagens sobre o debate político catalão, tendo em conta a linha editorial de cada um dos jornais.  


Assim, desejou conhecer-se a identidade das fontes de informação que assumem o estatuto de protagonistas no panorama político catalão, verificando a existência de relação entre as linhas editoriais e as fontes de informação a que os jornalistas recorrem, bem como, quais as de maior relevância, com que frequência são utilizadas, se existe relevância no sexo das fontes e quais os graus de confidencialidade que lhes estão associados. Também se quis compreender que assuntos dominaram a discussão política em torno do conflito catalão, registando-se um amplo domínio de tópicos como o referendo pela autodeterminação da Catalunha. Pretendeu-se também perceber com que frequência recorre o jornalista a fontes de informação associadas a este debate político e como se comportam os meios de comunicação perante as temáticas associadas à autodeterminação da Catalunha.  


Recorrendo a métodos de investigação qualitativos e quantitativos, os conteúdos noticiosos publicados têm sido analisados de forma a encontrar pistas sobre o papel das fontes de informação na construção da agenda mediática em torno do processo independentista catalão. Esta investigação pressupõe ainda a concretização de entrevistas exploratórias semiestruturadas a jornalistas que, em 2016 e 2017, acompanharam o debate político catalão nas redações dos jornais em estudo.


A presente investigação pressupõe ainda a análise do conteúdo noticioso sobre o debate político catalão, produzido e publicado nas secções de “Política”, “Nacional (ou Espanha”) e “Catalunha”, das edições impressas dos diários, entre setembro e novembro de 2016 e no mesmo período de 2017. A investigação centra-se em apenas na notícia e na reportagem, sendo analisadas apenas as hard news.  


A análise às fontes de informação está a ser desenvolvida com o recurso a uma grelha de avaliação que permita a tipificação de cada uma delas quanto ao seu grau de confidencialidade, recorrendo ao modelo teórico proposto por Mencher (1991), introduzindo também as taxonomias que Manuel Pinto destaca e que têm em linha de conta a natureza, a origem e o grau de envolvimento das fontes nos factos relatados (Pinto, 2000: 279) e a categoria relativa ao estatuto da fonte (Lopes, 2016: 185).
A opção pelos quatro diários tem em consideração a linha editorial dos mesmos, bem como a posição que ocupam no ranking de vendas nas suas áreas de influência, havendo lugar à opção por dois jornais representativos de uma ideologia de centro-esquerda/esquerda e a dois jornais representativos de centro-direita/direita.  


Os dados já recolhidos, mesmo ainda não sendo os definitivos, demonstram que os jornais optam, maioritariamente, por recorrer a fontes devidamente identificadas (on the record) em detrimento de fontes deep background. Já as fontes on background são predominantes em notícias relacionadas com as forças de segurança.

Palavras-chave: Fontes de informação; processo independentista catalão; media; Catalunha; autodeterminação catalã.

Os atentados do 11 de setembro duas décadas depois: uma releitura das capas de jornais do Brasil, Portugal e EUA José Carlos Marques (UNESP)

Este trabalho propõe uma análise das capas de jornais brasileiros, portugueses e norte-americanos publicados no dia 12 de setembro de 2001 por ocasião do atentado ocorrido na véspera, dia 11 de setembro, contra as Torres Gêmeas – um complexo empresarial do World Trade Center, situado no centro da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Atribuído ao grupo fundamentalista islâmico al-Qaeda, o ataque teve como alvo, ainda, o Pentágono – a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O episódio inaugurou indelevelmente, logo no início do Século XXI, uma nova forma de atuação política e social das nações em todo o planeta, com alterações sociais que atingiram especialmente a forma de se viajar pelo mundo e de se relacionar com os fenômenos da imigração, religião, luta contra o terror, xenofobia etc. Duas décadas depois, nosso esforço é procurar compreender os discursos verbal e não verbal (imagens e fotografias) das capas de vinte jornais impressos, de forma a verificar como o contexto de produção daquela época tem correlações com a nova ordem mundial da década iniciada em 2021. Utilizamos como referencial teórico-metodológico a Análise do Discurso de linha francesa, que nos permite descobrir os efeitos de sentido e as formações discursivas elaboradas por texto e imagem nas capas dos periódicos. Nosso objetivo específico é apresentar quais as formações discursivas, conforme definição do filósofo francês Michel Foucault em sua obra A Arqueologia do Saber (publicada originalmente em 1969), constituíram a reconstrução deste fato no jornalismo impresso. Para Foucault, os enunciados, mesmo que distintos em sua forma e dispersos no tempo, são capazes de formar “um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto”. É a esse conjunto de enunciados, definidos por certas características comuns (sejam elas linguísticas ou temáticas), que chamamos de formação discursiva. No caso específico do 11 de setembro de 2001, identificamos diferentes formações discursivas, organizadas em função de critérios que estabelecemos em nossa leitura. Um núcleo de formação discursiva dos jornais norte-americanos aponta para um linguajar bélico, com uma tendência acusatória e uma clara manifestação de desejo de vingança, por um lado; outro núcleo de formação discursiva aponta para a informação referencial em torno da noção de um ataque terrorista do qual teriam sido alvo os EUA. Os jornais luso-brasileiros tenderão a centrar sua reconstrução do fato em torno deste último núcleo.

