NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DP III – PD

Disrupção Política III: Política Digitalizada

Jornalismo digital e movimentos cívicos Assunção Duarte (NOVA FCSH/ICNOVA)

As páginas de Facebook enquanto atores políticos não oficiais no ano eleitoral de 2019 Jorge Rosa (NOVA FCSH/ICNOVA)

Depois dos primeiros sinais em 2015, com a eleição para a Assembleia da República de um deputado do PAN, em 2019 confirmou-se a tendência para a disrupção de uma estabilidade de quase duas décadas no conjunto de partidos com representação parlamentar. Alegadamente terá sido também uma disrupção no modo de fazer comunicação política, não só por via do chamado populismo de direita mas também, em todo o espectro ideológico, pela novidade de alguns assuntos trazidos para a agenda e pela consolidação do recurso às plataformas de redes sociais.


No âmbito de um projeto de investigação mais vasto sobre participação política no Facebook, foram recolhidas todas as publicações e comentários das páginas oficiais dos partidos atualmente com representação parlamentar cobrindo um período de 18 meses (1 de Julho 2018 a 1 de Janeiro de 2020) que contempla as duas eleições (europeias e legislativas) que tiveram lugar nesse ano de 2019. Esta recolha, feita com a aplicação Facepager, totaliza mais de 9 mil publicações, mais de um milhão de reações, e cerca de 135 mil comentários. No caso dos comentários, verificámos que, ainda que totalizando menos de 500, alguns tinham como autores outras páginas, em vez de perfis individuais (que o Facepager anonimiza).


Procuraremos, com esta comunicação, seguir a pista dessas páginas, que numa classificação preliminar podemos dividir entre semi-oficiais, caso representem de modo indireto algum partido (delegações regionais ou locais, candidatos e militantes que se identifiquem enquanto tal), e não oficiais (todas as outras). Que páginas são essas, como podem ser categorizadas (nomeadamente quanto ao seu posicionamento político), que ligação têm (se a têm) às páginas oficiais onde comentaram, qual a sua atividade quando fazem publicações e não quando comentam em páginas alheias? Para esse efeito, socorremo-nos de uma metodologia mista, com uma dimensão simultaneamente quantitativa (análise estatística e visualização dos dados fornecidos pelo Facepager) e qualitativa (categorização, análise das publicações e comentários). Entre outros resultados, demonstrar-se-á que: 1) a atividade destas páginas é, com raras exceções, reduzida e gera pouco envolvimento; 2) apenas alguns atores semi-oficiais aparentam ter uma estratégia de comunicação articulada com os oficiais (i.e., as páginas dos respetivos partidos políticos); 3) a interação com esses atores oficiais é muito esporádica e pouco sistemática, ainda que nalguns casos motivada por temas que são também o foco das páginas, sejam estas não oficiais ou semi-oficiais, por exemplo as questões ambientais.

Palavras-chave: Facebook; redes sociais; campanha eleitoral; participação política

Funções do Facebook e estratégias de comunicação dos partidos políticos num contexto de mediatização 2.0. Alda Magalhães Telles (NOVA FCSH/ICNOVA)

A internet, e em particular as plataformas de redes sociais, constituem porventura o mais significativo catalisador de disrupção na comunicação política dos últimos 10 anos, alterando substancialmente as formas de relação entre os atores políticos e os seus públicos.

Este trabalho centra-se nas principais funções atribuídas ao Facebook e na sua utilização estratégica como ferramenta de campanha eleitoral por parte dos partidos políticos.

Para a nossa análise identificamos, com base na revisão da literatura, cinco áreas temáticas principais que nos ajudam a compreender as motivações e as práticas dos estrategas políticos no Facebook: interatividade, envolvimento, personalização, profissionalização e hibridização. Procurámos validar este corpus de análise através de um estudo de caso qualitativo com dados de duas fontes primárias: entrevistas com oito gestores de comunicação de oito dos dez partidos políticos que têm representação parlamentar desde outubro de 2019 em Portugal e um inquérito online com os mesmos responsáveis.

Os resultados mostram que, durante as campanhas eleitorais de 2019, 1) a principal função do Facebook é a divulgação de propostas políticas e a mobilização para atividades de campanha; 2) Um baixo nível de personalização é especialmente óbvio para as eleições legislativas e nem todos os partidos gerem a personalização da mesma forma; 3) A hibridização é altamente valorizada como uma estratégia de conteúdo, com todos os partidos a utilizarem o Facebook para promover a sua presença nos media tradicionais; 4) A interação é vista como uma característica importante facilitada pelo Facebook, uma vez que as redes sociais oferecem a oportunidade de estabelecer uma comunicação bidirecional com os cidadãos, embora isso tenha de ser verificado empiricamente; 5) O uso estratégico do Facebook não difere substancialmente nem no contexto da orientação política nem na história do partido, denotando em geral um grau de profissionalização maduro na comunicação de todos os partidos políticos.

