NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DP V- PR

Disrupção Política V: Presentes & Representad@s

As lógicas da esfera do comentário em Portugal: relações com círculos de poder e sistemas de recompensas Rita Figueiras (UCP)    

Esta comunicação examina o papel do comentário no ambiente político em que os media operam em Portugal. Considerando a esfera do comentário como um espaço de intersecção de vários campos organizacionais, o estudo explora os fatores que explicam as lógicas da esfera do comentário – regras formais e informais e códigos para definir, selecionar e estruturar o comentário. Deste modo, as questões-chave neste estudo são: De que modo comentadores e organizações de media percepcionam as suas audiências? Como é que os comentadores percebem a sua influência na esfera pública? Como é que os diretores de informação percebem o papel dos comentadores no ambiente político em que as organizações de media operam?
O estudo baseia-se em 25 entrevistas semiestruturadas com 14 comentadores de diferentes proveniências (política, jornalismo, academia, cultura), seis jornalistas (televisão, imprensa, media digitais) e cinco diretores de informação de meios públicos e privados. Estes são os principais atores da esfera do comentário: os comentadores emitem opiniões; alguns jornalistas conduzem os espaços de opinião, enquanto outros são repórteres políticos e têm uma relação próxima com o mundo político; os diretores de informação são responsáveis pelo recrutamento dos comentadores e pela definição dos formatos de opinião. As entrevistas foram submetidas a uma codificação aberta pautada pelo interesse analítico da pesquisa: percepções sobre o público, formatos de opinião e relação media-política.
Os resultados sugerem que os comentadores e os media constroem a esfera do comentário em torno dos círculos de poder. Mais do que estarem orientados para representarem interesses ou perspectivas do público em geral, o comentário parece orientar-se prioritariamente para determinados interesses dos comentadores, nomeadamente, a gestão da sua influência na arena pública. Esta audiência parece ter um valor periférico, ainda assim, instrumental: são um meio para os comentadores investirem na sua reputação e estatuto dentro da esfera do comentário e círculos de poder.
Estes círculos de poder, nomeadamente político, têm uma relevância prioritária vinculada aos objetivos sociais perseguidos pela esfera do comentário e também pelas organizações de media. Neste caso, o comentário parece ser usado principalmente como um meio estratégico para lidar com as múltiplas exigências do ambiente político em que os media portugueses operam. Ou seja, o comentário parece ser uma esfera através da qual as organizações de media trabalham as suas relações com os círculos de poder político, sendo este o campo mais representado no comentário. A apresentação concluirá que as lógicas da esfera do comentário – regras formais e informais e códigos para definir, selecionar e estruturar o comentário – refletem o sistema de recompensas em que comentadores e media operam em Portugal.

Palavras-chave: Comentadores; Media; Círculos de Poder; Políticos; Jornalistas

Artes da cidadania: produção imagética e participação política Ricardo Campos & José Alberto Simões (NOVA FCSH/CICS.NOVA)

Resumo (500 palavras) (objetivos, enquadramento, metodologia)
A nossa sociedade tem sido descrita por muitos como altamente mediatizada, mas igualmente fortemente imersa na imagem e nos dispositivos de comunicação visual. Numa sociedade ocularcêntrica, visualista e tecnológica, a produção e circulação de imagens é um factor fundamental para a forma como construímos significado e nos situamos no mundo. Desta forma, a visibilidade, a visualidade e a imagem, podem ser entendidas a partir da sua complexidade política, remetendo para quadros simbólicos e ideológicos através dos quais o mundo se organiza e hierarquiza socialmente.  Ao longo da história a propaganda fez-se através do cinema, da televisão, dos media impressos, das pinturas murais ou dos cartazes, formatos de comunicação eficazes para disseminar ideias políticas. À comunicação política produzida pelo regime e pelos actores políticos mais poderosos contrapõem-se formatos e circuitos de índole mais circunscrita e subterrânea. A guerrilha visual acontece sob múltiplas formas: graffiti, street-art, culture jamming, fanzines, ou vídeo-activismo. A democratização do acesso às tecnologias, criou um campo de possibilidades nunca antes visto na história, elevando a capacidade de produção visual e multiplicando os canais de difusão.
A presente comunicação baseia-se no projeto em curso ArtCitizenship – a juventude e as artes da cidadania (2018-22), financiado pela FCT (PTDC/SOC-SOC/28655/2017). Esta é uma pesquisa de índole qualitativa, assentando a sua metodologia num cruzamento entre a observação no terreno (etnografia) e as entrevistas aprofundadas. Até ao momento foram realizadas cerca de 60 entrevistas aprofundadas a jovens dos 16 aos 35 anos, envolvidos em diferentes causas. O projecto tem como propósito genérico estudar o modo como diferentes protagonistas juvenis, individuais ou coletivos, envolvidos em múltiplas causas sociais, culturais e políticas, utilizam determinados recursos e gramáticas criativas de modo a expressar os seus interesses e reivindicações na esfera pública. Este projecto definiu quatro eixos de gramáticas criativas: imagem, som, corpo e tecnologia. Nesta comunicação iremos centrar-nos, especificamente, no campo da imagem, apesar da articulação que esta estabelece com os outros eixos. Neste âmbito entrevistámos jovens que produzem conteúdos imagéticos e pictóricos diversos, de forma profissional ou amadora, com um intuito de participar politicamente na vida comunidade. Neste sentido, a imagem assume um papel relevante enquanto veículo de auto-reflexão, mobilização e debate político. Através da ilustração, da fotografia, do vídeo ou da banda desenhada, estes jovens encontram uma forma de expressão na esfera pública que se situa à margem dos canais institucionais e da política oficial, contrariando a representação algo difundida de que a juventude é politicamente indolente e desinteressada.