Palavras-chave: 11 de setembro; imprensa; capas de jornais; formação discursiva; fotografia.

Poderosas? Imagens e textos sobre o feminino nas revistas portuguesas Alexandra Santos & Fernando Ampudia de Haro (UE/NOVA FCSH/IHC)

Com a publicação de Gender Advertising, em 1974, Erving Goffman revoluciou o modo de compreender as manifestações sociais (display) da identidade de género, trabalhando a partir da análise de imagens publicitárias. Na visão do sociólogo canadiano, as imagens publicitárias contêm versões simplificadas e concentradas da variedade de elementos que, nas interações do dia-a-dia, usamos para assinalar e enfatizar a identidade de género, o que as torna elementos valiosos para o estudo da própria sociedade e dos seus valores. Este trabalho de Goffman desvendou mecanismos profundamente implantados de submissão feminina, constituindo um ponto de partida para estudos que têm vindo a alargar a compreensão da chamada ritualização da feminilidade nas mais variadas geografias e tempos históricos.  


A comunicação que aqui se apresenta inscreve-se nesse propósito de alargamento e possui um objetivo duplo: atualizar e ampliar o trabalho de Goffman.  
No que diz respeito à sua atualização, desenvolvemos uma análise da representação de género associada às/projetada pelas imagens publicitárias de um conjunto de revistas ditas “femininas” portuguesas. Como tal, definimos como objeto de estudo as diversas representações das mulheres, estudadas a partir da grelha analítica e categorial desenvolvida por Goffman. Deste modo, tentar-se-á perceber em que medida é que a realidade contemporânea se afasta, ou não, daquela estudada pelo autor, fazendo uma comparação com a literatura respeitante a outros países.  


No que toca à ampliação, a representação nas imagens será comparada com artigos incluídos nas mesmas revistas que, genericamente, apresentam modelos, conselhos e padrões de conduta para as mulheres no âmbito profissional e pessoal, habitualmente assinados por especialistas da área e profissionais de relevo. Assumimos que as revistas ditas “femininas” podem ser entendidas como equivalentes funcionais dos textos normativos de urbanidade e etiqueta que Norbert Elias considerou na sua análise do processo civilizacional. Analogamente, tais revistas constituem hoje uma fonte de prescrição de condutas e de regulação da emocionalidade que definem arquétipos de feminidade. Metodologicamente, os artigos serão submetidos a uma análise de conteúdo segundo categorias temáticas, tal como definido por Bardin (2011). A comparação entre as imagens e os textos visa determinar se existe ou não consonância entre as representações que fornecem as imagens e os modelos que prescrevem os artigos.


O material gráfico e textual procede das revistas Activa, Lux Woman e Saber Viver e corresponde cronologicamente aos anos 2020 e 2021. A seleção destas publicações obedece a critérios de relevância, presença no mercado e volume de vendas em Portugal.

