NOVA FCSH | Lisboa | 11 a 13 de abril de 2022

RESUMOS SOPCOM: DS VI – G

Disrupção e Sociedade VI: Género

O género nas pandemias de ódio: media sociais, covid 19 e as mulheres jornalistas Maria João Silveirinha (UC/ICNOVA), Bibiana Garcez (FL-UC/ICNOVA), Susana Sampaio-Dias (Portsmouth Univ.) & Camila Lamartine (NOVA FCSH/ICNOVA)

A pandemia de COVID-19 vem sendo acompanhada por uma “pandemia de discurso de ódio” e uma “infodemia” que se tornaram objeto de séria preocupação. Várias investigações apontam estes impactos sobre o jornalismo e referem um agravamento do discurso de ódio online sobre os/as jornalistas. No caso das mulheres, afetadas desproporcionalmente por essa questão, o discurso de ódio sexista online perpetua e exacerba a desigualdade de gênero, sendo alimentado pela misoginia offline, ao mesmo tempo em que a alimenta. Estes ataques podem não só ter graves consequências psicossociais sobre as profissionais, como constituem uma tentativa do seu silenciamento e servem como um exemplo dissuasivo para outras mulheres jornalistas (Nadim e Fladmoe, 2019; Edström, 2016). Ao cobrir questões de igualdade de gênero, os “campos masculinos” tradicionais ou assuntos “sensíveis”, as mulheres são expostas a discursos ainda mais violentos.


Essas questões devem ser observadas com lentes interseccionais, uma vez que “a misoginia e o gaslighting em rede interseccionam-se com o racismo, o fanatismo religioso, a homofobia e outras formas de discriminação para ameaçar as mulheres jornalistas” (UNESCO, 2021). Nas palavras de jornalistas mulheres levadas para os títulos de dois artigos científicos, para ser uma jornalista, “You Really Have to Have a Thick Skin” (Chen et al, 2020) porque “They Go for Gender First” (Adams, 2018).
Face a este enquadramento, a nossa apresentação tem por base um projeto que, considerando que os discursos de ódio visam de forma particular as mulheres e que a natureza desta ameaça raramente é institucionalmente reconhecida, procura mapear a sua dimensão para as mulheres jornalistas durante e antes da pandemia. A investigação que apresentamos tem, assim, por objetivos: mapear a dimensão e os impactos do discurso do ódio contra as mulheres jornalistas durante e antes da pandemia Covid-19; analisar como as profissionais vivenciam o discurso de ódio de forma interseccional e como respondem; e estabelecer como as jornalistas são vítimas da polarização das redes sociais.


Serão apresentados os resultados das entrevistas em profundidade com um conjunto de jornalistas previamente identificadas como os principais alvos dos comentários e cuja amostra foi constituída por uma amostragem intencional para seleção de indivíduos do sexo feminino, com experiência do jornalismo, em diversos meios informativos (rádio, televisão e imprensa). As entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas e são projetadas para três níveis de análise: individual, profissional e organizacional. Por fim, estará, nomeadamente, a dimensão das políticas de proteção institucional (ou a sua ausência) e avaliar o lado informal da camaradagem e/ou falta dela,  quando ocorrem casos de discurso de ódio.


O processo analítico passa pelo tratamento dos dados através do software de análise qualitativa aos níveis acima, abordando as formas como as profissionais experienciam os ataques do discurso de ódio em ambiente online como uma experiência de género socialmente situada.

Palavras-chave: discurso de ódio; mulheres jornalistas; ataques genderizados.

Assimetrias de género e política: percepções sobre o caso Sofagate Carla Cerqueira (ULP/CICANT) & Lurdes Macedo (ULP/CECS)

Partindo do acontecimento mediático que ficou conhecido por Sofagate, bem como das suas repercussões em termos comunicacionais, sociais e políticos, esta investigação tem como objetivo central compreender o modo como o mesmo foi interpretado por mulheres com responsabilidades políticas e/ou de implementação de políticas públicas em Portugal. Assim, reconhecendo a margem de autonomia dos públicos relativamente às assunções ideológicas veiculadas pelos media, propõe-se nesta comunicação um estudo que cruza a análise da cobertura noticiosa com a receção e que visa descortinar as perceções dos públicos relativamente às representações mediáticas de mulheres que exercem cargos políticos. Em particular, pretende-se compreender o modo como os públicos interpretam e se posicionam em relação aos significados latentes, às conceptualizações de género e de outras pertenças identitárias e às respetivas inscrições ideológicas na produção do discurso mediático, partindo de um caso recente e com muita repercussão pública.