Além disso, as campanhas portuguesas operaram numa lógica de hipermédia onde os conteúdos são divulgados através de media diretos, indiretos, tradicionais e “novos”. A televisão continua a ser vista pelos partidos como a plataforma mediática mais importante nas campanhas eleitorais, mas os sites das redes sociais, com o Facebook a liderar, têm segunda prioridade.

Palavras chave: campanha eleitoral; Facebook; redes sociais; mediatização 2.0; comunicação política

Política em tempos de memes: as armas da descontrução da imagem pública de Dilma Rossef Jessica Borges (UFMG)

A investigação realizada estudou a produção, uso e circulação de memes como elementos de produção de sentidos e tensionamento de valores em narrativas disseminadas visando a desconstrução da imagem de figuras públicas, em especial, aquelas do universo da política. O objeto que constitui a nossa observação são os memes políticos, em um estudo de caso dos memes sobre a ex-presidenta Dilma Rousseff. Apreendido na perspectiva conceituada por Limor Shifman (2014), que situa o meme como conjunto de informações digitais e submetidas à agência dos sujeitos em sua criação, alteração e circulação, o meme passa a ser lido como mídia. A interpretação é corroborada por Viktor Chagas (2020) ao explorar a relação do meme com o cenário político brasileiro. Buscamos identificar e apreender sentidos circulados pelos memes, em relação à figura pública de Dilma Rousseff, a partir de quatro momentos biográficos que marcaram sua trajetória pública política e que compõem a história recente do país. A noção relacional da comunicação, de Vera França (2002), foi o eixo teórico que acompanhou os conceitos operadores que articulamos: enquadramento, com Erving Goffman (2013) e tipificação com Alfred Schutz (2018). Como procedimento metodológico, recortamos quatro momentos biográficos de Dilma Rousseff, entre a eleição de 2010 e o golpe de 2016. Os memes referentes a cada momento biográfico foram classificados conforme o período cronológico correspondente e dispostos em quatro painéis digitais. A seleção dos memes que compuseram os painéis foi realizada de modo curatorial, compondo o que Chagas e Toth (2016) denominam como pack. Os tipos de memes que emergiram da amostra são parte do estoque de referências socialmente partilhado e por isso alcançam tantos sujeitos, com as mais variadas características. Observamos a evidência de cinco tipificações: de gênero, política, de crenças, estética e dos próprios memes. Esses tipos estão presentes em todas as séries da amostra, se apresentando de modo individual ou combinados e exibindo especificidades em cada uma das categorias. Na interseção da comunicação e política, acreditamos que essa exploração possa contribuir com investigações que visem identificar novas operações culturais aplicadas aos embates na política e ao rebaixamento do jogo político que ocupam e são reduzidas ao quadro de um meme. Outras possibilidades que vislumbramos são o uso do meme como elemento de reforço na construção de narrativas que disseminam fake news e a exploração da análise seriada de memes, o que consideramos ser uma visada potente para outras leituras deste fenômeno contemporâneo da cultura política.


Referências:
CHAGAS, Viktor. Da memética aos estudos sobre memes: uma revisão da literatura concernente ao campo nas últimas cinco décadas (1976-2019). In: CHAGAS, Viktor (Org.). A cultura dos memes – aspectos sociológicos e dimensões políticas de um fenômeno do mundo digital. Salvador: EDUFBA, 2020.
CHAGAS, V.; TOTH, J. Monitorando memes em Mídias Sociais In: SILVA, T.; STABILE, M. (Orgs.) Monitoramento e pesquisa em mídias sociais: metodologias, aplicações e inovações. São Paulo: Uva Limão, 2016.
FRANÇA, Vera Regina Veiga. Paradigmas da comunicação: conhecer o quê? In: MOTTA, L. G. et al. (orgs). Estratégias e culturas da comunicação. Brasília: Ed. da UnB, 2002.
GOFFMAN, E. Os quadros da experiência social: uma perspectiva de análise. Petrópolis: Vozes, 2012.
SCHUTZ, Alfred. A Construção significativa do mundo social – Uma introdução à sociologia compreensiva. Petrópolis: Vozes, 2018.
SHIFMAN, Limor. Memes in Digital Culture. Massachusetts: The MIT Press, 2014.

Palavras-chave: Comunicação; Política; Figuras Públicas: Tipificação: Memes

A comunicação mainstream numa democracia com falhas: uma análise da atividade jornalística brasileira no Facebook (2014-18) Gustavo Freitas & Juliana Alcântara (UC)

Desde 2014, o Brasil vem passando por intensas instabilidades políticas, o que o fez ser considerado pelo Democracy Index (The Economist Intelligence Unit, 2020) como uma “democracia com falhas”. Os processos sociais que levaram a essas instabilidades, em parte, foram endossadas pelo jornalismo mainstream brasileiro que, segundo Waisbord (2020), teve estratégica participação na disseminação do discurso “anti-petista” que acentuou a polarização do debate político nacional, influenciou na aceitação pública do impeachment de Dilma Rousseff e favoreceu a chegada de Jair Bolsonaro ao poder.