Palavras-chave: Representação de Género; Revistas Femininas; Erving Goffmann; Norbert Elias; Publicidade

Representações mediáticas de públicos vulneráveis: um estudo longitudinal da imprensa portuguesa Maria João Cunha & Carla Cruz (ISCSP-UL)

Desde a segunda metade dos anos 1990 que os estudos evidenciavam invisibilidade e representações estereotipadas de grupos minoritários, sobretudo quando os media privilegiam a exposição de uma factualidade negativa a respeito desses grupos, contribuindo para uma generalização na Opinião Pública (EUMC, 2002, pp. 36-37). Ainda hoje predominam as notícias com recurso a fontes políticas e influentes, reproduzindo, mediaticamente, uma única voz (Joana e Fernandes, 2017).

Este estudo tem por objetivo geral compreender como as diferentes categorias de públicos, designados vulneráveis por terem uma expressão minoritária face às temáticas mais habituais da atualidade informativa, estão a ser representados nas notícias.  Os públicos vulneráveis ou sensíveis, de acordo com a definição da Entidade Reguladora para a Comunicação Social-ERC (http://www.erc.pt/documentos/Conf_08/EMCS/EMCS-Intr.pdf) são “os que encontram, por motivos de ordem política, económica ou social, por incapacidades cognitivas ou por vulnerabilidade física, dificuldade em aceder ao espaço público e exercer plenamente a sua cidadania” (p. 6). Incluímos os nomeados pela ERC: a) crianças e jovens, b) idosos, c) imigrantes e três outros públicos: d) as comunidades LGBT+; e) as pessoas com deficiência e doenças crónicas e f) as mulheres, porque importa verificar de que modo a sua crescente participação na vida pública se reflete na importância que lhes é atribuída pelas notícias e em que medida promovem a ideia genérica de igualdade de género. Em termos mais específicos é propósito desta investigação 1) caracterizar a relevância das notícias sobre os diferentes públicos; 2) perceber como as personagens das estórias são caracterizadas, enquanto agentes e fontes, por género; 3) verificar que “voz(es)” representam os interesses dos diferentes públicos considerados; 4) avaliar a valoração, por via do enfoque positivo ou negativo, das notícias que tratam os diferentes públicos. O estudo incide na Imprensa por ainda ser o meio com maior efeito de agenda-setting junto dos públicos e por oferecer maior contextualização e profundidade dos factos, apesar do exponencial consumo dos meios digitais. Recorremos ao método quantitativo, aplicando a técnica da análise de conteúdo a um corpus de cerca de 20.000 notícias recolhidas dos jornais impressos diários (Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã e Público), semanários (Expresso e Sol) e revistas de informação (Sábado e Visão) durante os primeiros semestres de 2014 a 2019. Verificou-se que os grupos com maior invisibilidade nas notícias são as pessoas com deficiência, os grupos LGBT+ e as minorias étnicas. Em todos os grupos analisados as questões de género surgem de forma a incrementar a invisibilidade quando as protagonistas das notícias são mulheres, o que é particularmente notório no caso do grupo das pessoas idosas. O grupo das mulheres, por sua vez, apresenta um número muito grande de notícias, mas em formatos breves, factos episódicos e sem contextualização e sobretudo integradas na secção de sociedade. Este estudo é feito no âmbito de um projeto maior, que inclui uma análise das percepções dos públicos vulneráveis e/ou seus representantes sobre a representação mediática, através de entrevistas semiestruturadas e de grupos focais. Contudo, ainda não possuímos conclusões substanciais para apresentar nesta comunicação.

Palavras-chave: Representações mediáticas; públicos vulneráveis; análise de conteúdo; Imprensa portuguesa.

Crianças em perigo: escrutínio mediático da ação protetora Manuel Menezes (ISMT/UC)