Para o efeito, foi realizada uma investigação multimétodo, com pesquisa bibliográfica, análise de peças jornalísticas e auscultação de quatro grupos focais constituídos por mulheres com responsabilidades políticas e/ou de implementação de políticas públicas em Portugal. O material obtido foi, num momento subsequente, tratado com recurso à análise temática (Braun & Clarke, 2006) que demonstrou ser a abordagem mais adequada, já que permite “identificar, analisar e relatar padrões (temas) nos dados”, potenciando a compreensão dos significados explícitos e implícitos (Guest, Macqueen & Namey, 2012). Deste modo, recorrendo à análise temática (Braun & Clarke, 2006), a leitura crítica do material iniciou-se com a identificação dos paradigmas representacionais resultantes da cobertura noticiosa, com o objetivo de apurar as interpretações e os posicionamentos das participantes nos grupos focais, e, num momento posterior, centrou-se na explanação das causas atribuídas durante as discussões.


Os resultados apontam para um largo espectro de perceções que, nos seus extremos, vão da especulação mediática de um fait-divers ao claro sinal dado por Erdogan quanto ao seu posicionamento na relação entre género e política. Contudo, a maioria das mulheres  auscultadas tende para uma interpretação deste caso como um exemplo das assimetrias de género que ainda persistem na esfera política, nomeadamente ao nível do exercício de cargos com grande exposição pública. As participantes nos grupos de discussão referem ainda que o Sofagate teve a virtude de (re)colocar estas assimetrias na agenda mediática e permitir a sua  problematização.


Este estudo insere-se num projeto de investigação mais geral que visa explorar as interrelações entre género, poder e desenvolvimento.  Encerra uma pertinência académica e social, uma vez que visa promover representações de género plurais e diversificadas, bem como contribuir para a participação mais inclusiva e ativa das mulheres em várias esferas de ação política e cívica.

Palavras-chave: género; política; Sofagate; media; grupos focais

Mulheres operárias da Serra da Estrela: memórias e imagem projetada Sónia de Sá (UBI/LABCOM)

A invisibilidade mediática e, por consequência, da esfera pública, da mulher é resultado de construções sociais de género com séculos de história, que a votaram – e continuam a votar –, em diversas circunstâncias, para o segundo plano da vida pública e laboral e da doméstica e privada (Rojão, Augusto & Sá, 2019). Quando a abordagem é a representação da mulher em contexto de trabalho, a história mostra-nos que tem sido permanentemente silenciada, porque invisibilizada, sub-representada ou representada de forma estereotipada, quer no plano da legislação laboral (Baptista & Alves, 2019), quer no plano mediático (Ross & Pandovani, 2019; Lobo & Cabecinhas, 2018). Este silenciamento histórico é resultado de um conjunto alargado de visões, ações e legislações que empurraram a mulher para o seu ‘papel natural’, a de cuidadora, de submissa ao pai e ao marido, de responsável pela boa educação dos filhos, mas não como trabalhadora ou garante do sustento doméstico e familiar (Cabecinhas & Perez, 2019; Santos, Cabecinhas & Cerqueira, 2015). Com efeito, o trabalho não remunerado era e continua a ser menos relevante em quase todos os países da Europa (Chung & Lippe, 2020; Belknap, 2020), incluindo Portugal.


Se a imagem que a história nos conta sobre a mulher trabalhadora, mais especificamente, da mulher fabril, está por construir, ou, por outro lado, está por desconstruir para ser construída justamente, o principal propósito deste estudo é devolver à mulher operária a imagem de presença no contexto laboral com independência face ao homem e de relevância mediática e simbólica. É, portanto, um processo de (re)valorização da imagem da mulher operária fabril, que, tal como a maioria das operárias no país de no mundo, foi sistematicamente suprimida (Hatzfeld, 2013; Kabeer, 2018; Ross, Jansen, & Bürger, 2020).