Entendendo o jornalismo como uma atividade essencial para o pleno funcionamento da democracia (Strömbäck & Shehata, 2018) e a rede social Facebook como parte essencial do ambiente de notícias e da qual as organizações de notícias dependem para construir audiências (Hiaeshutter-Rice & Weeks, 2021; Wenzel & Nelson, 2020), propusemo-nos a analisar as publicações dos media brasileiros de maior destaque nacional (Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo) em suas páginas oficiais no Facebook entre os anos de 2014 e 2018, ano em que Bolsonaro foi eleito.

A análise longitudinal nos permite perceber, por meio das publicações de maior envolvimento dentro deste recorte temporal estabelecido, como atuou o jornalismo mainstream em meio à instabilidade política que o Brasil atravessou e que ainda reverbera nos dias atuais. A comunicação dedica-se à análise quantitativa de um corpus estruturado na intenção de compreender como os conteúdos jornalísticos são formatados pelos principais jornais brasileiros e inseridos no debate público do Facebook.

O método utilizado foi a análise de conteúdo (Anderson, 2012), por meio da qual pudemos identificar padrões que tanto dizem respeito ao interesse das audiências como às práticas jornalísticas de importantes e influentes instituições mediáticas brasileiras (incluindo formatos, âmbitos, valores-notícia e representação de atores sociais). O corpus utilizado é composto por 90 publicações e foi estruturado a partir de um elevado número de publicações dos jornais em questão em suas páginas oficiais no Facebook durante cinco anos.

Nosso arranjo metodológico, ancorado nas diretrizes metodológicas do Global Media Monitoring Project (GMMP), conta com uma sensibilidade feminista por considerarmos que esta perspetiva traz um caráter de igualdade e pluralidade pertinente e necessário para que se promova uma disrupção sociopolítica no que toca à análise dos media.

Os resultados reforçam a afirmação de Strömbäck e Shemata (2018) sobre o jornalismo político ser um dos mais proeminentes domínios no campo noticioso e apontam para uma politização de outros âmbitos como justiça, economia e até entretenimento. Quanto às pessoas destacadas pelas publicações, as mulheres aparecem em muito menor frequência que homens. Apesar do cargo político de maior importância do país ter sido ocupado por uma mulher entre 2014 e 2016, isto não alterou as desigualdades de género identificadas na investigação, tal como em anteriores trabalhos (GMMP, 2015, Souza, 2016; Gomes, 2010).

Palavras-chave: Jornalismo mainstream; democracia; Facebook; análise de conteúdo; Brasil.

Novas mídias, novos políticos: para que serve o Twitter dos políticos? Lucas Rohan

O desenvolvimento das novas Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC’s) possibilitou a popularização do uso da Internet a partir da década de 90 e, com isso, trouxe uma série de transformações para diversas áreas de nossa vida. Dentre essas mudanças, estamos vivenciando uma atualização das relações entre representados e representantes possibilitada pelo contato direto por meio das redes sociais da Internet. Os novos paradigmas de comunicação entre políticos e cidadãos são diretamente afetados pela característica dialética desta nova forma de comunicação. Diferente de outros momentos históricos, vivemos uma revolução tecnológica que vai transformando gradativamente a forma como consumimos informação. A presença de representantes populares nas redes sociais não é algo novo. Enquanto os mais atentos começaram a marcar território à medida que essas redes começaram a se popularizar, outros só perceberam o potencial de redes sociais como o Twitter mais tardiamente. Hoje, estar presente online é quase obrigatório para quem tem um cargo que depende dos votos dos cidadãos. Com esta situação consolidada e o Twitter mantendo relativa importância na forma de “fazer política”, desenvolvemos este estudo com base em 11.221 tweets publicados por 40 políticos de Portugal, Brasil, Estados Unidos e Espanha entre 1 de novembro e 30 de novembro de 2016. Depois de analisar algumas variáveis, como tipo de conteúdo e frequência das postagens, percebemos que alguns desses políticos operam suas próprias redes sociais e costumam promover um debate direto com seus seguidores, o que impacta diretamente no alcance das mensagens. Outros “terceirizam” essa missão para seus assessores e acabam usando a ferramenta como mais um meio para divulgar suas ações. Ainda há aqueles que só aparecem às vésperas das campanhas eleitorais com a intenção clara de ganhar votos. Nesse caso, as publicações fazem parte de uma estratégia ampla de campanha eleitoral. Independentemente do objetivo, o que fica claro é que todo político busca ocupar o espaço nas redes sociais de alguma forma. Identificamos diferenças no uso entre os políticos das Américas e os europeus analisados. Os primeiros, preferem publicações em texto com opinião sobre fatos recentes enquanto os europeus interagem mais e compartilham mais conteúdo de outros perfis. A presença constante no Twitter, a divulgação de informações por meio de fotos e imagens, o processo de interação com os seguidores e a atenção dada às redes sociais por parte dos políticos são os indícios de que a rede social é considerada importante por esses atores políticos e resulta em alguma forma de contato direto entre representantes e representados.