Esta comunicação apresenta resultados de uma investigação de Doutoramento (ISCTE-IUL) sobre a intervenção dos assistentes sociais no âmbito do Sistema de Promoção e Proteção de Crianças e Jovens em Portugal. Tendo presente não só o importante contributo dos media para a publicitação das problemáticas experienciadas pelas crianças, como a existência de uma longa tradição de escrutínio do exercício profissional nesta área de intervenção (em parte devido à morte de crianças e jovens na decorrência da acção/omissão daqueles que deviriam zelar pelo seu bem-estar e a promoção do seu desenvolvimento integral). Um dos enfoques do estudo buscou perscrutar como, num contexto de crise austeritária, os discursos produzidos pelo escrutínio mediático sobre a acção protectora das crianças e jovens em perigo, pode influenciar as práticas do Serviço Social. Intentamos compreender, por um lado, a forma como o tratamento jornalístico dessas problemáticas, ao produzir narrativas, imagens mediáticas (perpassadas por uma desrealização significativa do real), pode contribuir para a construção de representações enviesadas (da sociedade em geral e dos sujeitos intervencionados em específico) relativas aos contextos e práticas de protecção. Representações essas que, em última instância, condicionam a maneira como os diferentes sujeitos se posicionam, relacionam e agem quando entram em contacto com o sistema de protecção português. E, por outro, percepcionar a forma como os assistentes sociais qualificam os olhares e os discursos dos meios de comunicação social sobre o sistema e os profissionais da acção protectiva. Para cumprir os objetivos enunciados procedeu-se a uma revisão da literatura produzida nos últimos anos sobre o assunto em pauta. A dimensão empírica da investigação incluiu as 100 CPCJ instaladas nos distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Participaram no estudo: (i) inquérito por questionário (online) – 85 assistentes sociais em representação de 62 CPCJ; focus group – 11 assistentes sociais de oito CPCJ. Os resultados revelam que, tal como noutros contextos, também no nosso país os meios de comunicação social desenvolvem, a espaços, peças jornalísticas onde os assistentes sociais, expostos ao opróbrio público, emergem como os primeiros responsáveis pelo que de mal acontece no sistema. A maioria dos profissionais, não obstante manifestar preocupação, desvaloriza as críticas direcionadas aos modos como as situações de risco e perigo são avaliadas e acompanhadas. Apontam a não familiarização com as especificidades da intervenção concreta, em paralelo com interesses conexos com as audiências, como fatores indutores da produção de uma narrativa mediática desconexa da realidade. Dado não só, mas também os condicionalismos propugnados por estas representações ao nível da intervenção com as famílias e/ou crianças, identifica-se a necessidade urgente de as entidades responsáveis repensarem as suas estratégias de comunicação tendo em vista a publicitação de uma imagem que, ao ser mais consentânea com a realidade, aumente a confiança, melhore a interacção da comunidade e das famílias com os profissionais da acção protectora.

Palavras-chave: Imagens; Representações; Serviço Social; Crianças; Protecção.

A Margem Sul no jornal Público: a representação social que não existe no mapa geográfico Raquel Lourenço (NOVA FCSH/ICNOVA)

A margem sul é um deserto (…) não há cidades, não há gente, não há hospitais, nem hotéis nem comércio” (…). (Mário Lino, 23 de maio de 2007, in Público online)

A frase acima citada foi proferida pelo, à data, ministro das Obras Públicas, Mário Lino, e deu o principal mote para uma dissertação de mestrado que visou perceber o modo como a Margem Sul, uma unidade territorial não oficial, foi enquadrada nas peças de um jornal de âmbito nacional que lhe dizem respeito (jornal Público). Questionámos, assim, a importância dos espaços físicos para a construção mediática deste território simbólico e vice-versa. Por entendermos que a contribuição para um desenvolvimento sustentável e coeso das várias regiões do país é um papel importante dos governantes, mas também dos media no sentido em que difundem visões sobre os assuntos com um largo alcance, o objetivo foi analisar em que medida as peças onde a região tem destaque no tratamento jornalístico contribuem para uma visão integrada do território nacional, mostrando perspetivas diversas sobre a região em estudo, ou se limitam a reproduzir estigmas, como o revelado pelo ministro. Apresentamos, nesta comunicação, as principais conclusões desta investigação quantitativa e qualitativa, assim como o projeto de doutoramento que dará continuidade às questões deixadas em aberto: como é que a linguagem utilizada por media produzidos em Portugal representa outros territórios no contexto português? Serão essas representações justas? Que lugares são privilegiados e que territórios simbólicos emergem? Que implicações trouxe a pandemia de Covid-19 no que respeita à representação mediática de territórios? Que semelhanças e diferenças podemos encontrar olhando para os media de outros países?

Trata-se, por isso, de uma reflexão sobre ética jornalística e pluralismo, partindo do pressuposto de que uma informação diversificada e rigorosa sobre os vários lugares contribui para uma discussão pública mais informada sobre os problemas e oportunidades locais, dando menos espaço para o crescimento de discursos estereotipados e instigadores de ódio ou de desconfiança sobre o outro.