Neste estudo, analisamos a imagem projetada das mulheres operárias da indústria de Lanifícios da região da Serra da Estrela, a partir de 10 entrevistas, perspetivando-a a partir dos estudos de género e feministas (Cefai, 2020; Arruzza, Bhattacharya & Fraser, 2019). Os resultados apontam para uma valorização da autoimagem das mulheres trabalhadoras e antigas trabalhadoras fabris por via do resgate de memórias cujas personagens principais passaram a ser as próprias.

Palavras-chave (até 5 palavras separadas por ponto e vírgula)
Mulher trabalhadora; imagem; memórias

Um olhar sobre plataformas digitais para mulheres a partir da economia política feminista dos media Elizângela Noronha (UC)

Ao contrário do que poderia parecer óbvio, economistas políticos e feministas – apesar de terem muito em comum a analisar – continuam a realizar suas investigações com fortes diferenças no seu foco
conceptual e na sua abordagem metodológica. H. Leslie Steeves e Janet Wasko (2002) observam que este distanciamento emerge da dificuldade de os economistas políticos passarem a considerar as relações de poder e gênero, como fazem com relação às questões de classe; e das feministas passarem a realizar uma análise material do poder, aliando em suas críticas as visões da economia política. No entanto, estas autoras apontam para um conjunto de pontos comuns que podem levar ao que chamam de uma “aliança amigável” entre teoria feminista e economia política, afinal, “os problemas globais urgentes de injustiça e desigualdade requerem ambos os tipos de análises” (p. 28).

Assim, partindo de pontos comuns já identificados por teóricas feministas (Byerly, 2002, 2020; Byerly & Mcgraw, 2020; Byerly & Ross, 2008; Gallagher, 2014, 2016; Lee, 2011; McLaughlin, 2002; Meehan &
Riordan, 2002) que propõem uma análise crítica feminista da indústria mediática e do jornalismo produzido neste contexto, propomo-nos a observar como plataformas digitais dirigidas às mulheres
em Portugal e no Brasil compreendem as suas audiências e os seus interesses, relacionam-se com os aspectos políticos, econômicos e tecnológicos dos grupos de comunicação a que pertencem e, ainda, como as jornalistas dessas plataformas posicionam-se enquanto mulheres que escrevem sobre mulheres e para outras mulheres.

Utilizamos como material de análise entrevistas realizadas a jornalistas das plataformas _Delas_ (Portugal) e _Universa_ (Brasil) e, a partir deste material, buscamos refletir sobre as transformações de
um jornalismo que tem as mulheres como audiência-alvo e, portanto, como principal mercadoria (Smythe, 1981); mas também sobre como a propriedade dos media se cruza às dimensões tecnológicas, pois esta é uma indústria cada vez mais orientada pelas métricas para produzir
seus conteúdos e avaliar seus resultados.

Neste sentido, também importa questionar a “conglomeratização” da indústria mediática global, pois é resultado da concentração do poder decisório sobre o que será tratado pelos media. A este respeito,
Carolyn Byerly e Karen Ross (2008) referem que a ausência de pesquisas feministas capazes de articular quem é “o dono” das empresas e o tipo de informação produzida por elas tem produzido investigações de cunho crítico “neutras” ao gênero.

Assim, buscamos perceber as conexões entre a cobertura noticiosa realizada pelas plataformas digitais referidas – que integram grandes grupos de comunicação em seus contextos nacionais – e os contextos financeiros e políticos dentro dos quais essa cobertura é definida e produzida. A partir deste movimento, torna-se possível compreender as estratégias – jornalísticas e empresariais – utilizadas pelo poder financeiro e político masculino para manter a sujeição das mulheres dentro da economia política do capitalismo mundial, mesmo quando os produtos/conteúdos são dirigidos para elas.

Palavras-chave: jornalismo; mulheres; economia política feminista dos media; plataformas digitais.