Palavras-chave: Cidadania, Participação política, Juventude, Imagem, Media digitais


A desconstrução da identidade de género: o papel da cultura e comunicação políticas na desigualdade de género, na carreira política, em Portugal Paula do Espírito Santo (ISCSP-UL/CAPP)

There are several political and professional challenges in terms of gender balance, which, despite evidence of their existence, remain at a secondary level. This is the case with gender distribution across the main top careers in general, and in particular, those within the political sphere. Despite the important steps already taken, particularly from a neoliberal perspective and discussion, the number of women who reach prominent positions in political careers is still disproportionally small. However, can we say that we are in a reversing cycle process, in structural terms, with regard to the dominance of men in leadership and top positions, in institutions and companies? In this contribution we selected the role of political culture and political communication as enhancer of gender differences in the attribution of top political positions, considering the case of Portugal in a European comparative perspective.
    Gender equality is a multidimensional problem, particularly in terms of the relevant political and cultural reasons referred to. It is as well a political communication and cultural issue. Regarding the context of analysis, we aim to respond to the following questions: What are the transnational tendencies that link together different European nations regarding the lack of gender balance in leading careers? Are we experiencing a reversing cycle in structural terms, with regard to the dominance of men in leadership and top positions in institutions and companies? With these issues and questions in mind, we aim and have as main objective to discuss the role and influence of political culture, political socialization and political communication on the access to a political career, using the Portuguese case in a comparative perspective.
    We suggest that achieving higher levels of democratization is largely a consequence of assertiveness. We argue that a balanced gender inclusion and distribution, particularly in top careers, is not yet a generally accomplished goal in neoliberal democracies, despite the fact that there is some evidence of positive progress concerning equal gender opportunities, as we may see in the last section of this contribution.
In relation to the close connection between the development of democracy and the inclusion of a civic and political culture, democracies in which we find higher levels of equality are also those that reached higher levels of education, individualization, capacity to develop political competence and criticism to the political status quo. As a consequence, we argue that the study of political success in a democracy, considering different levels of political participation, allows for a better forecast of the best political systems in which gender equality is more likely to succeed.

Palavras-chave: gender; political communication; political culture; political socialization.

Representações mediáticas de (novos) representantes políticos: André Ventura, Cotrim de Figueiredo e Joacine Katar Moreira entre a novidade e a polémica Gustavo Freitas (UC)