O papel dos novos media na comunicação de ciência social e na criação de empatia: o caso dos estudos de género em Portugal Rita Alcaire (UC/CES)

Esta comunicação insere-se no âmbito da minha investigação de pós-doutoramento que visa promover o conhecimento e a confiança entre os estudos de género em Portugal e diferentes públicos. Para tal, exploro a forma como os estudos de género são comunicados em Portugal, dentro e fora da academia, e proponho diferentes estratégias de comunicação de ciência social para fomentar o envolvimento com diferentes audiências.


Portugal tem assistido a uma ascensão de movimentos conservadores e discursos populistas que ganharam força principalmente ancorados no ataque à chamada ‘ideologia do género’. A ideia geral por trás desse discurso é a proteção da família tradicional, o suposto superior interesse da criança e o direito de pais e mães de impedir que as escolas abordem tópicos relacionados com a diversidade sexual e de género. Em conjunto com outros discursos baseados numa certa ideia de moral que circulam na esfera pública, isso cria sérios obstáculos para enfrentar a discriminação contra dissidências sexuais e de género, assim como para confiar na investigação em Estudos de Género.


No entanto, a tendência atual de populismo crescente apresenta oportunidades estratégicas de mudança, nomeadamente para uma rutura na forma como as questões de género são comunicadas a diferentes públicos e uma capacidade de promover uma mudança epistemológica focada nas relações entre a academia, as artes e ativismo. Especificamente, através da realização de atividades de ciências sociais em ambientes diferentes e inesperados, fora da academia, como formas privilegiadas de engajamento entre cientistas e cidadãos; bem como a utilização de vídeos feitos com smartphones e do podcast como metodologias na pesquisa em Estudos de Género. Como podem ser usados formatos audiovisuais para contrabalançar o domínio da palavra escrita na academia, a fim de envolver o público dentro e fora da universidade? Esta é a principal questão que desejo abordar ao longo da apresentação.

Palavras-chave: estudos de género; podcast; vídeos de smartphone; comunicação de ciência social; empatia


Perceção das representações de género na publicidade em Portugal Melissa Pio (NOVA FCSH/ICNOVA)

O uso dos estereótipos de género na publicidade tem sido tema de pesquisas acadêmicas há mais de cinco décadas. Porém, apesar de estudos mais recentes evidenciarem uma leve diminuição do uso de papéis de género por parte dos anunciantes, esta redução acaba por não ser significativa, uma vez que ainda existe ainda a sua predominância nas mensagens das marcas (Eisend, 2019). E, mesmo sendo um tema de pesquisa razoavelmente constante, é notável a baixa frequência com que tem sido tratado em publicações de referência nos últimos anos. Além disso, quando tratado, este tema é mais comumente explorado do ponto de vista da análise de conteúdos, deixando assim uma lacuna do que diz respeito à produção publicitária e à receção que os públicos fazem destes estereótipos de género na publicidade, tanto em um âmbito internacional quanto, e em ainda maior medida, no contexto português. Esta pesquisa procurou diminuir uma destas lacunas, ao desenvolver um estudo piloto para mensurar como os consumidores residentes em Portugal avaliam o grau de estereótipos de género em diferentes anúncios fictícios e qual variável, o texto ou a imagem, tem um papel mais preponderante nesta avaliação. Isso foi feito através de dois questionários, um com a variações de estereótipos de género presentes apenas nas imagens e outro apenas nos textos. Como resultado, pudemos levantar evidências de que o texto parece deixar a presença de estereótipos de género mais clara para os respondentes que, por sua vez, tiveram também mais facilidade em reconhecer estereotipias ligadas ao status ocupacional. Também recolhemos dados sobre o próprio questionário, que foi tido como claro, mas que poderá ser futuramente ajustado para que se torne mais didático, especialmente quanto ao conceito dos estereótipos de género. A conclusão é de que que este estudo atingiu os objetivos de forma satisfatória tanto do ponto de vista do levantamento de evidências preliminares como do lado da validação, com ajustes, da metodologia. Além disso, a falta de unanimidade na mensuração dos estereótipos, indica a importância de se entender mais profundamente a literacia do público residente em Portugal quanto aos estereótipos de género.

Palavras-chave: Publicidade; estereótipos de género; perceção; estudo piloto; Portugal