Em 2019, com o resultado das eleições legislativas nacionais, a Assembleia da República Portuguesa conheceu significativa diversidade parlamentar. Entre os dez partidos que conquistaram assento no Parlamento, três eram estreantes, assim como os seus deputados: André Ventura, eleito pelo partido Chega; Joacine Katar Moreira, eleita pelo partido Livre;  e João Cotrim de Figueiredo, eleito pelo partido Iniciativa Liberal.
Vários foram os motivos que tornaram estes novos atores políticos em avos da atenção mediática, dos quais se ressaltam o fato de representarem, os três, um feito inédito; de André Ventura ser popular e mediaticamente referenciado como deputado de “extrema-direita”, ter promovido e se envolvido em diversas polémicas e ser um rosto conhecido de um canal de televisão de um dos mais proeminentes grupos de comunicação portugueses; e de Joacine Katar Moreira ter sido a primeira mulher luso-guineense a encabeçar uma lista de candidaturas, ser eleita e, em cerca de três meses de mandato, perder a confiança política do partido pelo qual foi eleita.
Tomando como referencial os estudos dos media e, em particular, o conceito de representação (Hall, 2016), este trabalho concentra-se em identificar e compreender padrões na representação destes atores políticos no jornalismo mainstream durante os seis primeiros meses de mandato (de 25 de outubro de 2019 a 24 de abril de 2020). Como desafio, propusemo-nos a responder as seguintes perguntas de partida: Quais as diferenças entre as representações de cada um dos deputados? Há diferenças destacáveis entre a forma de representar por parte de cada órgão de comunicação social? E, ainda, sob que setores incide o foco da cobertura informativa sobre os atores políticos em questão?
    Para responder à questão enunciada, recorremos à Análise de Conteúdo qualitativamente orientada (Anderson, 2012; Krippendorff, 2003) de um corpus composto por 355 textos informativos extraídos dos três principais jornais portugueses (Correio da Manhã, Diário de Notícias e Público). Toda a estratégia metodológica está ancorada a teorias que tanto evidenciam como as questões de raça e género (Biroli, 2010; Brooks & Hébert, 2006; Ribeiro, 2017; Silveirinha, 2008; Simões & Amaral, 2019; Tuchman, 2000) quanto as relações pós-coloniais (Sabido, 2019; Siapera, 2010; Spivak, 2010) podem influenciar a forma pela qual diferentes sujeitos são representados.
    Entre as conclusões a que já pudemos chegar, destacam-se a sóbria representação de João Cotrim de Figueiredo, estritamente focada em sua atuação partidária-parlamentar; e a híper-representação de André Ventura, sujeito das polémicas e fonte única de muitos textos noticiosos, e de Joacine Katar Moreira, secundarizada, informalmente nomeada e de voz ausente na maioria dos textos que a mencionam.

Palavras-chave: Jornalismo mainstream; Atores políticos; Representação; Género; Pós-colonialismo

A Doxa Jornalística: Democracia e opinião sobre Joacine Katar Moreira no Observador Daniel Cardoso (Manchester Metropolitan University/ULHT/CICANT) & Sónia Lamy (ULHT/CICANT)

O espaço de opinião nos órgãos de comunicação social, e sobretudo na imprensa, desenvolve-se, nos atuais moldes, a partir dos anos 1980. Aí, na maior parte dos jornais, a página dedicada à opinião é identificada pelo título referencial de Opinião (Figueiras, 2003). Enquanto os textos noticiosos estão presentes ao longo de todo o jornal, os textos de opinião tendem a surgir agrupados num espaço determinado e identificado enquanto tal. No contexto jornalístico o espaço de opinião atravessa várias temáticas e não há uma devoção apenas à política, mas a questões, ou assuntos políticos de uma forma geral (McNair, 2003). A maior parte dos jornais determina este espaço e clarifica os seus objetivos, nos seus livros de estilo (Público, 2005; El Mundo, s/d) clarificando este género noticioso enquanto espaço não informativo.
A nossa abordagem é marcada por uma perspetiva feminista interseccional e construtivista social, que compreende a produção jornalística e dos órgãos de comunicação social enquanto parte de um aparato sistémico de (re)produção de discursos hegemónicos sobre género, raça e classe (van Dijk, 2005, 2012).
Este estudo faz parte do projeto de investigação “Intersectionality Media Lab – The Joacine Katar Moreira Case Study” do CICANT – Universidade Lusófona, financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que acompanha os primeiros seis meses da cobertura mediática da deputada. A partir da análise de todas as peças de opinião publicadas no Observador entre 06/10/2019 e 06/04/2020 que mencionam diretamente Joacine Katar Moreira (JKM), procuramos compreender como é que o espaço opinativo opera dentro do contexto mediático neoliberal português, que discursos circulam nesse espaço, que vozes são convocadas ou elididas e que enquadramentos temáticos são usados para estabelecer a grelha de inteligibilidade da entrada de uma mulher negra com uma deficiência de expressão oral para o Parlamento Português.
De entre as peças recolhidas, apenas se encontra um Editorial, cerca de metade são produzidas por colunistas regulares, e só seis colunistas permanentes nomeiam diretamente JKM neste período. Na totalidade destes textos, Joacine Katar Moreira é enquadrada enquanto: Jogadora política, Portuguesa, Anti-racista, Mulher negra, de Classe baixa, Pessoa com gaguez. As peças de opinião focam-se num conjunto restrito de eventos: desfiliação do Partido de JKM, discussão sobre reparações coloniais, aparição pública do assessor de JKM, discussão da proposta-lei sobre eutanásia, ascensão de Rui Rio ao poder no PSD.
Através de análise Temática e de Análise Crítica do Discurso, mostramos como as referências a JKM circulam retoricamente, na maior parte dos casos, a partir da ironia e sarcasmo, e que ela é feita condensar e presentificar uma série de construtos raciais,  genderizados e capacitistas. A partir do espectro desses construtos, JKM é então apresentada como um risco para a Portugalidade e para a Democracia, e portanto um legítimo alvo de posturas discursivas que vão para além da civilidade e que colocam em causa a própria possibilidade de pleno reconhecimento político da negritude feminina de JKM enquanto tal.

Palavras-chave: Media; Jornalismo; Opinião; Política; Interseccionalidade.

Agroligadas: as mulheres do agronegócio de Mato Grosso no negócio da política Julia Munhoz (UFMG)    

O presente trabalho situa e reflete sobre o surgimento de um acontecimento na cultura política de Mato Grosso: a participação de mulheres ligadas ao empresariado do agronegócio buscando visibilidade midiática e reconhecimento social como interlocutoras nas discussões dos negócios do setor e na política eleitoral. O movimento é chamado de “Agroligadas”. Foi criado em 2018, por lideranças femininas de Mato Grosso e conta atualmente com 750 mulheres filiadas. São mulheres de diferentes perfis, mas da mesma condição social: empresárias rurais e esposas ou filhas de produtores. Com o movimento, elas ganharam espaço de interlocução na sociedade pelas performances que protagonizam em redes sociais e no rádio. Nosso eixo teórico é a ideia relacional de comunicação, de Vera França (2001), para a visada da globalidade do processo comunicativo. Incorporamos as noções de Acontecimento, com Louis Quéré (2012), feminismo com Maria João Silveirinha (2016) e Chimamanda Adiche (2015), que apontam o feminismo como algo ligado à cultura que envolve as próprias mulheres, que por vezes reproduzem costumes e valores machistas do meio social ao qual são submetidas. O conceito operador é o enquadramento com Erving Goffman (2006), para a apreensão da performance. Como procedimento metodológico, selecionamos momentos mediáticos das líderes do movimento que situam a intenção de usar o espaço de visibilidade, e a força interna de interlocução entre as demais instituições de classe do agro, para a efetiva participação das mulheres do agronegócio também como candidatas nas próximas eleições. Repetem o mesmo percurso dos homens do agronegócio. Ao invés de situar a militância nos partidos políticos, segundo Pedro Pinto de Oliveira (2019), os empresários rurais usam as entidades de classe para o “cultivo” de novas lideranças para entrar na política eleitoral com a força do seu poder econômico. Atuam dos dois lados do balcão, da política e dos negócios. Na definição de Oliveira, são os chamados “agropolíticos”.  Partimos da pergunta condutora: como as Agroligadas constroem os sentidos desse movimento e reivindicam a condição da participação da mulher no agronegócio e na política local?

Referências:

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. Trad. Christina Baum. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

FRANÇA, V.R.V. Paradigmas da Comunicação: conhecer o quê. C. Legenda – Revista do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, Niterói, n. 5, 2001.

GOFFMAN, Erving. Frame Analysis: los marcos de la experiencia. Madri: Siglo XXI, 2006.

OLIVEIRA, Pedro Pinto de. Roteiro do ensaio audiovisual científico: o mundo rural e o cultivo do agropolítico no Brasil – a semente de Mato Grosso. In: Vera França; Paula Guimarães, Denise Prado. (Org.). Celebridades no Século XXI: volume 2 – diversos perfis, diferentes apelos. 1ed.Belo Horizonte, MG: PPGCOM/UFMG, 2020, v. 2, p. 117-135.

QUERÉ, Louis. A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista. In: FRANÇA, Vera Regina Veiga; OLIVEIRA, Luciana de (Org.). Acontecimento: reverberações. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

SILVEIRINHA, M. J. No encalço das mulheres de Chicago: conexões orgânicas e radicais do pragmatismo clássico americano. Revista FAMECOS v. 23 n. 3 (2016)


Palavras-chave: Comunicação. Política. Feminismo. Figuras Públicas. Performance